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O ano de 1969 foi marcado por diversos eventos que marcaram o século passado. Só nos meses de julho e agosto daquele ano, a Apollo XI pousou na lua e o festival de Woodstock foi realizado em uma fazenda perdida no interior dos Estados Unidos. Em junho, Nova York foi sacudida pelo confronto entre membros da comunidade gay e a polícia local, marcando o início de uma nova era no movimento pelos direitos LGBTQIA+ no país.

Mas um outro evento, igualmente marcante, acabou ficando esquecido, exceto pelas pessoas que estiveram envolvidas nele – O Festival Cultural do Harlem. Durante seis domingos, entre os meses de junho e agosto, cerca de 300 mil pessoas se reuniram para assistir shows de artistas do calibre de Stevie Wonder, Sly & Family Stone, Gladys Knight & The Pips, Nina Simone, 5th Dimension (na foto acima), entre outros.

O cineasta Hal Tuchin registrou o evento em filme mas ele não encontrou nenhuma produtora ou distribuidora que se interessassem em leva-lo às telas. Por mais de cinco décadas este material ficou guardado, esquecido, até que Amhir “Questlove” Thompson, decidisse utilizá-lo para o documentário “Summer of Soul (…or, When the Revolution Could Not Be Televised). O filme estreou no festival de Sundance e ganhou o prêmio de Melhor Documentário.

“Summer of Soul”, além de trazer trechos das apresentações musicais realizadas no Mount Morris Park, reúne depoimentos dos artistas e de pessoas que assistiram o festival. Além disso, Questlove traça um panorama de como era o Harlem na época e as lutas da comunidade afro-descendente na luta pelos direitos humanos. Outra comunidade que marca presença no Harlem também tem destaque no filme – latinos, a maior parte formada por porto-riquenhos e seus descendentes, também tem destaque no filme.

Embora não tenha feito parte do line-up do festival, Gil Scott-Heron se faz presente não só no subtítulo do documentário, que faz referência a “The Revolution Will Not Be Televised”, mas também nos depoimentos feitos por moradores do Harlem sobre a chegada da Apolo XI na Lua: havia dinheiro para se mandar o homem para a lua enquanto negros morriam de fome nos Estados Unidos. Imediatamente, outra música de Heron vem à memória: “Whitey’s on the Moon”, que questiona justamente essa política. Hoje, mais de 50 anos, vemos um homem rico, branco, gastando milhões de dólares para passar quinze minutos no espaço – e milhões continuam passando fome.

O filme em si, também traz uma outra questão: como um evento grandioso como esse passou anos ignorado? Se Woodstock, que aconteceu exatamente no mesmo período, até hoje é celebrado como um dos maiores, se não o maior, festival de música, por que que nenhuma ou pouquíssima atenção foi dada ao Festival Cultural do Harlem? Tuchin comenta, em um trecho do filme: “Até tentamos chamá-lo de Woodstock negro, mas ninguém se interessou”.

Mais do que um filme nostálgico, “Summer of Soul” trata de temas que ainda hoje continuam tão prementes quanto em 1969. 1969 é hoje.