A série “Andar na Pedra: A História dos Raimundos”, que estreou semana passada na Globoplay busca contar a trajetória e desvios de uma das maiores bandas do país. Mas, ao fazer isso, também acaba funcionando como um reposicionamento de imagem de alguns integrantes, em especial o ex-vocalista Rodolfo Abrantes e o guitarrista Digão.
Dirigida por Daniel Ferro (diretor de “Tudo Pela Música – os 20 anos da Deck”), a série traz em cinco episódios a história dos Raimundos, desde sua formação até os dias atuais. Com depoimentos dos integrantes de sua formação clássica, amigos próximos (como Gabriel Thomaz, parceiro desde os tempos de Brasilia), integrantes próximos de equipe e companheiras (Adriana Toscano, viúva de Canisso, e Ale Abrantes, esposa de Rodolfo), o que se tem é um panorama bem amplo de como a banda se tornou um fenômeno que foi além das fronteiras do rock nos anos 90 e sua subsequente decadência. Mesmo as brigas, excessos e falhas são expostas, com cada um deles refletindo sobre os impactos dessas situações na trajetória da banda e em suas vidas pessoais.
Mas também aí residem alguns problemas da série: ao mesmo tempo que as crises são expostas, os depoimentos de Rodolfo e Digão parecem ser bem calculados, como se o tempo todo dissessem um grande “foi mal, tava doidão”. Para o ex-vocalista, toda sua trajetória acaba virando um terreno para sua grande virada pessoal – a conversão religiosa, que resultou em sua saída dos Raimundos, no auge do sucesso. Já Digão não se acanha em chorar diante da câmera em diversos momentos da série, se afastando da imagem construída nos últimos anos de homem tosco e reacionário políticamente.
Perto disso, os depoimentos de Fred e de Adriana Toscano, que poderiam servir como contrapontos a estes momentos, acabam perdendo peso e se perdem durante a narrativa. Canisso, que deixou testemunhos gravados em áudio, revela aqui e ali, um desconforto com os rumos que passaram a guiar os Raimundos nos últimos vinte anos.
Mesmo algumas polêmicas recentes, como a acusação de que repasses financeiros acordados entre a banda e os herdeiros de Canisso deixaram de ser realizados, conforme combinado, acabam não sendo abordados. Também a ausência de depoimentos dos integrantes atuais dos Raimundos não parece ser justificável – o guitarrista Marquin está na banda há mais de vinte anos, será que ele não tem uma opinião, uma visão, um nada a dizer sobre este período?
Embora seja uma série bem dirigida, o que temos no fim um rebranding de Digão, o homem que carrega o legado da banda até os dias de hoje (mesmo com um repertório que tenha envelhecido mal em muitas de suas músicas) e de Rodolfo, um homem que olha para suas falhas do passado em paz consigo mesmo. Antes dos créditos finais, surge a imagem do vocalista na praia, com sua prancha de surf e a mensagem: Rodox (banda criada por ele após a saída dos Raimundos) volta aos palcos em 2026. Para ser completo, só se tivesse a frase “Garanta já o seu ingresso!”