Afrika Bambaataa – gênio, visionário e humano cheio de falhas

A vida de um jovem negro na Nova York dos anos 1970 não era moleza. A cidade vivia sob um regime de ausência deliberada do estado, que relegava grandes regiões ao mais absoluto descaso.

No Bronx, com maioria dos moradores negros e latinos, os sintomas da desindustrialização eram claros: desemprego, áreas abandonadas, cortes de serviços públicos. Boa parte da população vivia em cortiços, que frequentemente queimavam em incêndios, muitos deles provocados pelos proprietários dos prédios, para que pudessem receber o seguro (essa situação é retratada em “Open Letter (to a Landlord)”, do primeiro álbum do Living Colour.

Os rapazes, com poucas perspectivas de conseguirem empregos e qualidade de vida dignos, se organizavam em gangues. Muitas delas eram rivais entre si e as brigas e mortes eram frequentes.

Foi dentro deste contexto que começaram a surgir as primeiras festas com objetivo de tentar pacificar a comunidade jovem. Primeiro, foi o jamaicano Kool Herc, que fez sua primeira festa em 11 de agosto de 1973. Esta data marca, de forma simbólica, o nascimento da cultura hip hop. Logo na sequencia, dois outros DJs começaram a organizar festas semelhantes, o barbadiano Grandmaster Flash e o estadunidense (filho de pai barbadiano e mãe jamaicana) Lance Taylor.

Taylor fazia parte da gangue Black Spades, que havia surgido sob inspiração de Malcolm X e sua Nação do Islã e dos Panteras Negras mas, ao longo dos anos, essa influência foi se diluindo e a gangue acabou se tornando mais uma na cidade que saia em busca de brigas e violência contra rivais. Mas, em 1977, um fato muda a trajetória de Taylor: após ganhar um concurso de redação da UNICEF, ele ganha uma viagem à Àfrica.

No retorno, ele cria a Zulu Nation e conseguiu algo que muitos consideravam impossível: pacificar as gangues da cidade, fazendo com que o foco das rivalidades se mudasse para outro aspecto: ao invés de armas e brigas, os membros de cada gangue se enfrentariam para quem era melhor na dança, nas festas.

A partir de então, vários rivais passaram a se mobilizar, em conjunto, para realizar mais festas (o que implicava também em construir conhecimento para produzir os eventos – que ia desde como aprender a fazer gatos de eletricidade para ligar os equipamentos, a desenvolver DJs, MCs e B-Boys, além do grafitti). Com base nesses pilares, Taylor, agora Afrika Bambaataa, virou peça fundamental na criação da cultura hip hop.

No começo dos anos 1980, Bambaataa muda os caminhos da música. A partir da recriação de “Trans Europe Express”, do Kraftwerk, ele lança “Planet Rock”, que semeou as bases do electro-funk que se espalhou pelo mundo. Não é coincidência o fato do produtor Arthur Baker, que trabalhou com Bambaataa em “Planet Rock” tenha chamado a atenção dos ingleses New Order, com quem ele também colaborou posteriormente.

Ao longo dos anos, a influência de Afrika Bambaataa extrapolou os limites do hip-hop – no começo dos anos 80, integrantes da Zulu Nation foram à Inglaterra para ministrar oficinas para a garotada. Foi justamente em uma oficina de grafitti, na cidade de Bristol, que apareceram uns jovens que depois formariam o Massive Attack. Goldie também participou desta oficina. Muito provavelmente, o posteriormente famoso artista plástico Banksi também. No Brasil, o álbum em que Marcelo D2 mergulha na mistura de samba com batidas de hip hop cita “Looking for a Perfect Beat”. “Renegades of Funk” acabou se tornando um clássico do repertório do Rage Against The Machine.

Se o legado de Afrika Bambaataa é inquestionável, Lance Taylor acabou enfrentando sérios problemas – nos últimos anos, sofreu diversas acusações de assédio sexual e pedofilia, o que acabou resultando em sua expulsão da Universal Zulu Nation. Em maio do ano passado, ele perdeu um processo em que foi acusado de abuso sexual em que a vítima alega ter sido repetidamente abusada entre 1991 e 1995.

Gênio, visionário e ser humano com falhas, Afrika Bambaataa morreu aos 68 anos, em decorrência de um câncer de próstata.

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