Mulheres brilham no Bangers Open Air

Tatiana Shmayluk, do Jinjer, em destaque. Arch Enemy (direita, no campo superior) e Lucifer (direita, no campo inferior). Fotos: Flavio Leonel/Roque Reverso

Flavio Leonel – do site RoqueReverso

O primeiro dos dois dias do festival Bangers Open Air de 2026 teve o predomínio, entre as bandas que mais se destacaram, de grupos com vocais femininos da mais alta qualidade. Com performances arrebatadoras, Jinjer, Arch Enemy e Lucifer brilharam intensamente no sábado, 25 de abril, no festival realizado no Memorial da América Latina em São Paulo.

Bons shows também foram proporcionados pelas bandas Black Label Society e In Flames. Entre os grupos brasileiros, destaque para a Crypta, grande nome do País que já é figura carimbada nos grandes festivais de heavy metal pelo mundo.

Do hard rock ao death metal, passando pelas inúmeras vertentes do bom e velho heavy metal, o Bangers Open Air mostrou, mais uma vez, porque assumiu o posto de principal festival de rock pesado do Brasil e da América do Sul.

Sob calor intenso e sol forte durante boa parte do festival, o público desfrutou grandes momentos musicais, além de diversas experiências, envolvendo, por exemplo, gastronomia, tatuagens e merchandising de banda.

‘Disneylândia do Heavy Metal’

Considerado uma espécie de “Disneylândia do Heavy Metal” no Brasil, o Bangers Open Air se transformou rapidamente no lugar onde todo fã brasileiro e da América do Sul do estilo deseja estar, dada a quantidade de bandas importantes presentes no line-up e as diversas experiências que o festival proporciona.

Além de estar presente em 2026, o Roque Reverso fez a cobertura especial da edição de 2025 no Memorial da América Latina.

O site esteve presente no dia 2 de maio do ano passado, quando os destaques foram os shows dGlenn Hughes, Doro, Pretty Maids e Armored Saint; no dia 3, quando os shows de Municipal Waste, Saxon, Dark Angel e Sabaton dominaram o evento; e no dia 4, quando os shows de W.A.S.P., Destruction, Paradise Lost e Kerry King foram os de maior impacto.

Com Tatiana Shmayluk sublime e banda afiada, Jinjer ganha o público

Se houve um show que conquistou o público de uma maneira crescente e arrebatadora, essa apresentação foi a da banda ucraniana Jinjer no Bangers Open Air. Foi o segundo grupo do dia a tocar no Palco denominado Hot Stage.

Com técnica vocal impressionante e capacidade incrível de promover variações entre o modo gutural brutal e o modo de cantar limpo e doce, a vocalista Tatiana Shmayluk virou o centro das atenções.

Este jornalista viu até seguranças e bombeiros que davam apoio ao público admirarem a capacidade vocal de Tatiana em diversos momentos do show.

Em diversos momentos da apresentação, foi possível vê-la sair de um vocal leve e límpido para um modelo comparável ao mais agressivo monstro imaginável nas mais fortes histórias de terror.

E pasmem: com a maior naturalidade, como se fosse a coisa mais simples do mundo, sem expressões de sofrimento ou necessidade de força, como costuma ser visto normalmente em qualquer show de metal extremo!!!

Não bastasse toda a técnica de Tatiana, a banda como um todo mostrou alto nível técnico e muito entrosamento.

Roman Ibramkhalilov, na guitarra e com riffs certeiros, Eugene Abdukhanov, com um baixo bastante técnico, e Vladislav Ulasevich, com um bateria em muitas ocasiões na velocidade de um grindcore, foram decisivos para levar o show do Jinjer em um nível absurdo.

Entre os destaques musicais, “Green Serpent”, “Fast Draw”, “Tantrum, “Teacher, Teacher!” e “Sit Stay Roll Over” foram algumas que chamaram a atenção. Mas o show foi coeso do início ao fim e, por isso, entrou para a lista dos melhores do festival.

Com nova formação, Lucifer faz mais um grande show em SP

Uma das primeiras bandas a se apresentar no dia no Bangers Open Air 2026, o grupo Lucifer subiu ao Sun Stage ao meio-dia de um sábado quente. Tanto a banda como o público demonstraram dedicação exemplar para suportar a temperatura alta e, no caso dos fãs, o sol forte.

Liderado pela vocalista Johanna Platow (conhecida anteriormente como Johanna Sadonis, mas que alterou seu nome por causa de fim de casamento), o Lucifer é originário de Berlim, mas atualmente virou uma banda multinacional.

E, para quem viu o grupo fazer um dos melhores shows de 2024 em São Paulo, a diferença na formação da banda foi quase completa, restando apenas Johanna como líder e responsável pelas mudanças.

Em 2025, saíram do grupo o baterista Nicke Andersson (vocalista na banda The Hellacopters), além de Martin Nordin (guitarra), Linus Björklund (guitarra) e Harald Göthblad (baixo).

A formação que se apresentou no Bangers Open Air, além de Johanna contou com Kevin Kuhn (bateria), Coralie Baier (guitarra), Max Eriksson (guitarra) e Claudia González Díaz (baixo).

Diferença? Pouquíssima, já que o coração da banda é Johanna, com carisma arrebatador, técnica vocal perfeita e uma dedicação capaz de sobreviver aos altos e baixos que o mundo do bom e rock and roll costuma proporcionar.

Destaque também para além dos demais ótimos músicos, a performance de baixista Claudia González Díaz , com um estilo e carisma também arrebatador, daqueles que incentivam as pessoas a seguir na música.

O set list, como na maioria dos shows, para se adequar ao festival, foi curto, mas algumas das melhores músicas do Lucifer estiveram presentes.

“Crucifix (I Burn for You)”, “Wild Hearses”, “At the Mortuary”, “Bring Me His Head” e “Fallen Angel” brilharam, como em 2024. Fez falta, no entanto, “Maculate Heart”, que é uma das melhores e, para muitos, a melhor música da banda.

Com o fim do show, a mesmíssima sensação após a apresentação de 2024 em São Paulo foi observada por este jornalista: a de que um grupo com grande potencial de trazer um bom número de novos fãs para o rock está aí pronto para que rádios, produtores de festivais e veículos da imprensa especializada ajudem a difundir sua música cada vez mais. No caso do Bangers Open Air, a largada foi dada em mais uma boa sacada dos organizadores, que poderiam ser seguidos por outros festivais, como o Monsters of Rock e até mesmo o Rock in Rio, que já revelou muita atração desconhecida do grande público nos seus áureos tempos.

Continua muito estranho a ausência do Lucifer na programação normal das rádios de rock. O rock precisa de grupos como este para retomar seu protagonismo na juventude, hoje mais voltada a estilos musicais de qualidade duvidosa.

Enquanto a banda não é difundida como merece, os sortudos que presenciaram os shows no Brasil permanecem, por enquanto, como seres privilegiados.

Lauren Heart comanda o novo Arch Enemy em grande apresentação

Outra banda com mudanças de formação importante que esteve presente no Bangers Open Air foi o Arch Enemy. Mas com um detalhe ainda mais importante: o grupo era nada menos o headliner do dia, substituindo ninguém menos que o Twisted Sister, cujo cancelamento, motivado por questões de saúde sérias do eterno vocalista, Dee Snider (agora substituído em turnê por Sebastian Bach – ex-Skid Row), gerou uma frustração gigante em muitos fãs do bom e velho rock and roll.

A escolhida para o posto de vocalista no grupo sueco é a norte-americana Lauren Hart, conhecida pelo trabalho na banda Once Human). O anúncio foi feito em fevereiro, depois de a banda ser anunciada para o Bangers Open Air. Lauren substituiu a ex-vocalista Alissa White-Gluz, que deixou o grupo em novembro de 2025.

Com todos esses ingredientes, havia, claro, alguma desconfiança, já que Alissa tinha uma contribuição marcante para o grupo. A despeito deste detalhe, o número de fãs do Arch Enemy no Memorial da América Latina era gigantesco, justificando a escolha da banda para fechar os shows do dia no Hot Stage.

Toda essa dúvida caiu por terra quando o grupo subiu ao palco com um som avassalador. Com um volume ensurdecedor para quem estava mais próximo do palco, a tempestade sonora do Arch Enemy foi apresentada. E Lauren Heart simplemente arrasou.

Também com carisma, simpatia e técnica vocal, ela mostrou que a escolha da banda foi acertada. Mais do que isso, a recepção dos fãs foi a melhor possível, com direito a gritos específicos de apoio a Lauren, no tradicional coro brasileiro “olê, olê, olê”.

Vários sucessos do grupo foram tocados, como “Yesterday Is Dead and Gone”, que abriu o show, além de “The World Is Yours”, “Dream Stealer”, “Bury Me an Angel” e “Nemesis”.

A nova música já com a atual formação, “To The Last Breath”, também foi bem recebida e contou com todo o talento de Lauren.

Chamou a atenção em maior escala a execução de “My Apocalypse”, que parece ter ficado ainda mais interessante ao vivo nesta apresentação do Bangers Open Air.

Lauren Heart chegou a se emocionar no palco com a recepção brasileira na sua primeira vez no País. Os telões chegaram a mostrar lágrimas sinceras e gratas ao carinho dos fãs.

Ao fim do show, a constatação foi a de que o Arch Enemy tem um futuro promissor com a nova vocalista. E que claramente está num patamar acima de muitas bandas contemporâneas do mesmo estilo.

Crypta traz a força feminina brasileira

Figura carimbada nos grandes festivais internacionais de heavy metal, a banda brasileira Crypta se apresentou no Sun Stage do Bangers Open Air já perto do fim da tarde do sábado.

Com o sol já mais fraco, o público teve certo alívio físico, apesar de o calor ainda prevalecer.

A despeito da concorrência em horário próximo ao do show do Black Label Society, a quantidade de pessoas para ver o grupo brasileiro era grande, evidenciando o patamar atual da banda.

Tal qual outros grupos do dia com modificações na formação, o Crypta trouxe novidades na guitarra.

Pouco antes do festival, o Crypta anunciou um nome estrangeiro para uma das guitarras do grupo. Trata-se da norte-americana Victoria Villarreal, que se juntou às brasileiras Fernanda Lira (baixo e vocal), Tainá Bergamaschi (guitarra) e Luana Dametto (bateria).

Tal qual as bandas que brilharam com vocal feminino, o Crypta trouxe a pegada forte, só que com o molho brasileiro para o death metal.

Fernanda Lira continua muito bem nos vocais e com suas “caretas satânicas”, que dão todo o tempero às apresentações.

Com Luana Dametto, ela faz a dupla perfeita para dar suporte à guitarra feroz de Tainá Bergamaschi, agora com a companhia de Victoria.

O Crypta abriu o show com “Death Arcana” e fechou com a sempre ótima “From the Ashes”.

Ao longo do show, trouxe a mesma garra de sempre, comprovando que é o nome brasileiro mais forte internacionalmente depois do Sepultura. Com o final programado da banda liderada atualmente por Andreas Kisser, a bandeira brasileira do heavy metal está em boas mãos com o Crypta.

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