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Marcelo Moreira

Oitenta fábricas da Ford extintas dentro do setor de entretenimento e eventos de todos os tipos. A informação chocou quem estuda o mercado de trabalho e atua nas áreas de artes e espetáculos pela repercussão, já que o assunto foi tema de coluna da jornalista Míriam Leitão em O Globo e seu blog.
É inegável que os setores mencionados, que envolvem muita gente, foram os primeiros a serem afetados pela criose provocada pela pandemia mundial de covid-19 e, certamente, serão os últimos a voltar plenamente, quem sabe em 2022.
A decisão da Ford de fechar suas fábricas no Brasil e manter apenas alguns serviços ativos vai provocar a demissão de 5 mil trabalhadores diretos e afetar o trabalho de, no mínimo, outros 20 mil em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e São Bernardo do Campo (SP).
O setor de eventos, entretanto, prevê a evaporação de ao menos 450 mil postos de trabalho se a pandemia persistir em 2021. É uma estimativa excessiva, aparentemente, mas está sendo propagada pela Abrape (Associação Brasileira dos Produtores de Eventos).
A entidade realizou um levantamento em que aponta a extinção, até agora, de 335.435 vagas, o que pode ser expandido para 450 mil ao longo da cadeira de trabalho de eventos e espetáculos – a conta também inclui trabalhadores de bares, restaurantes, agências de turismo e de empresas terceirizadas de limpeza e serviços gerais.
É claro que é inútil ficar brigando para ver qual é o setor mais afetado na tentativa de conseguir mais espaço na mídia. É ridículo ver gente séria bradar bradar contra o espaço que a Ford ganhou por conta de sua saída do Brasil, enquanto, supostamente, a crise afeta com mais gravidade outros ramos de atividade. Parece uma briga maluca por migalhas em tempos de escassez profunda. Não leva a nada.
São várias as tragédias que afetam o Brasil e o mundo por conta da pandemia, ou agravamentos de situações por conta da pandemia, no caso específico do Brasil gerido porcamente por um governo criminosamente incompetente. 
São 14 milhões de desempregados no Brasil em janeiro de 2021, certamente o maior efetivo sem trabalho da história do país. 

O fechamento das fábricas da Ford são uma tragédia imensa para quem conhece o mercado automotivo e seu impacto em toda a cadeia e nas cidades desamparadas. Vai bem além dos 5 mil diretamente afetados e dos eventuais 20 mil indiretamente na área automotiva. 
É muito emprego formal que vai embora, emprego que pagava bem, valores bem mais altos do que a média de mercado e bem acima do que é pago no setor de entretenimento, gastronomia e eventos.
Entretanto, não dá para recriminar, de todo, os protestos de quem se sente abandonado, em todos os sentidos. A imensa maioria dos trabalhadores e artistas foi abandonada pelo poder público e grandes gestores de economia criativa, isso é um fato.
Também por conta da alta informalidade no setor e pela dificuldade relacionada ao emaranhado de leis a respeito da liberação de verbas que nao sejam via editais, as áreas e artes e cultura ficaram praticamente excluídas dos planos emergenciais de auxílio.
A tardia Lei Aldir Blanc, aprovada pelo Congresso em 2020, deveria representar um impulso para que essas áreas ao menos amenizassem suas perdas, mas tudo isso dependia da viabilização de programas fomento e incentivo por parte de governos municipais e estaduais, com leis específicas para a a implementação das ajudas emergenciais aos artistas e trabalhadores de bastidores dos espetáculos. Pouca coisa desse dinheiro foi liberada. Poucos foram beneficiados.
Diante deste cenário de trevas, não dá para imaginar que todos conseguirão viver de lives e doações. Em tempos de crise, é claro que não tem dinheiro para todo mundo. O que fazer então, quando as possibilidades diminuem e se tornam cada vez mais remotas?
Está difícil para os artistas, especialmente para os músicos, mas ainda mais para quem fazia a infraestrutura dos espetáculos e dos eventos de todos os tipos. E também para quem vive do comércio relacionado à musica
O desafio atual é sobreviver no mundo virtual. O ambiente está longe de ser um recurso lucrativo para quem vive de fabricar, importar e vender instrumentos musicais e equipamentos de áudio.
Segundo a Anafima, associação do setor, esses empresários, na maioria pequenos e médios (e só estas duas categorias já movimentam R$ 2 bi por ano) vivem um futuro incerto.

Da rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, à rua da Carioca, no Rio de Janeiro, muitas lojas especializadas estão fechadas.

João Cuca (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Alguns, como o saxofonista João Cuca, da empresa Ébano, tiveram que se adaptar aos novos tempos. O negócio de vendas de instrumentos de sopro ficou muito prejudicado. 
“Imagine ter que vender à distância um saxofone de bronze, que tem características muito peculiares, sem que o comprador possa sentir de perto a vibração e a sonoridade do instrumento”, questiona João.

A solução para resistir em 2020 deixou de existir e ele levou temporariamente sua bancada para casa, onde faz manutenção de instrumentos, o que tem lhe garantido o sustento nos últimos meses.

Não é apenas o João que precisou se adaptar: o mercado inteiro sofreu as consequências do isolamento. Essa é apenas uma das dificuldades enfrentadas pela indústria da música no Brasil, desde que a pandemia se instalou. Produção de shows, aluguel de equipamentos e outros nichos praticamente ficaram paralisados com a necessidade de distanciamento social.

Para não deixar o mercado morrer, a Anafima decidiu promover a primeira feira virtual da indústria da música no Brasil. Gente como o João poderá utilizar gratuitamente a plataforma do evento, que acontece na primeira semana de fevereiro, para “vender seu peixe” e mostrar ao público seus produtos e serviços. 

Para participar do Conecta+Música e Mercado, ele convidou dois outros músicos e fará uma apresentação rápida na internet. É sua estreia num ambiente que pode garantir a sobrevivência de muitos que trabalham com música nos próximos meses.

“O setor precisa de ânimo, de uma demonstração de força. 2020 foi um ano péssimo para quem trabalha com música, mas estamos animados para dar a volta por cima após um ano praticamente perdido”, afirma Daniel Neves, presidente da Anafima. “A mesma plataforma que hospedará o Conecta+Música e Mercado foi utilizada nos EUA e mostrou que podemos vender R$ 700 milhões nos próximos seis meses”, completa.