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 Marcelo Moreira

FOTO: DIVULGAÇÃO


Virei músico de condomínio. Devo agradecer ou lamentar? Pelo menos quatro conhecidos fizeram, de modos diferentes, a mesma pergunta nesta semana, com graus variados de angústia. Ainda se a remuneração valesse a pena…

Enquanto a ajuda da lei Aldir Blanc não vem e a burocracia trava os editais e programas de incentivos de Estados e municípios, os shows nos saguões e bulevares de condomínios comerciais e residenciais seguem sendo a única alternativa para alguns tocarem e receberem um troco – troco mesmo, de não refrescar nem mesmo em relação aos gastos de deslocamento.

A música de condomínio aliviou um pouco as dores da pandemia de covid-19 no começo nos principais centros urbanos. Era diferente dos pianistas contratados – e ignorados pelo público – nas praças de alimentação de shoppings. 

Geralmente em locais centrais, armavam seus teclados e amplificadores para entreter por uma ou duas horas um povo angustiado que esquecia, nas sacadas dos apartamentos ou escritórios, o novo mundo que nos era imposto.

Músicos versáteis, que tocavam em bandas de formaturas ou festas, se davam bem tocando de tudo em cima de uma base pré-gravada. Iam do sertanejo ao funk de Anitta, passado pelo rap dos Racionais MCs, pelas babas de FM dos anos 80, rock nacional, samba e pagode.

Em São Bernardo do Campo (ABC Paulista), por dois meses o condomínio Vida Viva contratou um músico do tipo one man band para divertir os condôminos e os edifícios vizinhos, todas as sextas-feiras, por dois meses, com direito a iluminação especial e som potente.

Da mesma forma como aconteceu com as lives, o interesse pelos músicos de condomínio diminuiu ao longo do tempo, seja pela falta de dinheiro para a remuneração, seja pelo fim da paciência que a falta de perspectivas nos legou.

Alguns ainda mantém o hábito de tocar ao menos no local onde moram para ensaiar, exercitar e ou mesmo pra desestressar. No condomínio Flamingo, na zona leste de São Paulo, Roque roca teclados na sacada às sextas-feiras, de manhã e no final da tarde. Virou um hábito na vizinhança escutar o som instrumental que varia de jazz a boleros.

“Não posso atrasar que o interfone toca sem parar. Até o porteiro me cobra pelo horário. Fico feliz de estar contribuindo de alguma forma para amenizar o sofrimento. Pena que ninguém compra os meus CDs expostos na portaria”, ironiza o músico profissional que já tocou na noite de São Paulo  do Rio de Janeiro.

Será que é isso o que sobrou para nós e para eles, os músicos do underground? Miltinho também tocou em seu condomínio espaçoso na zona oeste de São Paulo, pertinho de Osasco (Grande São Paulo). Só ele e o violão, com uma base pré-gravada. A galera do condomínio adorou. Foram duas vezes.

Os vizinhos de bloco e do andar não tiveram vergonha de bater em sua porta e pedir mais “showzinhos”, como denominavam o evento. Ele não tinha mais tempo, pois estava desesperado procurando outro emprego enquanto a pandemia o impedia de tocar.

Da forma mais estudada e educada possível, insinuou que poderia dar um jeito de voltar a tocar, mas que precisaria de ao menos uma “ajuda de custo” (maldito eufemismo para cachê de merda, como ele me disse mais tarde) para aliviar seu miserê. Foi o bastante para que todos lhe virassem a cara e nunca mais pedissem ao menos uma canja…

Parece que, definitivamente, é o que sobrou para nós. Em diversas cidades brasileiras, de forma irresponsável, as regras de isolamento social foram novamente relaxadas mesmo com a média de 3 mil mortes diárias no pior momento da pandemia. 

Quase tudo parece estar voltando ao normal, a julgar pela quantidade festas clandestinas ocorrendo em todos os lugares. No entanto, basta que alguém apareça com um violão em alguma esquina ou parque público para imediatamente atrair a atenção de policiais militares e guardas civis. 

Fazer festa pode, com aglomeração e sem máscara; alguém tocar no calçadão por alguns trocados em meio a lojas abertas e cheias, não pode. Pastores podem esgoelar e vomitar suas sandices, como vem acontecendo em praças centrais de cidades da Grande São Paulo, mas arranhar o violão no boteco escamoso do canto é uma “ameaça sanitária”…

Muitos continuam, insistindo nas lives como forma meio desesperada de se manterem ativos e mostrar algum trabalho, seja da forma que for. É louvável, por mais que os resultados, atualmente, sejam bem questionáveis.

E assim caminhamos para a nossa desvalorização musical e cultural de cada dia, em que a vacina continua distante e o vírus avança mais forte do que nunca para devastar mais ainda no inverno. Superamos a marca de 400 mil mortes e seguimos contando, enterrando e chorando. 

Sem perspectiva de melhoras, a música de condomínio, a que ainda resiste,surge como única opção para nos redimir e permitir sonhar com algum futuro. 

Melhor do que nada? Depende do ponto de vista. É um alento, mas também é um sintoma grave do mundo de trevas em que estamos atolados. Nunca nesta vida a música foi tão importante, e ao mesmo tempo um sinal tão grande de extrema solidão. Que a música do condomínio nos conforte de alguma maneira.