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 Marcelo Moreira

Rock elitista e que define seus “aficionados” como gente diferenciada. É assim que os bolsonaristas e adeptos da extrema-direita estão se considerando, saindo finalmente do “armário”.

Em pelo menos quatro fóruns de roqueiros em redes sociais, onde a política estava proibida de ser discutida, essa “gente diferenciada” explicitou todos os seus ranços e preconceitos ao tentar defender o mentiroso presidente Jair Bolsonaro quando de seu lamentável e patético discurso nas Nações Unidas.

Não é de hoje que essa conversa nojenta comina algumas discussões a respeito do papel social do rock no Brasil, nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde por muito tempo os envergonhados “burgueses” sempre tentaram se passar, por convicção ou por oportunismo, por admiradores do gênero sensíveis e de viés progressista.

Não faz muito tempo que vendedores de anúncios de emissoras de rádio rock em São Paulo alardeavam que o público de rock era “diferente”, geralmente com poder aquisitivo maior, mais fiel ao gênero, mais bem informado e culto. Acreditavam que, com isso, convenceriam empresas a despejar dinheiro na ânsia de fisgar um consumidor mais abastado e, supostamente, mais “elitizado”.

Se isso algum dia foi verdade, foi por pouco tempo. A antiga 97 FM virou Energia 97 e abraçou a música eletrônica e o pop mais rastaquera; a Mix FM também enveredou pelo pop explícito, enquanto a Brasil 2000 virou história. A 89 FM voltou ao rock depois de anos experimentando outras paradas. Será que o público do rock é tão fiel e elitista assim?

A conversa é maluca, mas os bolsonaristas que saem de suas cavernas para empestear a cena roqueira perderam o medo e a vergonha de se assumir preconceituosos, mesmo que para isso distorçam os fatos, pisoteiem a história e disseminem as pútridas fake news.

Houve gente que se vangloriou de que o rock sempre foi de “classe média”, que sempre teve uma qualidade muito superior a outros gêneros e que seus apreciadores são mais cultos, inteligentes e bem informados, com mais dinheiro no bolso. Por que esse tipo de argumentação tosca e asquerosa não surpreende?

São os mesmos idiotas que adoram bradar os slogans dos Ramones e cantar músicas do Black Sabbath, duas bandas totalmente identificadas com a classe trabalhadora, ainda que o guitarrista Johnny Ramone fosse de direita e republicano.

Deficiências educacionais, cognitivas e intelectuais colocam o rock em um dilema aparentemente insolúvel: honrar as suas origens e se manter contestador e a favor dos direitos civis ou assumir a postura de classe média que sempre predominou entre músicos e fãs do gênero fora da Europa e dos Estados Unidos?

Entretanto, parece que isso não interessa ou não vem ao caso, não é? E daí que Ozzy Osbourne e Tony Iommi, ambos do Black Sabbath, foram metalúrgicos antes da fama? E daí que os Ramones nunca tiveram onde cair mortos antes do estouro do punk?

Isso me lembra alguns atletas estúpidos do vôlei e do basquete, ressentidos pelas fortunas ganhas por alguns jogadores de futebol profissional, bradando que eram mais inteligentes e cultos por serem mas escolarizados e de classe média. É esse tipo de desqualificação torpe que se torna a principal argumentação dessa gente?

É uma marca indelével do rock brasileiro o fato de ter se disseminado a partir da classe média a partir dos anos 50, chegando por meio de gente mais descolada com acesso a caros produtos importados ou a frequentes viagens internacionais.

Foi só a partir dos anos 70 é que lentamente o rock foi saindo do nicho e ganhando outras paradas, mas a pecha de “música de elite”, assim como a música erudita e o jazz, permaneceu e permanece até hoje.

Os bolsonaristas imbecis (redundância) aspirantes a fascistas se consideram melhores e mais inteligentes porque gostam de rock e, aparentemente, são mais cultos e endinheirados, ignorando que parcela expressiva dos apoiadores da excrescência que está presidência são de pobres ou muito pobres – provavelmente, a maioria.

É uma gentalha que quer se apropriar do rock desprezando deliberadamente as origens e o desenvolvimento do gênero musical, bem como seus conceitos fundamentais. Para esses, o máximo de transgressão é o rock infantilizado e deliberadamente zoado dos Mamonas Assassinas.

Mais do que isso, é o tipo de gente que diz gostar ou mesmo amar o Pink Floyd, mas que ficou pasmo e irado ao descobrir, em pleno show de Roger Waters, o baixista da banda, que a imensa maioria das letras das canções da banda e da carreira solo te,m um viés de protesto e pendem muito para a esquerda.

Na defesa do indefensável Bolsonaro, que churda cada vez mais na lama e na vergonha, essa galera roqueira conservadora e preconceituosa abraça com fervor o seu elitismo e sua ojeriza a qualquer tipo de igualdade e humanidade – nenhuma diferença em relação ao mesmo tipo de público que grita de amores pelo sertanejo.

O rock que incomoda, que empurra adiante e que abraça as causas progressistas em defesa da democracia, das liberdades gerais e dos direitos humanos não interessa a essa cambada de ignorantes – ou interessava até eles descobrirem o “conteúdo” de muitas letras.

É o tipo de ser execrável que aplaude os lixos humanos que foram à Justiça questionar a empresa Magazine Luíza por restringir a candidatos negros algumas vagas de trainee de cargos mais altos – gente que ignoraria a iniciativa caso fosse uma seleção para faxineiros.

Essa gente desumana é incapaz de entender – ou se recusa a entender – o significado da campanha mundial “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) acusando o “movimento” de comunista e terrorista, endossando as teses estapafúrdias vomitadas pelo presidente norte-americano Donald Trump e replicado por aqui por gente de baixo calibre, como os filhos do presidente e parte de seus ministros e políticos que o apoiam.

Tudo isso empesteia diversos ambientes nas redes sociais e área de comentários de veículos de comunicação diversos. Ali a confusão mental em relação a diversos conceitos é tamanha que o que mais fica evidente é o profundo fosso intelectual e a gigantesca ignorância, em que é possível detonar o Black Lives Matter com frases de apoio incondicional à polícia assassina que atua em quase todas as grandes cidades brasileiras. 

São os mais recentes capítulos do avanço do que pode ser chamado de delinquência intelectual que está dominando vários ambientes e debates, onde qualquer resquício de teoria religiosa e moral estapafúrdia serve para defender coisas como a gravidez de uma criança de dez anos após estupro – ou para justificar o silêncio diante desta barbaridade.

Roqueiro conservador e mergulhado no misticismo religioso das piores seitas é um anacronismo inacreditável em pleno século XXI, é uma excrescência no momento cultural e político brasileiro. Exaltando o seu elitismo e o seus preconceitos, mostra-se orgulhoso da própria ignorância e de ser representado por um ser totalmente desprovido de qualidades na Presidência da República. 

Para esse grupo de seres execráveis, o orgulho da própria burrice e da extrema mediocridade justificam todo tipo de perversidade política e administrativa de inspiração fascista – a além da adoção sem escrúpulos de todo o tipo de delinquência intelectual.