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 Marcelo Moreira

As mulheres estão incomodando bastante os vários círculos de apreciadores de heavy metal no Brasil, especialmente quando elas mostram um talento extraordinário e ganham um destaque antes reservado a bandas nem tão boas assim.

Isso acontece desde sempre neste país machista e envolvo em nuvens pesadas de mau agouro trazidas pela polarização política traduzida em uma guinada conservadora capitaneada pelo nefasto bolsonarismo.

A onda conservadora atingiu em cheio a banda Nervosa desde a eleição do presidente ignorante e incompetente, mas totalmente autoritário e inspirado no fascismo. A ascensão do trio feminino incomodou e trouxe uma avalanche de ataques sexistas e machistas.

A coisa ficou pior quando a banda ganhou as manchetes com a saída de duas integrantes e, em seguida, se recompôs e seguiu em frente, com mais força e ficando ainda mais em evidência.

Na última semana, duas polêmicas, se é que podemos chamar assim, atingiram de novo o agora quarteto Nervosa e sua composição internacional de integrantes.

Em uma entrevista a um canal de YouTube, a guitarrista Prika Amaral, a líder e fundadora, disse de forma despretensiosa que não conseguia enxergar um homem na formação da banda no futuro. Disse ainda que isso jamais aconteceria.

Nervosa: Prika Amaral é a última da esq. para a dir. (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Foi o que bastou para que ela atraísse toda uma matilha de imbecis raivosos acusando-a de preconceito e de desprezar bandas com formações mistas. Em nenhum momento ela se manifestou dessa forma e nem passou pela cabeça dela passar uma imagem anti-homem ou anti-instrumentistas masculinos.

Entretanto, em tempos de fake news disseminadas pela extrema direita asquerosa e nojenta, tudo vira arma para atacar artistas proeminentes que defendem os direitos humanos e batem de frente com as forças conservadoras e fascistas.

As coisas estão de tal modo invertidas que ela teve de escrever um texto nas redes sociais para explicar o que ela quis dizer e, de certa forma,.meio que se desculpar por ter sido mal interpretada por gente burra, já que suas declarações foram um gesto de extrema gentileza da parte dela.

Na esteira da falsa polêmica criada por estúpidos e indigentes intelectuais, veio de contrapeso mais falas e palavras machistas a respeito da separação da formação anterior, ocorrida no ano passado, com temos pouco elogiosos a Prika Amaral (a “chefona”) e sobre a eventual (pouca) qualidade da banda.

Sobrou até para a antiga baixista e vocalista, Fernanda Lira, hoje na banda Crypta. As inevitáveis comparações entre ela e a nova vocalista, a espanhola Diva Satanica, saíram da performance musical e descambaram para a questão estética, com as mais baixas formas de “qualificação” das meninas.

Não é só um show de misoginia e machismo – é total falta de respeito e de civilidade, o que prova que parte expressiva do metal nacional está despreparado para curtir bandas femininas 50 anos após o surgimento da Fanny e 46 das Runaways – estas até mesmo veneradas pelos dejetos humanos que insistem em malhar a Nervosa ou qualquer outra banda só com mulheres.

O que está acontecendo com a Nervosa não é exclusividade desta, mas ganha relevância e proeminência por conta do destaque internacional que conquistou. 

Que as meninas das bandas The Damnnation e Malvada se preparem: serão alvos de pedradas pesadas dos neandertais do século XXI assim que começarem a subir os degraus de algum sucesso no rock brasileiro, já que têm muito potencial para isso.