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Marcelo Moreira



Música para viajar, em todos os sentidos. Até que ponto conseguimos perceber o quanto a música é importante em nossas viagens, seja no lazer, no trabalho ou mesmo nos longos trechos percorridos por quem mora longe do trabalho.
O baterista Neil Peart, do Rush, morto em janeiro passado, talvez tenha sido o músico que melhor transmitiu a sua relação com as canções ao longo de sua vida, principalmente nas diversas viagens que realizava. 
Para cada momento importante que desfrutou quase que imediatamente relacionava uma música que o fazia relembrar os bons e os maus momentos
“Música Para Viagem – A Trilha Sonora da Minha Vida e do Meu Tempo” faz parte de uma série de obras literárias do músico que são autobiográficas, mas escritas de uma forma diferente.
Letrista principal do Rush e um dos mais elogiados do rock na função, transformou-se em um cronista de viagens interessante e bem humorado, com um texto conciso, direto e eloquente.
Antes de enveredar por tal série, tinha escrito dois livros narrando algumas de suas viagens pelo mundo. Surpreenderam os fãs pelo bom texto e pelo rigor e método nas descrições e na contextualização. Daria um por repórter.
As tragédias de sua vida, em 1998, viraram sua cabeça e sua vida. A filha de 18 anos morreu em um acidente de carro ao sair de casa, no campo, para voltar á faculdade, em uma cidade grande, no Canadá. 
Meses depois, a mulher de Peart foi acometida por um câncer agressivo que a matou – possivelmente a morte da filha tenha contribuído, em grande parte.
Para elaborar o luto, algum tempo depois, embarcou em uma longa viagem de meses pela América do Norte com amigos e sozinho, e os relatos em seu diário deram origem ao livro “A Estrada da Cura”.
Este e o primeiro volume de “Música para Viagem”, volume 1, foram publicados no Brasil em grande iniciativa da editora Belas Letras, com primorosa tradução de Candice Soldatelli.
O segundo volume chegou recentemente às livrarias e dá sequência à expiação e à redenção de um homem que não queria, mas precisava se perdoar, seja lá quais tenham sido os motivos para pensar assim.
“Música Para Viagem” foi dividido em dois volumes e o segundo conclui a viagem que Peart iniciou, de carro, da Califórnia ao Texas, de carro. Foi um momento sabático que antecedeu o nascimento da segunda filha, em novo casamento. Sozinho por estradas quase desertas, pensou muito na vida e na importância da música em sua vida.
As viagens se tornaram terapêuticas para que ele pudesse rememorar passagens fundamentais de sua vida e como deu a volta por cima inúmeras vezes.
O texto é bom e interessante, embora Peart esteja longe de ser um estilista ou o grande escritor que muitos jornalistas e fãs acham que ele é. Quase todos os seus livros são crônicas de viagem, como “Ciclista Mascarado”, que narra suas aventuras de bicicleta em Camarões, na África Ocidental.
Os dois volumes de “Música Para Viagem” reúnem histórias autobiográficas e descrições um pouco maçantes sobre a flora, fauna e geografia de alguns parques do Texas e do sudoeste dos Estados Unidos.
A leitura é prazerosa e, neste segundo livro, abre com a estadia de Peart de quase um ano e meio em Londres, entre 1970 e 1971, antes de entrar no Rush. Há histórias saborosas e comentários sarcásticos a respeito das idiossincrasias humanas – e de como é difícil um aspirante a astro de rock sobreviver quase sem dinheiro e tocando em bandas péssimas mesmo na Inglaterra, a meca do rock naquela época.
A leitura é prazerosa, mas oferece algumas barreiras a quem não é fã de rock ou de música pop. São muitas as referências pop que carecem de uma contextualização decente para serem absorvidas na totalidade. 
Não que seja necessário conhecer Rush ou o rock profundamente, mas muitas das referências estão intimamente ligadas à compreensão da história quando autor descreve certas passagens de sua vida.
A passagem de um livro para outro também é estranha. Fica claro que o primeiro livro se refere à viagem de ida. O segundo volume. a volta, começa imediatamente com Peart descrevendo os preparativos para a viagem à Inglaterra em 1970 sem introdução ou contextualização. 
O fim do sonho londrino desemboca no presente (ano de 2003) com o músico, em confortável carro, chegando a um parque no Texas. Ficou esquisito, uma coisa incompreensível no caso da editora original da obra, nos Estados Unidos.
Apesar disso, o texto flui bem e cresce quando o baterista fala de música, seja a que está tocando no disc player, seja sobre as reminiscências de seus 45 anos de carreira nos comentários a respeito dos artistas com quem dividiu palco ou conheceu.
Ele surpreende ao falar de jazz e de reggae, além de analisar algumas obras e carreiras de artistas como Madonna, Radiohead, Coldplay, Tragically Hop e orquestras de mariachis.
Quase toda a obra de Neil Peart finalmente está disponível em português graças à Belas Letras. É uma iniciativa importante porque se refere a um dos artistas mais fascinantes e inteligentes do rock, cuja obra literária é bastante respeitada, embora ligeiramente subestimada.
Os dois volumes de “Música Para Viagem” são até mais relevantes do que “A Estrada da Cura”, o seu maior sucesso, por mostrar, de forma mais direta e completa, a personalidade muito interessante do baterista avesso a badalações e entrevistas.