Escolha uma Página

 Marcelo Moreira


Por qualquer ângulo que se analise, gente nefasta como Jair Bolsonaro e Donald Trump venceu. A tese não é nova, vem desde a eleição do presidente norte-americano que tentou o golpe de Estado na semana passada.

O simples fato de existirem, conseguirem ser eleitos e disseminar seus excrementos verbais e ideológicos representa a maior derrota que a civilização global sofreu neste século.

Grupos que têm como linha de rente os dois presidentes venceram porque conseguiram o quer parecia ser impensável no começo dos anos 2000: desorganizar o mundo culto e civilizado com mentiras, demagogia, fascismo e ódio.

A tentativa de invasão do Congresso norte-americano é o ápice da barbárie negacionista direitista, agravada pela pandemia de covid-19. 

É a maior prova de que as bestas apocalípticas venceram, pois não só saíram dos esgotos como se mantiveram na superfície e com um apoio surpreendente de uma massa ignorante e que tem orgulho de sua própria ignorância.

Essa gente inacreditável encontrou eco em vários núcleos tidos como redutos de sabedoria, moderação e inteligência. O vírus da ignorância contaminou toda a sociedade, fazendo com que ataques à ciência, ao conhecimento e à civilização avancem com velocidade.

Quando músicos e apreciadores de rock, outrora reduto de pensamento crítico, contestação e protesto, endossam as palavras de um incompetente ignorante como o ministro da Saúde a respeito da imprensa, é porque estamos em um momento perigoso da humanidade.

O general Eduardo Pazuello, suposto ministro da Saúde, incomodado com críticas da imprensa, afirmou de forma vergonhosa e ridícula que “jornalistas devem se limitar a registrar os fatos, sem interpretá-los e se abster de dar opiniões”.

De que planeta caiu esse ser ignorante? E como é possível imbecis que se dizem artistas embarcarem nesta canoa furada rumo às trevas?

Em pelo menos três comunidades/grupos de roqueiros em redes sociais músicos vomitaram contra a imprensa e contra os “comunistas”.

 em se conhecerem, nos três grupos, músicos com certo prestígio, mas com evidentes limitações de todos os tipos, destilaram ódio, preconceito e burrice ao clamarem contra a imprensa. A pobreza de argumentos era a mesma nas frases com português paupérrimo e repletas de erros.

O total desconhecimento de conceitos básicos de liberdade de expressão e de imprensa sempre estava acompanhado de ódio, mentiras e de aplausos de uma malta de imbecis tão indigentes intelectuais quando seus autores.

São incapazes de perceber que essas mesmas liberdades são a garantia para que eles próprios continuem empesteando o muindo com seus lixos musicais e seus pensamentos podres. 

Querem ter o direito de espalhar essa imundície, mas não querem ser criticados e bradam pela censura a artistas e vozes discordantes dentro do mundo artístico e cultural. De que bueiro esses doentes saíram?

Quando os conceitos básicos de liberdade são questionados e atacados por quem depende dela para sobreviver ou para se expressar é porque as doença já se espalhou e ameaça gravemente o paciente.

O comportamento relinchante dessa malta de imbecis parte do pressuposto de que o mundo em que chafurdam nos excrementos é a melhor arma para banir “pensamentos e atitudes não condizentes com a moral e os bons costumes”.

E assim não surpreendem que certos boatos dão conta de que integrantes de bandas de heavy metal estão entre alguns dos suspeitos de ameaçar vereadores negros e LGBTs eleitos nas últimas eleições em São Paulo, Belo Horizonte, Blumenau (SC), Joinville (SC), Bauru (SP) e em mais algumas cidades do país.

Também não surpreende nem um pouco, no Brasil e nos Estados Unidos, que muita gente tenha saído do buraco para mandar frases de apoio, ainda que meio tímidas, a John Schaffer, guitarrista do Iced Earth, flagrado invadindo o Congresso americano. Está sendo procurado pelo FBI acusado de terrorismo.

Os fascistas até que demoraram um pouco para sair da lama. Esperaram três dias para postar mensagens de apoio a Donaldo Trump, aos invasores do Congresso e a Schaffer. “Que deus abençoe os nossos combatentes da liberdade”, escreveu um “brasileiro” na página do Iced Earth no Facebook.

Combatentes da liberdade? Esse tipo de idiota desconhece os rudimentos dos fundamentos do que significa liberdade e certamente crê que democracia só existe quando ela atende aos seus interesses e comunga com sua suas ideias pútridas.

Em muitos grupos, no Brasil, perdura um silêncio incômodo a respeito da incineração da carreira do Iced Earth e da prisão decretada de Schaffer. Até de forma prudente, não houve manifestações maciças de apoio ao músico americano fascista, mas a falta de mensagens condenando sua atitude ficou muito mais evidente e estridente. 

Parte expressiva de apreciadores de rock não condena o que Schaffer fez, não condena o pensamento parecido de outros músicos ignorantes e acredita que há “exageros” da imprensa quanto à participação do guitarrista na invasão – quanto a isso, é negacionismo puro, pois há fotos dele berrando contra seguranças do Congresso no salão nobre. 

Ter de combater o vírus do fascismo dentro de nossas próprias fileiras é o trabalho mais ingrato que teremos em 2021. E também bastante perigoso, pois as liberdades e a democracia correm sério risco neste país infeliz, a julgar pelas ameaças esdrúxulas feitas pelo nefasto presidente da República, o pio e mais mortal de todos os vírus.