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 Marcelo Moreira



“O mendigo o persegue até hoje?” A pergunta foi feita como uma provocação, e surpreendeu o cantor, flautista e líder do Jethro Tull, Ian Anderson, nos corredores da Fundação Cásper Líbero. Ele estava se divertindo ao participar de vários programas da TV Gazeta.

“O mendigo faz parte da minha história, e também faz parte da história do rock. Sempre me perseguirá, e conviverei com isso para sempre, com prazer e agradecimento”, respondeu o músico escocês.

“Aqualung”, a música e o álbum, surgiram há 50 anos para eternizar a banda que misturava e folk britânico para criar um novo segmento no rock e concorrer com uma série de artistas inovadores da nova década que começava. 

O rock progressivo expandia os limites da música e espantava o baixo astral do fim da era hippie, do psicodelismo e do flower power. Enquanto os hard rocker e heavies partiam para a demolição com Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath e Uriah Heep, os proggers mergulhavam na fantasia e na ficção científica.

E o mendigo que tornou o Jethro Tull uma das banda mais importantes do rock se tornou símbolo de uma geração e quase que sinônimo de progressivo, seja na contundente canção, seja na capa icônica do LP lançado em 1971.

Embora Anderson se recuse a tratar o disco como um álbum conceitual, o fato é que há um tema, ou temas, que entrelaça, por mais leve que seja, as canções. Há o questionamento sobre o humanismo, sobre as sociedades urbanas, sobre a relação entre Deus e as várias religiões.

“Aqualung”, a canção, é um marco musical por conta de, além seu riff inicial e pela intrincada harmonia criada por Anderson, além das mudanças de andamentos e da letra muito boa. 

Contando com a ajuda de sua mulher à época, a fotógrafa Jennie Franks, o líder do Jethro Tull combinou com eficiência blues, folk e rock pesado, tendo na guitarra de Martin Barre um grande trunfo para colorir um dos grandes hits do rock.

Já o álbum, o quarto da incipiente carreira do Jethro Tull,  mostrava a diversidade de temas que aguçavam a mente estoica e em constante agitação de seu líder. 

Sua paixão por trens e viagens estão explícitas em “Locomotive Breath”, um tema que faz uma analogia com a própria vida. É um rock pesado e tenso. “Cross-Eyed Mary” é um hard rock quase que profano, repleto de reminiscências da infância de Anderson.

“Hymn 43” e “My God” entram no campo metafísico, com ideias mais complexas a respeito das religiões e das filosofias pessoais do músico.

Artisticamente, era diferente de quase tudo o que se produzia na época, deixando claro que Ian Anderson era um músico que estava em sintomia com muitas outras coisas, menos com o hedonismo e os excessos que o rock prometia e induzia.

Totalmente careta e com uma ética de trabalho espartana, conduzia a banda com mão de ferro e odiava bebedeiras e uso massivo de drogas, tanto que demitiu o amigo Glenn Cornick, baixista, um pouco antes das gravações do álbum por esse motivo.

Nas turnês, Ian Anderson evitava as festas e bala e das tão costumeiras, a ponto de irritar os companheiros de banda. John Evan, o tecladista dessa época, comentou em um documentário sobre a banda que o líder se trancava no hotel mesmo em cidades praianas e quentes e reclamava dos que caíam na farra.

Tony Iommi, que passou duas semanas com a banda no final de 1968, conta que o Jethro Tull era uma banda muito profissional na época e que parecia fadada ao sucesso de tão focada. Entretanto, não havia interação ou amizade entre os integrantes. 

“Aquilo parecia um departamento militar de tão rígida que era a disciplina, com todos tendo que executar perfeitamente as suas funções. Nos restaurantes, Anderson comia em outra mesa, separado da gente. Junte-se isso à falta enorme dos meus amigos do Earth, em Birmingham, e estava claro que eu estava no lugar errado”, escreveu Iommi em sua autobuografia, “Iron Man”. O Earth se tornaria o Black Sabbath no final de 1969 e os amigos eram Ozzy Osbourne (vocais), Geerzer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria).

A ascensão do Jethro Tull é resultado direto desse estoicismo de Ian Anderson e de sua inquieta mente inteligente e culta. “Aqualung”, disco e canção, são os maiores legados de um artista e de uma banda que fizeram diferença e que podem se orgulhar de que realmente criaram obras inovadoras dentro da música pop.