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A piada corria entre a equipe que assessorava o Dream Theater nos shows, mas logo se disseminou pelo mundo musical assim que o baterista Mike Portnoy deixou a banda, em 2010: “Quando for conversar com ele, não diga que é músico. Caso contrário, ele vai te obrigar a formar uma nova banda”.

O baterista norte-americano é conhecido como um dos maiores empreendedores do rock – ou um dos maiores arroz-de-festa da praça, do mesmo naipe de Dave Grohl, do Foo Fighters. Sele não te chamar para um projeto qualquer, vai se convidar para tocar no disco ou no show de alguém.

“Estar no palco é excitante e fazer música com quem toca bem e tem ideias fascinantes é muito excitante. Sempre arrumo tempo para fazer coisas legais”, disse Portnoy ao Combate Rock em 2014, quando esteve em São Paulo com o seu grupo Transatlantic.

E é do Transatlantic uma das novidades que Portnoy colocou no mercado: um álbum triplo, ultraconceitual e esbanjando virtuosismo e qualidade. Para mostrar que a quarentena por conta da covid-19 foi produtiva, gravou e ajudou a finalizar o novo disco de outro projeto, o Liquid Tension Experiment, que retomou as atividades depois de quase 15 anos.

Além desses projetos, Mike Portnoy ainda trabalha com outras três bandas: The Winery Dogs (com Richie Kotzen na guitarra e vocais e Billy Sheehan no baixo), Flying Colors e Sons of Apollo, que aparentemente é a sua prioridade. Até recentemente era o bateria do Adrenaline Mob e da banda solo do cantor e tecladista Neal Morse, seu companheiro de Transatlantic e Flying Colors.

Da esq. para a dir.: Pete Trewavas, Neal Morse, Mike Portnoy e Roine Stolt (FOTO: REPRODUÇÃO)

“Absolute Universe” é a mais nova epopeia do Transatlantic, uma ideia extravagante de Portnoy surgida no final dos anos 90 para “resgatar a majestade” do rock progressivo puro. Era para ser um projeto entre amigos e durar apenas um álbum. 

Neal Morse (ex-Spocks Beard, teclados e guitarra), Pete Trewavas (Marillion, baixo) e Roine Stolt (Flower Kings, guitarras e vocais) se juntaram ao baterista e fizeram um álbum delicioso com direito a longas canções e viagens de todos os tipos.

Mais de 20 anos depois, o sexto disco de estúdio deveria ser um resumo do que de melhor a banda fez no período, mas a coisa foi além de rendeu um álbum triplo – não é exatamente um álbum triplo, como Portnoy explicará mais à frente. São suítes longas, em que cada um dos integrantes se diverte em longos solos e arranjos superelaborados. 

As letras de cunho místico-religioso de Neal Morse ganham o reforço de contribuições de Stolt e Portnoy, mas mantendo a linha viajandona ao estilo bicho-grilo-de-São-Tomé-das-Letras, mas sem aquela pregação ostensiva que Morse imprime em sua carreira solo.

O CD simples pode ser considerado o prato principal, onde as ideias básicas de “Absolute Universe” são desenvolvidas. É o melhor do álbum, que mantém a pegada do Transatlantic de sempre mas investe também em outras paragens, como música erudita e oriental.

Em vídeo em seu canal do YouTube, Portnoy explicou que não se trata exatamente de um CD tripo, mas duas versões do mesmo álbum, “The Absolute Universe: The Breath Of Life (Abridged Version)” e “The Absolute Universe: Forevermore (Extended Version)”.

“Temos duas versões deste álbum. Uma delas em CD duplo, com 90 minutos de duração e outra com um único CD de 60 minutos”, diz o músico. “Mas o CD simples não é meramente uma versão editada do CD duplo, na verdade as músicas dos dois são em versões diferentes, incluindo mudanças nas letras. Alguns títulos foram alterados e outros não, mas em termos de composição, o que você vai ouvir foi alterado. O que fizemos é único, renovamos as músicas para fazer duas versões diferentes.”

“Liquid Tension Experiment 3” é o novo trabalho da banda de mesmo nome, que um dia teve três integrantes do Dream Theater: Portnoy, o guitarrista John Petrucci e o tecladista Jordan Rudess, acompanhados pelo superbaixista Tony Levin (King Crimson). O que era uma jam descompromissada em 1998 se tornou uma poderosa banda de metal progressivo com forte acento de jazz.

Na época, Rudess era um músico que tinha passagens por bandas como Dixie Dregs e outros combos de rock instrumental e ainda não tinha substituído Derek Sherinian no Dream Theater.

Assim como Transatlantic, deu tão certo que logo gravaram dois álbuns, lançados em 1998 e 1999, gerando turnês concorridas nos anos seguintes. De forma surpreendente, emplacaram dois sucessos nas paradas de rock e jazz americanas, “Acid Rain” e “Paradigm Shift”, canções extraordinárias compostas e executadas por gênios.

As agenda complicadas de todos interromperam a continuidade do projeto. Os quatro se reuniriam novamente em 2007 para nova turnê, mas Petrucci não participou do disco “Spontaneous Combuston”, de 2008, creditado ao Liquid Trio, um disco pouco inspirado e o impacto dos dois anteriores.

Até hoje não está muito bem explicada a ausência do guitarrista, mas a crise que o Dream Theater embarcou, em 2010, culminando com a saída de Portnoy, dá algumas pistas. 

Liquid Tension Experiment: da esq. ara a dir., Jordan Rudess, Tony Levin, Mike Portnoy e John Petrucci (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Na época, o baterista estava à toda com seus mil projetos, que consumiam muito tempo e dinheiro. Um dia sua agenda iria conflitar com a do Dream Theater. Para dar conta de tudo, tentou impor férias forçadas à banda por tempo maior do que os companheiros queriam. 

Voto vencido, foi praticamente obrigado a sair para cumprir os compromissos assumidos com outras bandas e saiu atirando, reclamando que foi expelido de “sua” banda perla recusa de Rudess e Petrucci em paralisar as atividades do Dream Theater. Ficaram anos sem se falar.

Quase dez anos depois, lentamente Portnoy reatou as relações com Petrucci. Passaram a se visitar regulamente com suas famílias até que o guitarrista se sentisse confortável em convidar Portnoy pra tocar a bateria em todas as músicas de seu disco solo, “Terminal Velocity”, lançado no ano passado.

Reatar a amizade com Rudess foi mais difícil, mas Petrucci forçou a barra dizendo que queria fazer novo disco do Liquid Tension Experiment e que já tinha a concordância de Tony Levin. As dificuldades trazidas pela pandemia amoleceram os corações e o disco novo aconteceu.

“3” é um disco poderoso, com músicas pesadas e mais orientadas para o rock progressivo. Petrucci e Rudess brilham intensamente e quase ofuscam Portnoy, que mesmo assim mostra a excelência de seu trabalho.

“Beater Than Odds” é o primeiro single e resume bem a proposta da banda em 2021: muitos riffs pesados e melodias poderosas, o que pode ser verificado também na excelente “Hypersonic”.

Se alguém não pode reclamar de falta de criatividade na pandemia é Mike Portnoy. Longe dos palcos, conseguiu ocupar o tempo da melhor forma possível, criando músicas de extrema qualidade ao lado de amigos de longa data.