Escolha uma Página

 Marcelo Moreira

Vilipendiado, espancado, desprezado, menosprezado e até mesmo odiado. Ainda assim, é o segundo vocalista que mais tempo cantou no Black Sabbath, mesmo que na mais desprestigiada fase da banda. Poder muita coisa, menos um músico ruim.

Tony Martin paga o preço pelos inúmeros erros cometidos pelo guitarrista Tony Iommi, o pai dos riffs e o pai do metal, a partir dos anos 80. Com um feeling bluesy e voz rouca e potente, foi o fiel escudeiro de Tony Iommi para evitar o desaparecimento de ma marca poderosa, mas desprezada pelo mercado naqueles tempos difíceis. Ninguém queria saber do Sabbath, mas Martin segurou a barra.

Surpreendentemente, vai ganhar uma homenagem do ex-companheiro Iommi. Em recente entrevista a jornalistas ingleses, o guitarrista afirmou que pretende lançar uma caixa com os cinco CDs lançados com Martin no vocal, além do DVD “Cross Purposes Live”.

De acordo com o músico, seus arquivos incluem muita coisa interessante e inédita dessa fase, que começou com “Eternal Idol”, passou por “Headless Cross” (1989), “Tyr” (1990), “Cross Purposes” (1994) e “Forbidden” (1995).

O black Sabbath em 1989: da esq. para a dir., Tony Iommi, Cozy Powell, Tony Martin e Neil Murray (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Nada mais justo para um músico que que nunca foi brilhante, mas que se esforçou demais em uma banda na qual ninguém apostava mais nada e ninguém queria tocar – por incrível que pareça.

Se alguém tem dúvidas a respeito de sua capacidade, é só ouvir a coletânea “The Sabbath Stones”, que traz uma quantidade necessária de músicas boas dessa fase não tão espetacular, mas digna, do Black Sabbath.

A surpreendente decisão de Iommi tem a ver, certamente, com o reatamento da amizade entre os dois, justamente quando o Black Sabbath acabou de fato. 

Martin reclamou em uma entrevista, por volta de 2012, que não entendia o motivo de Iommi nunca mais o ter procurado ao menos para bater um papo desde 1996, quando a turnê “Forbidden” acabou e o guitarrista embarcou no projeto de volta da formação original, com direito a Ozzy Osbourne cantando.

Mais recentemente, Tony Martin tinha dito que ficou honrado e surpreso com uma ligação de Iommi, do nada, para saber como ele estava e o que estava fazendo da vida. 

Laços reatados, ficaram de discutir a possibilidade de trabalharem juntos novamente em um projeto novo. A caixa com os CDs da época 1987-1995 pode ser o início dessa parceria, já que são pequenas as chances de o Black Sabbath ressuscitar.

Na hora certa, a força de vontade necessária

Perdido, sem forças para encarar um mundo novo e apegado a uma marca que desvalorizava rapidamente, Tony Iommi tinha sido abandonado pelos velhos companheiros Geezer Butler e Bill Ward  (este muito doente à época) no final de 1984 e afundava a cada tentativa de ressuscitar o Black Sabbath.

Um pouco antes, Ian Gillan, o eterno cantor do Deep Purple, foi uma aposta alta quando Ronnie James Dio saiu brigado em 1983. Depois de uma bebedeira, eis que Gillan aceita cantar na banda e gravar um disco mal compreendido e mal produzido, “Born Again”. Não completou nem um ano com o grupo e logo aceitou participar da volta do Deep Purple.

Outro amigo de Birmingham, Glenn Hughes e excelente cantor e outro ex-Deep Purple, foi uma aposta ainda mais alta e arriscada para a fase “Seventh Star”, de 1986. O naufrágio veio alguns meses de parceria por conta dos graves vícios em drogas e bebida de Hughes. 

O então desconhecido americano Ray Gillen surgiu para terminar aquela turnê no lugar do incapacitado e irado Glenn Hughes. Foi bem e até aceitou permanecer para gravar “Eternal Idol”, mas brigou com o patrão e caiu fora para começar a gestar a ótima banda Badlands. 

Dentro de uma tempestade duradoura, quem salvaria a lavoura?

Inexperiente e com passagens por bandas inexpressivas, Tony Martin foi uma indicação de amigos e impressionou pela boa performance em estúdio e pela vontade inabalável de trabalhar e fazer as coisas darem certo. 

Regravou todos os vocais de Ray Gillen feitos para “Eternal Idol” e ajudou a banda a reviver os bons tempos com hits improváveis como “The Shining”, “Glory Ride” e “Eternal Idol”. O Black Sabbath voltava ao heavy metal e abandonava o hard rock meloso e sem inspiração de “Seventh Star”. Esses bons resultados se devem muito a Martin.

O cantor sabia que as forças do mercado eram as que mandavam e que tudo poderia mudar de uma hora para outra, mas fechou os olhos, respirou fundo e apostou em um acavalo azarado que começava a enxergar a sorte de perto novamente.

Tony Martin na década passada, durante gravação de um álbum solo (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Com mudanças constantes de formação, o Black Sabbath estava longe até mesmo dos dias mais ou menos, mas a força de vontade e a perseverança de Martin empurravam Iommi e a banda. Poderia, ao menos, dizer para filhos e netos que cantou na banda que eve Ozzy e Dio.

E assim, lentamente o Sabbath foi recuperando o nome com os ótimo CD “Headless Cross” e o fraco “Tyr”, garantindo rendas melhores e recuperando parte do público perdido nos anos anteriores.

Aí entra o mercado e uma reunião com Dio, Geezer e Vinny Appice é oferecida. Era bom demais para ser verdade. Resignado, Martin foi para o banco de reservas, mas parecia saber que era temporário.

Acertou em cheio: a volta com Dio rendeu o excelente disco “Dehumanizer” em 1992, mas meses depois nova briga encerrava aquela formação – Ronnie Dio não aceitou participar do show de “despedida” de Ozzy.

Iommi não pensou duas vezes e quis manter a banda na ativa recrutando novamente Martin, que engoliu o orgulho e gravou mais dois discos.

O cantor nunca foi perdoado por ser apenas um tapa-buraco enquanto Iommi buscava formas mais viáveis de ganhar dinheiro. Ele sempre soube disso e nunca se incomodou. E virou o segundo cantor que mais vezes interpretou as músicas da banda integrando-a. Não é pouca coisa. Merecia há muito uma homenagem como a que Iommi pretende fazer.

Trabalho bem feito

Tony Martin é uma pessoa bastante educada e discreta. Corpulento, intimida no começo, mas está longe de assustar assim que que começa a conversar. Em setembro de 2009, ele esteve em São Paulo para uma apresentação no Blackmore Bar, que não existe mais. 

Polido e atencioso antes e depois do show, só falou o necessário a respeito de sua passagem de dez anos pelo Black Sabbath, de 1986 a 1996 – inclusive passando pelo Brasil em 1994, quando a banda se apresentou no Monsters of Rock com o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o baterista Bill Ward. 
Quando perguntado sobre ele ter sido o vocalista que mais tempo cantou na banda depois de Ozzy Osbourne, Martin fez um silêncio pensou um pouco e respondeu de forma sucinta: “É sinal de que fiz bem o meu trabalho.” 
E encerrou o assunto. Se Glenn Hughes, o magistral vocalista e baixista que integrou o Deep Purple, evitou que o Black Sabbath acabasse em 1986. Foi Martin quem segurou a onda e empurrou a carruagem por longos e tenebrosos anos.
 Ele foi o responsável, junto com Iommi, por resgatar do zero uma banda que estava desacreditada e quase extinta. Seu trabalho cantando no Black Sabbath é consistente, mas de forma alguma brilhante. Foram alguns bons momentos, mas o saldo final da qualidade daqueles álbuns é apenas razoável, mas longe de ser ruim.
 É reflexo da fase conturbada que Iommi vivia na época, sem as glórias do passado, quase falido e pouco inspirado como compositor – sem falar que perdeu totalmente controle da banda no que se refere às intensas trocas de integrantes. 
Tony Martin era o vocalista da vez e não marcou época. Só que menosprezar e depreciar seu trabalho com a banda é um grande erro. 
Não era o grande Black Sabbath que todos aprenderam a amar e a apreciar. Mas era Black Sabbath, e com Tony Iommi. Isso muda tudo. Trinta anos depois de assumir a banda em uma grande fogueira, o legado de Tony Martin merece respeito.