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 Marcelo Moreira

Lemmy, do Motorhead (FOTO: DIVULGAÇÃO)

“Alguma coisa me dizia que as coisas não estavam bem. Fazia um bom tempo que a banda não cancelava um show e jamais por motivos gastrointestinais, a julgar pela quantidade de tranqueira e porcaria consumida em 40 anos de palco. Lemmy estava sem brilho nos olhos daquela vez.”

Renato “Bill” Domingues é um “header” de carteirinha e juramentado. O mecânico de 60 anos nunca hesitou em fechar sua oficina para acompanhar o Motorhead em todos os shows que fizeram no Brasil, além de vê-los na Inglaterra duas vezes e na Alemanha, uma vez.

Ele se refere ao cancelamento de um show em São Paulo cancelado oficialmente por conta de uma indisposição estomacal do baixista e vocalista Lemmy Kilminster naquele começo de 2015. 

O guerreiro encarou uma maratona de shows em seguida na América do Sul e Europa. No final daquele ano, quando enfim parecia ter tempo para descansar, morreu dias depois de completar 70 anos de idade em razão de complicações de um tumor no cérebro recém-descoberto.

Cinco anos sem Motorhead e sem Lemmy torna o mundo muito, mas muito pior em um ano marcado por uma devastadora pandemia de covid-19 e com a partida de outros gênios gigantescos do rock, como o baterista Neil Peart (Rush), o guitarrista Eddie Van Halen e o tecladista Ken Hensley (Uriah Heep), entre outros.

Um mundo sem Motorhead é um mundo sem energia, sem o sarcasmo e sem a perspicácia de uma das figuras mais emblemáticas do rock’n’roll. Não são poucas as pessoas que usam Lemmy, mais do que Keith Richards (Rolling Stones) ou Elvis Presley, como a verdadeira personificação do rock.

Estereótipo? Símbolo? Herói? Lemmy desprezava todas essas bobagens laudatórias. O negócio era subir ao palco e mandar ver, no máximo volume possível e fazendo o máximo para incomodar. 

O Motorhead era rock e entretenimento, mas também uma máquina de moer cérebros e uma entidade política explosiva que sabia dar o seu recado, por mais que o baixista odiasse “ser qualquer tipo de exemplo” ou representar qualquer coisa para quem quer que seja – pois é, eis o tipo de coisa que Lemmy sempre foi incapaz de controlar…

São esparsas e esporádicas as iniciativas para lembrar os cinco anos da morte de Lemmy – o próprio era avesso a esse tipo de celebração, digamos assim. Em tempos de pandemia, afinal, o que é possível fazer não envolvendo aglomeração e shows presenciais?

“Lemmy não gostaria de nada pomposo. É só rock’n’roll, sem frescuras”, diz Bill, que chegou a trabalhar na produção de um dos shows da banda por aqui nos anos 90. “Ao contrário da imagem de rebelde e de rocker por excelência, o que pouca gente sabe é que o profissionalismo sempre imperou no Motorhead. Mikkey Dee, o baterista, me disse uma vez que, sem profissionalismo, o Motorhead teria deixado de existir ainda nos anos 80.”

Doce, gentil e delicado, mesmo abusando da cara enfezada, Lemmy encarnou como ninguém o profissional do rock, muito mais do que o clichê do rebelde beberrão e drogado que usava roupas de couro. 

Mais do que os motoqueiros meio fake do filme “Easy Rider” ou qualquer representação cinematográfica que supostamente seja icônica, o líder do Motorhead era, na verdade, o ideal de roqueiro libertário e com liberdade, ainda que isso não se traduzisse em fama stoneana ou contas bancárias recheadas e estufadas. 

Lemmy pagou o preço de ser libertário e independente com muito gosto e nunca reclamou de nada neste sentido. Se o heavy metal é o que é, em grande parte é graças ao fanatismo de Lemmy e a obsessão de fazer do rock um meio de comunicação e ligação direta e sem intermediários com o público. Sem o Motorhead 90% das bandas de metal não existiriam.

Motorhead (FOTO: DIVULGAÇÃO)

“Bobagem. É apenas rock and roll tocado muito alto e mais rápido. Feito exatamente para incomodar e estremecer. Quem bom que alguém tenha gostado e se inspirado”, disse o músico, certa vez, com muita ironia, em, uma entrevista após uma apresentação em um festival europeu nos anos 2000.

Qual é a melhor forma de homenagear o mestre do Motorhead nestes cinco anos de sua morte?

“Lembrar dos grandes momentos dele e tomar ao menos uma dose de uísque com coca-cola, sua bebida preferida. É lembrar dos maravilhosos shows da primeira vez que estiveram por aqui, é rir dos problemas que perseguiam a banda no Brasil e lembrar de como ele adorava tocar no Brasil e na Argentina. Não era segredo que ele considerava a América do Sul como a fonte de rejuvenescimento do rock, pois ele identificava aqui uma paixão enorme pelo rock, enquanto o entusiasmo se perdia na Europa”, analisa Bill.

Mas será que até mesmo fortalezas como Lemmy ou Richards, que parou de beber, cedem mesmo diante da idade, que parece não existir para gente como Paul McCartney ou Mick Jagger?

“Outro clichê associado a Lemmy e que o aborrecia”, esclarece o fanático Bill. “Claro que houve abuso de drogas e de bebida desde sempre, mas os seus últimos dez anos foram bem difíceis em razão de problemas de saúde. Quem o acompanhou no período sabe como ele lutou para estar de pé e estar no palco. Por isso me chamou a atenção na última passagem dele por aqui: aquele brilho nos olhos que contagiava e que o orgulhava po ser quem ele era parecia não existir mais. Pela primeira vez pude perceber uma espécie de exaustão, não só física, mas geral. Na hora não deu para ter a dimensão da coisa, e depois foi bastante dolorido perceber que, se ainda houvesse chance de o Motorhead continuar mais um pouco, não seria mais como sempre vimos. E creio que não há melhor homenagem do que considerá-lo como sinônimo e personificação do rock. De um jeito ranzinza, ele iria gostar.”