Escolha uma Página

 Marcelo Moreira

A tragédia de Manaus, abandonada em seu caos no combate à covid-19, lembra a música “Breathe”, do Pink Floyd, incluída no memorável “Dark Side of the Moon”.

A falta de oxigênio nos hospitais, algo inimaginável e angustiante, nos dá a exata dimensão do desespero e falta de perspectivas que o país nos reserva.

“Breathe” (Respire) é uma canção que torna a audição mais incômoda, de forma claustrofóbica e que nos mostra o quão difícil é puxar o ar em momentos de ansiedade.

A sequência interminável de erros e crimes cometidos pelos governos federal e amazonense parece não ser o suficiente para que a maioria das pessoas tenha a dimensão da tragédia – anunciada e prevista, não só para Manaus.

Escutar “Breathe” neste momento incomoda bastante, porque imediatamente remete à imagem de uma UTI com alguém lutando pela vida e sufocando pela falta de oxigênio.

Incomoda porque a sensação de sufocamento está presente. Instintivamente respiramos com mais avidez e pressa, mais rápido, como se o ar fosse faltar. Como está faltando nas emergências de Manaus.

“Breathe” tem de ser ouvida logo na sequência de “Revolution”, dos Beatles, uma canção contraditória, mas perfeita para simbolizar as dúvidas que nos assaltam em um período de desintegração nacional e de caos institucional, onde genocidas e corruptos de todos os tipos desdenham e abandonam a população em plena pandemia.

A “revolução até certo ponto” não serve, e parece que John Lennon sabe disso ao cantar, mas fica claro que a letra sugere que alguma coisa precisa ser feita.

Todos nós sabemos o que precisa ser feitos, mas a desagregação nacional e a profunda descrença em um sistema político e e uma nação perdida jogam todos nós em uma letargia que pode ser fatal.

Enquanto nos debatemos sobre a forma de se livrar do nefasto quer ocupa a presidência, os fascistas se fecham cada vez mais em seus castelos e, à la Donald Trump, já se preparam para resistir. 

Como não dá mais para defender o indefensável diante da suprema incompetência em todos os níveis, é hora de começar a defender de todas as formas os quinhões conquistados e o território empesteado. A mentira será apenas recurso retórico; será tábua de salvação dos negacionistas e dos medievais que tanto anseiam pelo retrocesso.

Matar a população por asfixia ultrapassa qualquer noção de crueldade, e fica pior quando a cúpula que dirige a nação manifesta desprezo e ojeriza ao caos sanitário da qual é uma das responsáveis.

Qualquer depoimento dramático que vem de Manaus a respeito da falta de cilindros de oxigênio torna a experiência de ouvir “Breathe” uma experiência angustiante e psicologicamente devastadora, já que muitas imagens distópicas invadem nossas mentes enquanto escutamos o som e tentamos reorganizar a respiração. 

Se o desprezo pela vida é um projeto político, o asqueroso Jair Bolsonaro está tendo sucesso, ainda que por linhas tortas. Sob qualquer ponto de vista, seu governo precisa ser destruído e destituído. Desde que, é evidente, a sociedade consiga permanecer respirando.