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 Marcelo Moreira

A cura está mais perto do que se imagina. Misticismos à parte, nada é mais revigorante do que uma boa música originada de uma guitarra etérea, de um teclado mágico ou de um som leve de um saxofone ou de uma gaita.

O som da cura está em todos os lugares e nunca foi tão necessário nestes tempos sombrios em que vacinas são acusadas de causar quase todos os males. 

Quem diria que veríamos uma verdadeira guerra da vacina em pleno século XXI, em que precisamos convencer as pessoas da necessidade da prevenção contra epidemias diversas? Como pode a burrice chegar a tal ponto?

A cura está próxima, e pode estar até mesmo dentro da própria cabeça, nas profundezas de nosso cérebro. Que tal ativá-la por um gatilho, uma música serena e cativante?

Edu Gomes (FOTO: DIVULGAÇÃO/ARQUIVO PESSOAL)

O guitarrista paulistano Edu Gomes, ao lado conterrâneo Adriano Grineberg, um exímio pianista, enveredaram pela seara espiritual com a série de CDs “Concerto da Cura”, em que exploram, uma sonoridade de origem oriental, mas que passeiam por diversos ritmos e sons que vão do tribal ao que se convencionou chamar de new age.

É música de alta qualidade que nos ataca diretamente nos sentimentos e nas emoções, em uma terapia musical que está diretamente relacionada à paz.

Não é por acaso que Grineberg é um estudioso profundo da cultura oriental, especialmente a indiana, e um entusiasta da divulgação das mensagens de paz e sabedoria de diversos escritores e filósofos orientais.

Gomes também tem um olhar mais filosófico, digamos assim, em relação a muitos aspectos da música, e faz questão de explorar sentimentos e emoções dos mais diversos em 
seus trabalhos solo, como “Imo”, “Âmago” e “Metamorfose”, que são verdadeiras trilhas sonoras de terapias que visam a busca de um entendimento pessoal e de uma incessante busca da sensação de paz e sossego.

A cura também está nas cordas das diversas violas dos mestres Ricardo Vignini e Zé Helder, que são companheiros na banda Matuto Moderno, de rock rural, e no duo Moda de Rock, que transporta clássicos do rock para a chamada viola caipira.

Vignini é insaciável e incansável na busca do som perfeito da viola e não cansa de inventar projetos e parcerias. Só em 2019 lançou quatro CDs; em 2020, mais um, mesmo com a pandemia de covid-19 virando o mundo de cabeça para baixo. 

Adriano Grineberg (FOTO: DIVULGAÇÃO)

No seu trabalho solo, “Viola de Lata”, do ano passado, é um passeio memorável por sons que remetem ao passado, mas também a uma vida mais idílica de descanso e desaceleração. É a cura por um outro caminho, o da memória afetiva dos bons momentos da infância, por exemplo.

Zé Helder passeia pelo mesmo território, mas aborda o instrumento de uma forma mais passional, com um feeling impressionante. Seu trabalho solo resgata um Brasil mais antigo, mais sereno e mais acolhedor, que anda cada vez mais discreto, embora não esquecido. 

Mineiro de Pouso Alegre, atua em vários mundos, mas sempre faz questão de deixar a sua marca de filho das Minas Gerais e de representante de um povo que valoriza suas tradições, na melhor acepção do termo.

A cura também passa pela urbanidade de um versátil multi-instrumentista da Grande São Paulo. Vasco Faé sempre transbordou sentimento e energia como “one man band” ou como integrante da Irmandade do Blues.

Na gaita ou na guitarra, seu blues duro e cortante é cada vez mais necessário em um país embrutecido pela ignorância criminosa e usada como ferramenta política. Direto de Santo André (SP), Faé explode as convenções e resgata uma humanidade que parece perdida em meio à megalópole.

Podemos achar alívio também na suavidade e sutileza do blues mesclado com jazz na voz da soberba cantora paulistana Bia Marchese, que empresta seu charme a clássicos dos anos 20, 30 e 40 de maneira a nos lembrar de que existiu uma outra vida em que a arte, o conhecimento e a beleza estética tinham sentido e algum valor.

O alívio está no bandolim de Hamilton de Hollanda e no violão mágico de Yamandú Costa, ou nos teclados de Ari Borger e André Mehmari, que produzem música de altíssima qualidade tipo exportação, exaltando a brasilidade e o brasileirismo em cada nota.

Ricardo Vignini (FOTO: DIVULGAÇÃO)

E quando falamos de “Concerto da Cura”, não há como deixar de lado a maravilhosa Orquestra Mundana Refugi, projeto paulistano organizado e administrado pelo músico Claudio Antunes e que reúne músicos do mundo todo, refugiados ou não.

É a essência do oposto a tudo o que o bolsonarismo e o fascismo, em geral, representam. A alma exalada em cada interpretação estapeia o ouvinte de tal forma que não há como ficar indiferente, seja na execução de uma peça musical árabe, ou indiana, ou mesmo tipicamente africana, para cair em guarânias mato-grossenses. É a supremacia da união, da inteligência, do bom gosto e do respeito ao próximo.

Propositalmente, o rock ficou à margem desta crônica. Era hora de exaltar músicos que enfrentam, cada um a seu tempo, obstáculos a mais para empurrar a vida e mostrar sua arte em ambientes cada vez mais restritos e hostis. 

Claro que o rock cura, e muito, mas este espaço, hoje, foi dedicado um pouco mais à reflexão sem que o peso e a distorção predominassem. 

A música pesada cura e redime, com certeza, e que possamos conciliar a guitarra mágica de um Edu Gomes com o peso destruidor do Motorhead ou do Slayer para continuar caminhando e resistindo à barbárie que insiste em tomar conta de nossa sociedade.