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 Marcelo Moreira



Por que ninguém tinha pensado nisso antes? Por que tínhamos de nos contentar com apenas pílulas musicais na TV aberta nos anos 70 e 80, em programas toscos de videoclipes tirados de documentários, longas-metragens ou shows diversos?

Os anos 90 prometiam muita coisa em termos de inovação e novidades, principalmente em relação ao comportamento e aos hábitos culturais, sedimentando as mudanças velozes da década anterior. Música para ver e ouvir. Por que ninguém pensou nisso antes?

A MTV era um antigo desejo em vários países, mas havia a preocupação a respeito de sua aceitação: seria somente mais um enlatado made in USA? Seria possível “tropicalizar” sua programação em um país com música riquíssima? E o mais importante? Será que o brasileiro ficaria horas sentado à frente da TV “vendo” música?

Com doses cavalares de arrojo e muita coragem, a MTV surgiu no Brasil em 1990 pretendendo ser uma referência cultural para a juventude que estava se acostumando a ter muitas opções e a se expressar depois de 21 anos de ditadura militar e de cinco de uma frágil democracia.

Pensada para alcançar todos os tipos de público nos Estados Unidos, a emissora em canal UHF – não eram todos os aparelho e todas as antenas que a sintonizavam no Brasil – teve de se adaptar a algumas exigências do mercado, a começar pela própria acessibilidade.

O canal UHF era uma novidade ainda, o que convidava a uma segmentação. Mesmo antenados e bem informados, seus executivos foram cautelosos e embarcaram na onda pop mais elitizado para atrair um outro tipo de anunciante, ávido para mostrar produtos para uma juventude com poder aquisitivo.

Empreendimento de risco, a solução foi resgatar os formatos comerciais e de programação voltados para uma classe média um pouco mais abastada e disposta a consumir, sem muitos exageros, programas com cheiro de USA mas com linguagem própria e com valorização de artistas nacionais.

A fórmula inicial deu certo e o brasileiro curtiu ficar na frente da TV vendo música e apreciando novas ideias de entretenimento cultural. 

No começo eram quase só clipes, com algum noticiário sobre rock e pop e entrevistas gringas. Logo vieram os especiais com artistas nacionais e a exibição de shows em alguns horários, para em seguida abrir as portas para artistas novos, primeiro do rock, e depois para o hip hop e a MPB.

Os detratores, mesmo do mundo musical, atacavam o que consideravam o estímulo à apatia e à idiotização das massas – “A televisão me deixou burro muito burro demais”… grande estrofe de música dos Titãs. 

Já os entusiasmados pela novidade entenderam rápido o tamanho e a potência do “canhão” para a difusão da cultura pop e transformaram a MTV brasileira em ponta-de-lança de projetos próprios. A MTV aqui ganhava autonomia e andava com as próprias pernas, servindo de modelo de criação e inovação para o mundo todo fora dos Estados Unidos.

A MTV Brasil conectou o jovem brasileiro definitivamente com a produção cultural graças a executivos espertos mas, principalmente, a apresentadores e jornalistas competentes, também ávidos consumidores de cultura pop e extremamente sensíveis aos anseios do telespectador musical nacional.

A emissora se tornou uma janela para o mundo e todos lamentam até hoje a demora na chega ao Brasil. “Imagine o estouro que seria nos anos 80, com a revolução pop do rock nacional e as amplas possibilidades que se abriam em todos os sentidos depois de 20 anos de ditadura”, comentou certa vez Kid Vinil, cantor, radialista e jornalista, um dos pioneiros na apresentação de programas de música pop no rádio e na TV.

Com o poder de catapultar carreiras e ressuscitar artistas, ditou tendências e criou modas, desde o “MTV Unplugged” até o “Luau MTV”, passando por uma série de programa de entrevistas, games shows e até ficção jovem. Será que existiria o “Caldeirão do Huck”, de Luciano Huck, sem a MTV?

A importância da MTV foi tão grande em nossas vidas, e na cultura jovem brasileira, que passamos a sentir muita falta dela ao longo dos anos e de constantes mudanças na tentativa de acompanhar a velocidade dos gostos da moçada e da cada vez maior oferta de entretenimento e serviços às portas da terceira década do século XXI.

A emissora mudou, e muito, e não necessariamente para melhor. Abandonou o canal 32 UHF e posições mais privilegiadas nas TVs por assinatura para ocupar posições mais modestas. Deixou de ditar tendências, de impor modas e de influenciar gostos musicais. 

Os clipes praticamente sumiram e a programação custa a se adequar em um mundo assolado por Netflix, Globoplay e Amazon. Será que há futuro para a MTV?

Trinta anos depois, o legado da emissora da música é imenso. Mudou comportamentos e estimulou a busca por novas ideias. No Brasil, só a TV Globo conseguiu algo parecido.

Era muito interessante ser jovem nos anos 80 e 90 e acompanhar as rápidas mudanças comportamentais e ter um veículo de comunicação para chamar de seu, que ia além das tosquices pops e e muladas por suspeitas de “jabá” que rondavam as rádios FM. 

O mundo entrava em sua casa e direto em nosso cérebro, mesmo que nos empurrasse o “embuste” de que estávamos na vanguarda, ou que pelos menos estávamos prestes a embarcar nessa vanguarda.

A MTV fez parte de nossas vidas e nos ajudou, de certa forma, a ir em frente e em sonhar com algo um pouco melhor do que a nossa limitada, conservadora e engessada sociedade. Conectou-nos com o mundo e antecipou muita coisa do que hoje consideramos banal no mundo do entretenimento Tente imaginar o mundo, o de hoje e o dos anos 90, sem a MTV…