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 Marcelo Moreira

A celebração é justa. O rock estava escondido na TV brasileira, com eventuais aparições em enlatados de origem estrangeira, como os realities shows para “descobrir” cantores que infestaram várias emissoras desde um bom tempo.

A febre parece que passou e só dois deste programas resistiram, e na TV Globo, “The Voice Brasil” e sua versão infantil. 

Nunca prestei atenção a estes programas e na versão que “avalia” bandas, que é exibida no começo do ano, se é que existe ainda. São programas artificiais, que frequentemente desrespeitam os “competidores” e não deixam claro os critérios para as escolhas dos “vencedores”. 

Infelizmente, como era de se esperar, esses programas não revelam ninguém e não catapultam os desconhecidos para algum tipo de carreira, seja na TV Globo ou na TV Record – e olha que muita gente boa já possou por esses programas e foi ignorada. 

Stefanie Schirmbeck (FOTO: DIVULGAÇÃO/TV GLOBO)

Uma banda que teve boa colocação em uma das edições, Plutão Já Foi Planeta, teve seus cinco segundos de glória e permanece no underground, ralando tanto quanto antes. Até o momento, a participação no reality show não rendeu os frutos esperados.

De forma surpreendente, a edição atual de “The Voice Brasil”, que sempre relegou o rock ao quinto plano, fez o serviço direitinho e coloca na vitrine duas cantoras de prestígio e com histórico de respeito.

A gaúcha Stefanie Schirmbeck (ex-Holiness) e a paranaense Angel Sberse (Malvada e ex-Bendicta) passaram pra uma fase seguinte e devem ganhar alguns minutos preciosos para mostrar algum hit de rock para um mundo que se habituou a ignorar o gênero musical. A gaúcha impressionou ao interpretar uma música de Pitty e a paranaense surpreendeu com “Welcome to the Jungle”.

Vamos esquecer por alguns momentos que são duas artistas profissionais que estão há quase 20 anos na estrada. Se houvesse um mínimo de bom senso e regras que se não atendessem tanto aos índices de audiência, tais programas deveriam ser dedicados a artistas amadores aspirantes a alguma coisa ou a jovens promissores. Angel e Stefanie têm 37 anos e já gravaram álbuns autorais e profissionais com bandas ou projetos.

Assim sendo, e colocando as ressalvas de lado, é bom ver novamente o rock chamando a atenção quando está em vias de se tornar música de nicho, como o jazz e o blues, coisa para iniciados e quase de gueto. 

Enquanto os concorrentes sempre optam pelo comodismo e pelos hits de sempre da MPB, sertanejo e samba, as roqueiras ousaram e mostraram pouco comuns em programas deste tipo, escapando do classic rock e do rock brasileiro dos anos 80.

Com a banda de heavy metal tradicional/speed metal Holiness, Stefanie Schirmbeck lançou dois bons discos, sendo o primeiro, “Beneath the Surface”, o melhor. Com voz esplêndida e extenso alcance de voz, é uma das artistas mais interessantes do rock brasileiro da atualidade, principalmente pela diversidade de repertório.

Angel Sberse (FOTO: ARQUIVO PESSOAL/FACEBOOK)

Angel Sberse também tem origem no rock pesado. Seu projeto atual, o quarteto feminino Malvada, pretende seguir essa trilha mais agressiva, com letras em português, algo que ela fez com sucesso na banda paulistana Bendicta, que lançou apenas um EP e que, aparentemente, não existe mais.

Não dá para saber as chances que as duas têm na edição deste ano. Pelo que mostraram até agora, estão muitos anos-luz à frente de qualquer competidor, o que é uma vantagem, de certa forma, indevida, já que são profissionais tarimbadas e de primeiro escalão no rock underground. Contudo, como cantam rock, devem ter vida curta por lá.

Provavelmente não darei muita atenção a esse tipo de reality show, que soam inúteis e não servem nem mesmo com entretenimento. Vou torcer para que as duas levem o rock o mais adiante possível. 

Se alguma levar a vitória final, que tenham sabedoria e inteligência para aproveitar ao máximo as glórias e invistam na consolidação de suas carreiras interessantes e de muita luta dentro do rock.