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Marcelo Moreira


Detonautas em ação no Rock in Rio (FOTO: DIVULGAÇÃO/ROCK IN RIO)

A resistência passa pelo diálogo e pelo conhecimento do oponente. Não é por outro motivo que o cantor Tico Santa Cruz, dos Detonautas Roque Clube, se tornou uma das vozes mais ouvidas do rock nacional- e também um de seus principais alvos.

Engajamento é a palavra que define o músico, que é formado em ciências sociais e tem uma predileção por estudos e mergulhos profundos em experiências e pesquisas para entender a sociedade global e a que vive, especificamente. Claro que tudo isso aparece nas canções fortes e políticas da banda.

Com 23 anos de carreira e uma pena cada vez mais contundente em relação às críticas sociais, Santa Cruz faz questão de estar na linha de frente da contestação e na resistência ao governo de tendências autoritárias de Jair Bolsonaro – e também de seus filhotes em alguns governos estaduais.

“Nem nos piores momentos dos turbulentos anos de 2013 e 2014, quando houve profusão de manifestações e protestos, poderíamos imaginar que as consequências poderias ser tão funestas. A guinada de contornos extremistas para a direita é responsável direta pela piora da vida dos brasileiros”, diz o cantor ao Combate Rock.

Conectado com a realidade e em contato com muitos dos músicos contemporâneos, evita criticar a pasmaceira que domina o rock nacional, em que poucos estão engajados em mostrar que a arte está antenada contra os desmandos das autoridades e a erosão dos vários direitos civis e sociais.

Ativo nas redes sociais e se manifestando de forma crítica, Santa Cruz e os Detonautas estiveram produtivos durante a quarentena imposta pela covid-19 e, de forma irônica e ácida, pegaram pesado diante dos graves problemas administrativos e de competência na condução da pandemia, entre outras coisas.

“Não é só uma questão de engajamento. É uma necessidade de se posicionar diante de políticas lesivas aos trabalhadores e que só beneficiam uma classe de privilegiados, as classes de sempre. Creio que já ultrapassamos a fase do capitalismo predatório para enveredar pela barbárie total”, brada Santa Cruz indignado.

Dentro do rock nacional, os Detonautas são os artistas mais engajados e contundentes, de longe, entre as bandas mais importantes. 

A música “Carta ao Futuro”, que também virou um clipe de animação emblemático e didático, toca fundo nas denúncias de corrupção, irregularidades administrativas e bobagens inúmeras cometidas pelo governo Bolsonaro, a começar pela condução lamentável do combate à pandemia, em nível federal, e com o menosprezo ao conhecimento e à ciência.

É uma animação funesta e sombria, com zumbis vestidos com camisas da seleção brasileira dominando a paisagem e muito pouco a esperar em relação a dias melhores. Provavelmente, é o libelo mais contundente do rock nacional sobre os preocupantes tempos em que vivemos.
O clipe de animação é simples e bem feito e transmite alguns sentimentos manifestados por parte da população que não compactua com os desmandos do presidente nefasto Jair Bolsonaro e sua trágica gestão que minimiza a pandemia do coronavírus e endossa a destruição do meio ambiente, entre outros “crimes”.
Em resumo, está tudo lá, na canção e no vídeo: o desastre na gestão da saúde, em plena pandemia, as alegorias fascistas e as tentativas de golpear e enfraquecer a democracia.]
As trevas que caem sobre nossa sociedade são retratadas e simbolizadas por meio de zumbis que aterrorizam Brasília, acompanhados de um forte aparato repressivo e seitas obscurantistas.

Se ele evita comentários mais profundos sobre o envolvimento do meio artístico no combate às polícias bolsonaras, pede mais consciência e participação em temas relevantes que dizem respeito diretamente ao cotidiano dos brasileiros. 

Citando fatos históricos e passagens importantes do desenvolvimento cultural humano, Santa Cruz clama por uma tomada de consciência sobre o papel que os artistas estão desempenhando e que podem desempenhar em tempos de crise.

“A arte foi fundamental para que a sociedade se desenvolvesse e estabelece normas de civilização ao longo do tempo”, explica o músico. “Com a devida sensibilidade, a arte capta os momentos e as mensagens e as transforma em obras que simbolizam o seu tempo e traduzem as transformações. A gente pode viver sem muita coisa, como a pandemia deixou claro, só que ela evidenciou também que é impossível viver sem arte e cultura. Ambas são essenciais também na luta pelos direitos humanos e para uma sociedade melhor e mais humana.”

Nesta sexta-feira, 4 de setembro, o segundo single deste período de pandemia chega às plataformas digitais. Se “Carta ao Futuro” era mais reflexivo e apelava à busca de uma empatia mais explícita, “Micheque” vai fundo na ironia e no humor direto. 

Anova música chega pela Sony Music e faz contundente sátira sobre o recente episódio da política brasileira – o envolvimento de Michelle Bolsonaro com os R$ 89 mil em cheques depositados por Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama.  
 
“Todos temos o benefício da dúvida. Somos inocentes até que se prove o contrário. A música é um questionamento a respeito de uma questão importante. Como foi que esse dinheiro entrou na conta de uma pessoa tão próxima ao presidente. Basta que ele responda e acabam as especulações”, reflete Tico Santa Cruz