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King Crimson em 2015 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

A frase continua mais atual do que nunca e sempre atribuída ao guitarrista Robert Fripp: “não fazemos musicas para os pés, mas para a cabeça”. Apesar do pedantismo e da arrogância, o líder do King Crimson tinha muita razão em proferi-la, se é que algum dia o fez.

A pretensão erudita/acadêmica sempre esteve associada, ainda que, no começo, fosse apenas experimentalismo. Mas então entrou em cena o silêncio, o King Crimson cresceu. Virou cult, embora com muito prestígio e com menos espectadores do que o desejado.

É essa relação entre rock, erudição e silêncio que permeia o ótimo documentário “In the Court of the Crimson King”, que chegou aos circuitos comerciais dos Estados Unidos no começo do ano e que será uma das atrações do In-Edit 2022 – Festival Internacional de Documentários Musicais, em exibição única em São Paulo.

Dirigido, escrito e filmado por Toby Amies, tem o grande mérito de finalmente entrevistar de forma completa Fripp, seja na residência dele, seja nos bastidores de shows realizados nos Estados Unidos e na Europa.

É uma obra complexa, em que mistura uma tentativa de decifrar o que é o som do banda, contar rapidamente sua história e mostrar como os músicos se relacionam, com entrevistas com todos os integrantes da formação de 2018 – com as últimas palavras do tecladista e baterista americano Bill Rieflin, que morreu de cãncer em 2020.

É um documentário conceitual, digamos assim, que foge do padrão cronológico ou daquele que foca apenas um aspecto/era de um artista pra tentar mostrar o seu trabalho.

Amies teve acesso total aos bastidores e viajou com o grupo por várias cidades, registrando ensaios, conversas animadas, discussões técnicas e o trabalho dos roadies na disposição dos instrumentos e nos reparos a guitarras e baterias.

É bastante instrutiva a passagem em que os três bateristas – Jeremy Stacey, Pat Mastelotto e Gavin Harrison discutem uma passagem intrincada de uma música, com partituras na mão. Como se fosse jogadores de futebol combinando jogadas, precisam decidir o que fazer e como agir nas partes em que a percussão é predominante no show.

Como filme-conceito, abusa de enquadramentos inusitados e procura não editar falas complexas sobre temas igualmente complexos, principalmente quando Fripp fala, com sua figura que mistura cientista maluco com professor de química, impecavelmente vestido, ás vezes, com terno e gravata.

É Fripp que conduz a narrativa que tenta explicar o que é o som do King Crimson, inclusive com a valorização do silêncio como forma de acrescentar elementos diferentes a determinadas composições. 

Amies teve a inteligência de amarrar as falas conceituais com depoimentos de ex-integrantes, muitos deles até hoje desafetos do chefão Robert Fripp, como o percussionista Jamie Muir e o tecladista Ian McDonald (que fundou a banda junto com o guitarrista mas que acabou sendo expelido meses depois, ainda em 1969, por divergências criativas).

Praticamente ninguém se recusou a dar depoimentos entre os que passaram pelo grupo. Adrian Belew, o guitarrista e vocalista entre 1981 e 2008, deu depoimentos interessantes a respeito de sua interação musical com Fripp e como o experimentalismo ditou os rumos da banda nos anos 80. Belew hoje não tem boa relação com Fripp, mas não deixou isso transparecer no filme.

O mesmo ocorre com Bill Bruford, o baterista que foi do Yes e que entrou no grupo em 1972, ficando até o começo dos anos 2000. Hoje aposentado e fora da música, comentou como a tensão e a permanente inquietude dos músicos empurraram o King Crimson aos limites da inovação, “ainda que isso tenha cobrado preços altos e atingido circunstâncias à beira do insuportável”.

Trata-se de um bom resumo da história da banda e uma bela tentativa de explicar o que é a música inusitada e única do King Crimson. É um filme diferente, é um documentário conceitual, que usa o King Crimson para discutir questões sensoriais que envolvem a música.

Um dos méritos é conseguir fazer o Robert Fripp dizer coisas que raramente ele fala em público. Tem até uma tensão entre ele o vocalista, Jakko Jakszyk, em que eles divergem sobre as performances ao vivo. 

O roteiro também é bem feito, mistura as questões conceituais com fatos históricos da banda, sempre com um ex-integrante e desafeto falando. Tem coisas legais sobre a importância do silêncio no tipo de música que a banda faz. É abrangente e não se limita apenas ao King Crimson em termos musicais. 

No entanto, não é muito didático, pois a linguagem e o contexto são para iniciados (com bom conhecimento de música e de rock, e não necessariamente da banda) ou fãs incondicionais da banda.

Quem tem um conhecimento superficial de música ou de rock vai encontrar dificuldades para encarar os 90 minutos e entender a importância da banda ou a profundidade da discussão. 

Não é um documentário comum, o que é legal e, a mesmo tempo, pode ser um defeito. Como disse um jornalista britânico, é um filme sombrio e cômico para quem se pergunta se vale a pena “sacrificar tudo por apenas um único momento de transcendência”. 

Talvez não seja aquele documentário comemorativo dos 50 anos de existência da banda que muitos fãs esperavam, mas certamente é um trabalho à altura da genialidade e do espírito experimental e inovador do King Crimson.