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 Marcelo Moreira

O canal por assinatura de música, com sua programação aleatória e sem muito critério, anuncia a transmissão da banda, um show recente, lançado em DVD. A formação está diferente, e as informações dão conta de que a apresentação é de 2018. Mas com aquela formação?

Os mais desavisados vão achar que, finalmente, os ingleses do Yes voltaram a se reunir, deixando as diferenças de lado. 

O cantor Jon Anderson está ali, assim como o mago/bruxo Rick Wakeman nos teclados, mas quem aquele guitarrista que aparenta ser mais novo? 

E quem está substituindo o falecido Chris Squire no baixo? Cadê o Alan White na bateria e o Steve Howe na guitarra?

Enquanto estamos vendo o agradável show com clássicos da banda de rock progressivo inglesa, tentamos ver do que se trata e o que está acontecendo no celular, pela internet. E lá verificamos que esse shows de 2018 nem é o lançamento mais recente em CD/DVD. 

Na verdade, tem um produto recém-lançado, grabado em Londres, em 2019. Mas quem é esse cantor? E o que Steve Howe está fazendo nessa formação que tem um baixista diferente e um tecladista diferente?

“Yes – Live at Apollo” é uma grande malandragem, pois a capa e os rótulos não informam que aquele é um “Yes do B”, ou um genérico, mas com os nomes mais mais importantes do passado da banda. Deveria se chamar Yes featuring Jon Anderson, Trevor Rabin and Rick Wakeman, um nome enorme e que consta em alguns sites de venda.

É uma formação alternativa que está proibida de usar o nome Yes, registrado em nome do falecido Chris Squire, o baixista que era o chefão de verdade, morto em 2015.

O Yes oficial, digamos assim, que detém o poder de usar o nome, é aquele que foi mantido por quase 50 anos por Squire, o único músico a integrar todas as formações da banda até a sua morte.

“The Royal Affair Tour – Live in Las Vegas” é o DVD/CD recém-lançado desse Yes oficial, que tem Steve Howe e Alan White da formação clássica. Esse show foi gravado em 2019 durante a turnê que comemorava os 50 anos de criação do grupo – fundado por Anderson e Squire em 1968 em Londres.

Essa confusão, que só irrita e afasta os fãs, é resultado de décadas de brigas e desavenças financeiras, embora o nome sempre tenha sido posse de Chris Squire, para ódio dos demais ex-integrantes.

As questões relativas ao nome chegaram ao ápice agora, quando há duas bandas rivais lutando ara usar o mesmo nome, sendo que uma, por enquanto, está sendo obrigada a usar o aposto “featuring” que aumenta a denominação – e a confusão.

As principais questões giram em torno da chamada “formação clássica” da banda – Anderson, Squire, Howe, Wakeman e White, o quinteto que mais tempo junto atuou com o nome Yes.

Na fase áurea, a formação durou de 1972 a 1974 e de 1977 a 1979. Houve encontros e reencontros nos 30 anos seguintes, até que parecia haver aluma estabilização entre 2002 e 2006.

Em 2007, era essa formação que estava pronta para uma turnê mundial de dois anos para comemorar os 40 anos de fundação do Yes. Só que, às vésperas do giro, Jon Anderson ficou muito doente, com graves problemas respiratórios e uma dor lancinante nas costas. Quase morreu naquele ano.

Alguns shows da turnê foram adiados e a banda simplesmente demitiu Anderson ainda no hospital. O show não podia parar e a solução imediata foi vasculhar bandas cover do Yes pelo mundo e contratar temporariamente um vocalista. Acharam um no Canadá: Benoit David cantava em uma banda cover local.

Rick Wakeman não aceitou e se demitiu. E aí vem outro cúmulo de absurdo: o substituto, na emergência, foi o filho mais velho de Wakeman, Oliver, conceituado músico de estúdio e compositor de trilhas sonoras. Mais tarde o quebra-galhos Billy Sherwood – guitarrista, baixista, produtor, tecladista – assumiu o instrumento.

E assim o Yes desfigurado comemorou os seus 40 anos e também seus 45 anos – já com o norte-americano Jon Davison, que também cantava em banda cover do Yes. Substituiu David porque este ficou doente às vésperas de outra turnê…

Depois de muito tempo de recuperação, Anderson voltou a fazer shows, primeiro sozinho, apenas com o violão; depois, em duo,ao lado de Wakeman, gravando um álbum de estúdio e outro ao vivo, a partir de 2009.

O Yes mantinha sua carreira sem ser incomodado até que houve o famoso show de introdução da banda no Rock and Roll Hall of Fame, nos Estados Unidos, em 2017, situação que costuma gerar tensão em bandas com muitos ex-integrantes e na qual há pouca concordância sobre qual formação deve representar a “instituição”.

Surpreendentemente, houve um acordo rápido sobre como o Yes seria representado na cerimônia e os integrantes atuis cederam espaço para que os integrantes históricos aparecessem.

Assim, o novo chefão, Steve Howe, subiu ao palco da cerimônia om Jon Anderson, Alan White, Rick Wakeman e Trevor Rabin (guitarrista da banda entre 1982 e 1994), além de Geddy Lee (baixista e vocalista do Rush) substituindo o mestre Chris Squire.

Quem assistiu em loco disse que foi uma noite mágica, com todos aparentemente sendo cordiais e fazendo um show, com duas músicas, de tirar o fôlego e honrando o nome Yes.

A paz durou somente uma noite. No dia seguinte, Rabin, que abandonou o rock para se concentrar e ganhar mito dinheiro com trilhas sonoras no cinema, afirmou que “o Yes não existia mais, que aquela formação que usava o nome era falsa e que não correspondia aos verdadeiros músicos que sempre tocaram na banda”. 

Howe não respondeu, mas teve de ouvir um dia depois da entrevista de Rabin o “surgimento” de um Yes paralelo, com Anderson e Wakeman junto a Rabin. Era o Yes featuring Jon Anderson, Trevor Rabin and Rick Wakeman. Era uma declaração de guerra.

As picuinhas, sacanagens e contendas dos últimos dois anos fizeram questão de ignorar quem mais importava: os fãs, principalmente aqueles incondicionais que compram tudo o que o artista lança. 

Nem mesmo os fanáticos conseguem se livrar da confusão e acaba levando gato por lebre nos dois casos – compra o Yes oficial achando que os antigos integrantes voltaram e compra o o Yes paralelo achando que é o Yes oficial.

A formação que gravou em Las Vegas tem Jon Davison (vocais), Steve Howe (guitarra), Alan White (bateria), Billy Sherwood (baixo) e Geoff Downes (tecladista que tocou no Yes em 1980, no disco “Drama”, e depois foi companheiro de Howe no Asia).

Segundo pessoas que conhecem os bastidores de ambos os lados, não existe a menor possibilidade de uma nova reunião, mesmo que seja para dar fim definitivo à banda, devido à animosidade profunda que Howe pegou em relação a Anderson e Wakeman, que topariam discutir eventuais aproximações.

Mesmo um pouco mais cordial, Jon Anderson também nutre profunda decepção em relação a Howe, o mais enfático e decisivo na definição do afastamento do vocalista em 2007 para manter a turnê daquela época.

Músicos septuagenários e fundamentais para a história do rock, estão sujando a trajetória de uma das mais interessantes bandas de rock de todos os tempos.

Anúncio da Union Tour, em 1991: da esq. para a dir., Tony Kaye (teclados), Trevor Rabin (guitarra e vocais), Rick Wakeman (teclados), Alan White (bateria, com a camisa do Flamengo), Chris Squire (baixo), Jon Anderson (vocais), Bill Bruford (bateria) e Steve Howe (guitarra) (FOTO: DIVULGAÇÃO)

P..S.: Jon Anderson já tinha tentado dar um golpe semelhante em 1988, quando saiu pela segunda vez do Yes. Desgostoso com os rumos da banda após o disco “Big Generator”, de 1987, abandonou o barco e começou a gestar uma formação de um “verdadeiro” Yes, recurtando antigos membros da banda -Howe, Wakeman e o primeiro baterista, Bill Bruford (King Crimson), que saiu em 1972. Estava tudo pronto para que o novo grupo ressurgisse com o nome Yes e a tacada final serial convidar Squire para o projeto. Este recusou e apresentou a sua cartada: tinha registrado o nome, que virou sua propriedade. Então, entre 1989 e 1991, houve dois “Yes”, o oficial e o paralelo, com ex-integrantes, chamado Anderson, Bruford, Wakeman and Howe, com Tony Levin (King Crimson) no baixo, que laçou apenas um CD e um DVD ao vivo. Em 1991, as duas bandas, por questões financeiras e de falta de inspiração, se juntaram sob o nome Yes, que teve então oito integrantes. O projeto durou apenas um álbum e um DVD ao vivo.