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Marcelo Moreira



Estudar história ao mesmo tempo em que se ouve música pesada não é uma novidade, já que desde os anos 70 é possível encontrar álbuns de rock com forte conteúdo histórico, algo que ficou corriqueiro na década seguinte com discos do Iron Maiden e dos alemães do Grave Digger.
Nesta semana em que estúpidos louvam os 57 anos do estabelecimento da ditadura militar e e a imensa maioria mostrou o seu repúdio à data e os motivos pelos quais os estúpidos comemoram, vamos lembrar o álbum “Esquadrão de Tortura”, da banda paulistana Torture Squad, disco conceitual que trata do regime militar brasileiro.
Lançado em 2013, fazendo parte das celebrações dos então 20 anos de existência do grupo, o álbum foi o primeiro, no Brasil, a abordar integralmente o golpe militar de 1964. 
Na época um trio, com o guitarrista e vocalista André Evaristo, a banda realizou um extenso trabalho de pesquisa com a ajuda de um professor universitário e elaborou um trabalho contundente e importante dentro do rock nacional.
“Esquadrão de Tortura”, inicialmente, tinha a intenção de entender o que tinha sido aquele período e seus impactos para a vida política e cotidiana brasileira, segundo contou o baterista Amílcar Christófaro ao Combate Rock à época.
Foi uma decisão corajosa do Torture Squad, já que o tema é delicado e pantanoso, mesmo que apenas mostrando os fatos e dissecando a ditadura se esquivando da forte carga ideológica que o assunto evoca.  

Muitas horas de pesquisa foram gastas para escarafunchar a historia recente do país e resgatar alguns dos momentos mais funestos do Brasil.

Com o golpe de Estado de 1964 vieram a tomada pelo poder pelos militares, o solapamento da democracia e os anos negros da tortura e do Ato Institucional nº 5 (AI-5) que, entre outras coisas, limitou as liberdades individuais, suspendeu o habeas corpus e dissolveu o Congresso Nacional.

“É um tema pesado, mas que ainda causa polêmica e mexe com ideário das pessoas. De vez em quando a gente observa eleitores e cidadãos pregando a volta dos militares para acabar com a corrupção e com o crime, mas são poucos os que realmente se dão ao trabalho de pensar e relembrar o que realmente foram os 21 anos de governo militar no Brasil, com tortura e prisões arbitrárias nos 60 e 70 e morte de guerrilheiros em combates no Araguaia”, disse à época o baterista.

 
O álbum foi narrado de forma cronológica e didática, passando pelos principais fatos do período entre 1964 e 1985, desde o golpe contra o presidente João Goulart, em 31 de março, até a redemocratização com a eleição indireta do presidente Tancredo Neves. 
Embora evitando escorregar na questão ideológica, é evidente que a ditadura militar, em tempos bolsonaros, não permite ficar em cima do muro, especialmente quando as consequências do período sem democracia são sentidos até hoje.
Se falta um maior tom crítico e de repúdio, “Esquadrão de Tortura” nem de longe pode ser considerada uma obra apologética dos anos de chumbo. Não economiza ao expor os fatos e deixa claro que houve atrocidades aos montes, fato ignorado em 2013 por um poucos tontos que tentaram se apoderar da obra para enaltecer o regime militar assassino e criminoso. 
É um álbum importante dentro do heavy metal brasileiro e do rock em geral pela coragem em abordar um tema espinhoso e, de certa forma, perigoso. Oito anos depois, ainda é relevante e serve de boa introdução para quem pretende mergulhar na história daquele triste período da vida brasileira.