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A música é uma arma poderosa, seja para resistir, seja para construir. Se a revolução não vem, vamos cantá-la. A serenidade do emissor das sentenças contrasta com a força do discurso, mas a fagulha está no olhar firme e direto.

Os Garotos Podres comemoram 40 anos de carreira e de resistência, e a figura emblemática de seu vocalista se confunde com a trajetória da própria banda. José Rodrigues “Mao” Júnior pode ser confundido com a própria história do movimento punk engajado do Brasil.

É o único integrante original da permanecer na banda. Se olharmos por outro ponto de vista, é o único a estar em todas as formações – ele não reconhece o grupo que surgiu após a separação de 2011, e o nome só foi recuperado após batalha judicial que terminou em 2017.

O começo das celebrações ocorreu em janeiro, com a chegada ao circuito de festivais de cinema do documentário “As Faces do Mao”, em que ele conta a história da banda e dos 40 anos de punk no Brasil – ou 45, como advogam alguns historiadores.

As cenas não são novidade, mas seguem icônicas ao longo de 40 anos. De manhã, o professor universitário José Rodrigues Júnior está numa sala de aula ou em uma conferência falando sobre guerra fria, a revolução cubana ou sobre o desenvolvimento da China. À tarde, comparece a alguma manifestação sindical de esquerda ou do PT. À noite, dá tempo para vestir o uniforme de Mao e se tornar o ensandecido vocalista dos Garotos Podres. 

O apelido “Mao”, praticamente incorporado à personalidade do artista, é uma referência ao ex-líder da China Mao Tsé-Tung, que governou país entre 1949 e 1976 e implantou a primeira fase do regime comunista. 

Garotos Podres em 2022: da esq. para a dir., Alberto Rinaldi, Uel, Karpa e Mao (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O filme de Dellani Lima e Lucas Barbi é uma obra sem requinte e sofisticação, com roteiro aparentemente pouco trabalhado, mas eficiente ao mostrar o cotidiano de um cantor que se divide entre os palcos e as salas de aula, com uma ênfase em seu ativismo político. 

É um dos mais ferozes críticos político-sociais da arte brasileira, com uma retórica poderosa e base imensa de informações, que o transformam em um interlocutor inteligente e bem articulado aos quase 60 anos de idade. Irônico, sarcástico e bem-humorado, qualquer conversa com Mao se transforma, invariavelmente, em uma aula de história. 

Para o ex-escriturário raivoso que não hesitou em abraçar o punk rock em seus primórdios no Brasil, carregar bandeiras políticas e sociais com a mesma verve depois de 40 anos é uma vitória e tanto. 

O filme “As Faces do Mao” significa exatamente isso: uma vitória da resistência e da persistência. Mais podre do que nunca, como diz o título do segundo álbum, e muito mais podre – e sábio, e contundente – do que sempre.

“É um privilégio estar aqui depois de quatro décadas. Por outro lado, quando percebo que nossas músicas estão mais atuais do que nunca, é sinal de que a evolução foi quase zero, ainda que pudéssemos desfrutar de quase 14 anos de um governo de esquerda no poder”, diz o cantor se referindo aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Se ele lamenta que tenhamos caminhado pouco em relação a país mais justo e menos desigual, mostra preocupação com a guinada conservadora e de viés autoritário que domina a nossa sociedade desde a campanha e eleição do nefasto presidente Jair Bolsonaro.

O retrocesso é assustador. Não é só o desgoverno que choca, mas é a ideologia de conotação fascista que prega a destruição e o ódio”, explica Mao. “Esse governo está impregnando a vida cotidiana de preconceito, incentiva a violência e parece estimular políticas racistas e de depredação do meio ambiente. O pensamento é medieval.”

Não há como negar: nunca o som dos Garotos Podres foi tão necessário e atual como nos tempos bolsonaros de trevas. De forma trágica, a celebração dos 40 anos da banda evidenciam que ainda estamos atrelados á resistência.

Para Mao, o momento é tão delicado que tivemos de retroceder ao o ponto de ter defender a democracia. “Se quatro décadas atrás, quando começamos, eu imaginasse que essa seria a nossa principal batalha, não sei como seria minha trajetória. Em 1982 lutamos pela volta dela; em 1988, quando o exército matou três trabalhadores grevistas na CSN [Companhia Siderúrgica Nacional], lutamos para reservá-la, assim como na eleição de Lula em 2002. A destruição institucional que está ocorrendo é desesperadora.”

Mensagem poderosa e ativismo

A banda formada em Mauá (ABC Paulista) – e que se espalhou pela Grande São Paulo e capital em muitas formações – é um ícone do rock brasileiro e da música nacional de protesto.

Ok, ele não gosta dessa coisa de personificação. A mensagem é o mais importante e a banda continua valorizando as suas origens proletárias e operárias, já que nenhum dos quatro músicos sobrevive exclusivamente da arte.

Aliás, foi até surpreendente que Mao topasse a realização do documentário centrado nele, e não na banda. E ele não consegue disfarçar, no filme, que gostou disso, já que se mostra muito articulado (como sempre) e bastante confortável na frente das câmeras, abrindo as portas do apartamento onde mora, em São Bernardo do Campo, dos camarins da banda e das salas de aula.

Na pulverizada cena punk paulista, os Garotos Podres não tinham facção, digamos assim, lá nos anos 80. Moradores da “periferia da periferia”, como gosta de dizer Mao a respeito de Mauá, os integrantes iniciais da banda não eram próximos, no início, do movimento que fervia na zona norte de São Paulo e do centro da cidade.

Tampouco tinham afinidade com a turma do ABC, mais radical e violenta em determinados momentos. Muita gente gosta de avaliar que os Garotos Podres estavam em uma linha frequentada pelo Cólera, que pairava acima das facções.

Como toda banda punk que se preze, tudo era politizado e tudo era protesto, mas a banda de Mao ia além na questão do ativismo político. A banda era engajada graças ao vocalista e sua militância esquerdista.

“Isso vem desde que eu era pequeno. Meus avós paternos eram trabalhadores na Espanha e imigraram para o Brasil para trabalhar. Eram proletários, assim como meu pai. O antifascismo, a democracia e a luta pelos direitos humanos estão no meu sangue”, diz o vocalista com orgulho.

Diante das letras de protesto, políticas e contextualizadas historicamente, sempre empunhando a bandeira progressista, é de não acreditar quando vieram à tona os problemas internos em 2011, culminando com a saída de Mao e a briga na Justiça pelo nome Garotos Podres.

“É inevitável que haja surpresa, já que a ‘cara’ da banda era a de protesto, progressista, antifascista e com viés de esquerda”, relembra Mao. “Eu é que dei o tom, mas os outros integrantes nunca comungaram com esse cenário. Alguns defendiam abertamente as ações violentas da Polícia Militar, tinham apreço pela ditadura, ou por alguns de seus aspectos. Eu mesmo custo a crer que a ruptura tenha demorado tanto.”

Enquanto os Garotos Podres praticamente morriam sem o seu mentor, renegados pelo público que identificava a banda com os ideais progressistas, Mao criou o grupo Satânico Doutor Mao e os Espiões Secretos, chegando a gravar um CD. Mas não adiantava disfarçar: tinha o DNA de sempre dos Garotos Podres que um dia eram punks engajados.

A questão judicial foi resolvida em 2017, com Mao recuperando os direitos do nome diante do praticamente abandono das atividades pelos outros agora ex-integrantes. 

O Satânico Doutor Mao tirou jaleco branco e voltou a ser Garotos Podres, retomando a carreira e reincorporado os elementos que a fizeram famosa e respeitada. Os 40 anos de banda, finalmente, serão homenageados como têm de ser.

A formação hoje tem Mao nos vocais, Alberto Rinaldi (Deedy) na guitarra (também músico da banda punk Subalternos), Uel no baixo e Tony Karpa na bateria. 

O vocalista escapa das armadilhas de autoindulgência para declarar algo do tipo “Garotos Podres é a essência do punk” ou “é um estilo de vida”. “Somos uma banda punk que sobreviveu ao tempo e que tem uma mensagem forte – e o privilégio de ser ouvida até hoje. Vão ter de nos aturar por um bom tempo.”