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O diretor neozelandês Peter Jackson cumpriu aquilo que se prometia nos trailers de “Get Back”, documentário focando as gravações de “Let It Be”, o último álbum oficial lançado pelos Beatles. Debruçado sobre mais de 50 horas de filmagens feitas na época por Michael Lindsay-Hogg, ele apresenta um retrato mais leve sobre um período que sempre foi retratado como conturbado e repleto de conflito entre os integrantes da maior banda de rock de todos os tempos. Este Combate Rock pôde assistir um corte feito pelo próprio Peter Jackson, com 100 minutos de duração.

O contexto

Era início de 1969 e os Beatles entraram em estúdio para um projeto ambicioso: idéia de Paul McCartney, o plano era produzir um álbum, um especial de televisão que traria uma apresentação ao vivo – a banda não fazia shows desde 1966. As limitações técnicas e os arranjos cada vez mais sofisticados que eles passaram a trazer a partir de Revolver faziam com que se tornasse a reprodução de suas composições nos palcos.

Para este projeto, ao invés de irem para os estúdios em Abbey Road, eles foram para outro lugar, o Twickenham Studios, nos arredores de Londres. O Twickenham era um estúdio de filmagem, apropriado para receber a banda e os equipamentos de filmagem de Michael Lindsay-Hogg, escolhido para captar as imagens para o tal especial de TV.

 À medida que os dias foram passando, diversas ideias foram abandonadas, incluindo o tal especial. O resto se sabe: George Harrison abandonou as gravações em um determinado momento, retornando depois; diversos conflito entre os integrantes da banda, incluindo aí o diretor George Martin, surgiram; o álbum, que deveria se chamar “Get Back”, acabou se chamando “Let It Be” (com uma mixagem final que deixou Paul McCartney revoltado); e a tal apresentação ao vivo virou um show pocket feito no terraço do prédio da Apple Corps, no centro de Londres.

 Tudo isso foi exaustivamente descrito por diversos biógrafos da banda e de seus integrantes e também no documentário de Michael Lindsay-Hogg, “Let It Be”, lançado em 1970.

 

Get Back”

 Com o mesmo material feito por Lindsay-Hogg, com mais de 50 anos de diferença, Peter Jackson optou por ter um olhar diferente e traz um clima bem mais ameno e de camaradagem entre os integrantes, onde existe um ambiente de colaboração na criação de novas composições (como com Paul McCartney indo para a bateria para ajudar George Harrison no desenvolvimento de “Old Brown Shoe”) e muitas brincadeiras entre si.

Isso nos leva, irremediavelmente, à questão: onde está a verdade, afinal? Nos conflitos apresentados por Lindsay-Hogg ou na harmonia de “Get Back”? Talvez não exista uma única resposta ou, melhor ainda, esteja em todos os lugares – temos quatro caras que ficaram milionários e famosos juntos e que se conheciam (exceto Ringo) desde a adolescência. Existia a camaradagem, mas também o desgaste da relação – em quase 60 horas de filmagem, tudo isso acabou sendo registrado.

 Lindsay-Hogg já afirmou em entrevistas que, durante o processo de montagem de “Let It Be”, já com os conflitos entre os Beatles mais latentes, era comum que, em um dia, McCartney entrasse em seu escritório pedindo que se incluísse ou tirasse algum trecho. No momento, seguinte, era Lennon, com outras ordens, muitas delas conflitantes com as do baixista. Depois, era a vez de George, com OUTRAS demandas. Então, foi neste contexto que surgiu o documentário de 1970. Peter Jackson, um assumido fã da banda, não sofreu nenhum tipo de pressão para escolher o que bem entendesse. Foi o que ele fez e, ali, pode ter encontrado a verdade dele, o que também não está errado.

No corte que o Combate Rock pôde assistir, são apresentados dois dias de trabalho das gravações de “Let It Be” – em um determinado momento, a banda decidiu abandonar os estúdios em Twickenham e passaram a ensaiar e gravar no estúdio da Apple (que ainda não estava pronto, por sinal). A esta altura do campeonato, o tecladista americano Bill Preston já estava participando das sessões e, embora no filme não exista nenhum indicativo do motivo de sua presença ali, é possível constatar que sua presença foi determinante para o resultado final das canções. O primeiro dia retratado neste corte foi filmado em 27 de janeiro de 1969 e vemos uma banda trabalhando arduamente no repertório do novo álbum – muitas letras ainda não haviam sido finalizadas, algumas canções eram ainda rascunhos muito simples e é clima de ensaio, com muitos erros, repetições, comentários e algumas piadas.

 

O segundo dia retratado, e o que é a cereja do bolo, é o dia 30 de janeiro, quando a banda sobe no telhado e faz um show surpresa no centro de Londres. Ao contrário do que se vê no Youtube, o que vemos são imagens restauradas, com grande qualidade, assim como o áudio, destacando a qualidade das músicas e de suas interpretações.

Vemos uma banda bem entrosada, com energia e vontade em estar se apresentando. Inevitável imaginar como seria um show inteiro deles, com equipamento compatível, coisa que não acontecia quando decidiram parar com as apresentações ao vivo, três anos antes. 

O documentário “Get Back”, com nove horas de duração, começa a ser exibido hoje, divido em três episódios, no Disney+