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 Marcelo Moreira



A cria começa a se desgarrar do ciador. E a banda norte-americana Greta Van Fleet ruma para se tornar uma banda de verdade, por mais que essa afirmação contenha exageros.

O tão aguardado segundo álbum autoral do grupo (o primeiro, “From the Fire”, era a reunião de dois EPs antigos) contém a decisão mais do que acertada: um rápido e progressivo afastamento dos mestres Led Zeppelin, o que auxilia muito nas tentativas de se livrar do rótulo de “cópias” da banda de Jimmy Page.

Ok, o desgarramento não é total, já que as guitarras ainda soam Jimmy Page demais, e o vocalista insista em gritar bastante à la Robert Plant, mas o direcionamento deste “Battle at the Gardens Gate” aponta pra um futuro muito promissor.

Não exijamos uma mudança radical de uma hora para outra. Se o Led Zeppelin aparece de menos, Uriah Heep, Queen e até Faces aparecem demais, o que é ótimo, misturando influências que mostram uma evolução nítida.

Tudo remete aos anos 70, em uma atitude que remete aos Black Crowes, que fazem questão de emular Faces, Humble Pie e Rolling Stones em todos os discos – quase sempre dá certo, mas corre-se o risco de cansar os ouvidos mais exigentes.

Curiosamente, Greta Van Fleet está menos pesado, e isso não atrapalhou em nada. As músicas estão mais elaboradas, com arranjos de violão em quase todas e um vocal bem trabalhado e menos deslocado, como em “Heat Above”, que abre esse bom disco.

Claro que é um disco movido a guitarras, mas o fato de estar menos pesado redireciona o som para que outras influências fiquem mais evidentes, como o blues e o country-folk, com profusão de violões e pianos, como na já citada “Heat Above” e na linda “Age of Machine”.

O progresso pode ser verificado também nas letras mais reflexivas, que pe o caso de “Broken Bells”, uma balada dramática e sentimental.

“Tears of Rain” e “Stardust Chords” seguem na mesma linha, alternando momentos suaves com pegadas mais hard em trabalhos elogiáveis de guitarra e violões, enquanto que temos mais peso em “The Barbarians” e “The Weight of Dreams”, sendo que esta última é o grande momento épico do CD.

Se antes havia certo incômodo pela semelhança absurda e total com o Led Zeppelin, o novo trabalho dissipa essa impressão, diluindo a influência capital em todo o CD, mas espantando a sensação de cópia. É rock dos bons, daqueles gostosos de ouvir, ainda que a originalidade passe muito, mas muito longe.

Muitos dirão que esse trabalho ainda é insuficiente para que Greta Van Fleet seja considerado a salvação do rock. Pode até ser, mas é fato que “The Battle at Gardens Gate” coloca a banda no caminho certo. Se ainda não salvou, as chances de vir a salvar aumentaram consideravelmente com este bom álbum.