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Marcelo Moreira



Hansi Kürsch (esq.) e Jon Schaffer na divulgação do álbum ‘III’, do Demons & Wizards (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Até que demorou, até demais, mas finalmente o o cantor alemão Hansi Kürsch anunciou que está fora do projeto intercontinental Demons & Wizards, que mantinha com o guitarrista norte-americano John Schaffer.
Amigos desde os anos 90, lançaram o terceiro disco do projeto em 2019 após mais de 15 anos de silêncio, embora mantivessem contato frequente. 
Kürsch é vocalista da banda alemã Blind Guardian, de heavy metal tradicional e hoje a banda mais importante da Alemanha depois dos Scorpions. Schaffer é o líder do Iced Earth, que já foi na década passada um dos nomes mais importantes do metal americano. Também mantém o Sons of Liberty, projeto voltado para o thrash metal com letras políticas em em apoio a ideias conservadoras.
O alemão foi muito cobrado nas redes sociais e por músicos europeus sobre a manutenção do Demons & Wizards após os eventos de 6 de janeiro, nos Estados Unidos.
Incitados pelo então presidente Donald Trump, apoiadores extremistas de direita cercaram o Parlamento americano e invadiram a casa na tentativa de evitar a confirmação do nome de Joe Biden como novo presidente – uma clara tentativa de golpe de Estado, que fracassou totalmente.
No dia seguinte, as agências internacionais divulgaram fotos dos invasores do Congresso e, em uma delas, Schaffer aparece esbravejando contra seguranças do Capitólio, que é o Parlamento americano.
Imediatamente o FBI, a polícia federal americana, começou a identificar, caçar e prender os responsáveis pelo ato de terrorismo. O número de investigados chega a 170, sendo que mais de 60 estão presos, inclusive Schaffer, que se entregou na semana passada. 
Segundo o FBI, o músico será processado por seis crimes – ainda não há estimativa de pena em caso de condenação por todos os crimes.
Em curto comunicado à imprensa e nas redes sociais, Hansi Kürsch informa que não participa mais do projeto com Schaffer, mas sem mencionar explicitamente os motivos, mas reforça que sempre foi contra qualquer tipo de violência, e principalmente a política, e que ficou chocado com as imagens que viu sobre a invasão do Capitólio.
É um fim trágico de um dos mais esperados retornos desde que os dois lançaram o segundo disco, em 2005. Era o tipo de colaboração inusitada, mas extremamente festejada, j´que eram dois nomes importantes do cenário do metal.
Mesmo sendo dois músicos tão diferentes, inclusive nas ideias, as expectativas para o Demons & Wizards eram enormes, e foram correspondidas com o primeiro álbum, autointitulado, lançado em 2000, mas sem turnê, por conta da agenda lotada dos dois músicos com suas bandas principais.
Eles se juntaram somente cinco anos depois e mantiveram o nível com o o bom “Touched by the Crimson King”, uma série de pancadas metálicas de muito bom gosto.
Os dois negam problemas pessoais, mas o fato é que se afastaram por muito tempo, mesmo professando cordialidade nas entrevistas. Não fizeram muita questão de reativar o projeto até 2015, quando Kürsch admitiu que poderia encontrar tempo para um novo disco do Demons & Wizards.
Schaffer se animou e disse que estava compondo novas músicas, que somente ficaram prontas e foram parar nas mãos do alemão em 2018.O terceiro álbum saiu no começo de 2019 com direito a alguns shows de divulgação, especialmente no Wacken Open Air – uma apresentação extraordinária e elogiada quase que unanimemente.
“III”, o álbum, frequentou as lista de melhores do ano de 2019 em todos os continentes, e esteve também na lista do Combate Rock.

Ao que se sabe, Kürsch nunca manifestou contrariedade a respeito das posições político-ideológicas de Schaffer, que até a chegada de Donald Trump no poder demonstrava certa moderação em seu conservadorismo.
Entretanto, jornalistas variados que entrevistaram Schaffer nos últimos dois anos se assustaram com a guinada extremista do conservador, inclusive abraçando teses conspiracionistas das mais absurdas, entre elas a de que houve fraude nas últimas eleições presidenciais americanas.
Se havia estranheza por conta de muita gente a respeito da união entre o extremista Schaffer e o modernado e humanista Kürsch, esse sentimento só ganhou força após o dia 6 de janeiro.
Muita gente, por conta disso, também estranhou o silêncio do alemão, que ficava mais ruidoso a cada dia que passava e a cada volume imenso de cobranças e críticas nas redes sociais.
O anúncio de hoje, 25 dias depois dos eventos do Capitólio, é uma tentativa de amenizar a questão, mas a demora em se posicionar pegou muito mal entre fãs do Demons & Wizards e do Blind Guardian no mundo inteiro.