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 Marcelo Moreira

John Baldwin era talentoso e muito inteligente, mas não gostava de sair de casa para tocar em botecos esfumaçados e para gente que não tinha interesse a não ser na bebida. Parece que estava destinado a ficar entocado nos estúdios, e gostava disso.

E veio então a tarefa de arranjar a canção “She’s A Rainbow”, dos Rolling Stones, para o álbum “Their Satanic Majesties Request”, que seria lançado em dezembro de 1967.

Baldwin escutava bastante jazz, e tinha muita afeição pela música erudita, mas nenhuma empatia com o rock, a música popular da época que era obrigado a ouvir e na qual trabalhava nos estúdios. Todo mundo sabia que era “geniozinho” e que tocava piano esplendidamente.

O moleque de 22 anos transformou a canção dos Stones, que parecia meio banal e comum, em uma sinfonieta pop esplendorosa com seus arroubos orquestrais e sua imponência valorizando cada linha melódica.

John Paul Jones (FOTO: DIVULGAÇÃO/ARQUIVO PESSOAL)

Foi com essa demonstração de genialidade que um certo Jimmy Page, ex-músico de estúdio e então guitarrista dos Yardbirds em decomposição, teve a certeza de aquele moleque era um cara a ser observado.

Não demorou muito para que ele e Baldwin tocassem juntos em uma canção para o disco solo de Jeff Beck, “Truth”, que seria creditado a Jeff Beck Group, com os vocais de Rod Stewart. A faixa era “Beck’s Bolero”, era instrumental e tinha Keith Moon (The Who) na bateria e Baldwin no baixo. 

Page e Baldwin não sabiam, mas ali nascia o Led Zeppelin, em meados de 1967. E Baldwin ainda não sabia, mas estava se transformando em John Paul Jones.

Um dos mais reservados nomes do primeiro escalão do rock, Jonesy, como era conhecido, é considerado um dos nomes mais estelares da música entre seus pares. Ele completa 75 anos de idade neste começo de 2021 ainda com a fama de gênio, excêntrico, antissocial, reservado e autossuficiente.

Ele era o nome improvável para compor uma banda de rock pesado, já que nem apreciava o rock, mas viu uma grande oportunidade quando soube que os Yardbirds estavam implodindo em 1968 e que Page estava procurando músicos para substituir os que saíam.

“Eu conhecia Jimmy das inúmeras sessões de estúdio para milhões de bandas entre 1965 e 1967. Não éramos amigos, mas tínhamos muito respeito mútuo e ele me disse que gostava de trabalhar comigo. Quando me enchi do estúdio, tomei coragem e liguei para ele me colocando a disposição para um novo projeto. Eu me surpreendi quando ele me ligou rápido me convidando para uma série de ensaios”, disse o baixista e tecladista à revista Rolling Stone sobre a formação do Led Zeppelin.

Para Page, era a melhor notícia de todas, pois sempre teve o arranjador em mente para uma nova banda. Jonesy não sabia, mas o primeiro convite não era para ensaios, mas para integrar oficialmente os New Yardbirds, que viraria Lerd Zeppelin ainda no final daquele ano de 1968. Aquele período foi muito rápido, em todos os sentidos.

Com o Led Zeppelin, Jonesy virou superastro do rock, apesar de manter o comportamento reservado e meio longe dos escândalos que acompanharam a banda ao longo da história.

Era o braço direito da mente fervilhante de Page, que moldou a banda de acordo com sua visão esplendorosa do rock de arena e do gigantismo que as oportunidades ofereciam.

Os dois sempre foram ratos de estúdio e dominavam os equipamentos e as técnicas de gravação e produção como ninguém, o que colocou a banda em outro patamar naqueles dourados anos 70. Não era somente rock pesado ou blues pesado: era o conceito da música total, com todos os excessos advindos de tal conceito, o que significava camadas e mais camadas de guitarras sobrepostas, teclados envolventes e cintilantes e uma bateria monstruosa e mastodôntica.

John Paul Jones sempre achou graça do titulo de um dos livros sobre a banda, “Quando os Deuses Pisavam na Terra”, mas ele admitia que, às vezes, ele se sentia como tal no Led Zeppelin.

Com o fim do grupo, em 1980, em decorrência da morte do baterista John Bonham, Jones seguiu uma trajetória errática, ao menos aos olhos do público, mas saboreou cada segundo que uma vida confortável de produtor e músico bissexto poderia oferecer. 

Lançou poucos álbuns solo, participou de discos de amigos e e de promessas da música pop e produziu bastante, sempre apostando no novo e no inovador/ousado. Ganhou ainda mais respeito entre os músicos.

Curiosamente, a relação com Page e Robert Plant nunca foi próxima, nem mesmo nos tempos de banda. Sempre fez questão de manter uma certa distância, o que lhe rendeu críticas quando não foi ao enterro do filho de Plant, em 1977, vitimado aos 5 anos por uma infecção rara.

Apesar dos conflitos rotineiros, Page e Plant mantiveram-se perto e em contato após o fim do Led. Quase montaram nova banda em 1981 com membros do Yes, e voltariam a tocar juntos entre 1994 e 2000, gravando dois álbuns e um DVD. 

Led Zeppelin em 1970 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Jones nunca esteve incluído nestes planos e, de forma elegante, demonstrou seu ressentimento ao declarar à BBC londrina: “Fiquei sabendo do projeto deles pela imprensa. Provavelmente esqueceram ou perderam o meu número de telefone.”

Mesmo com certas reservas, nunca se opôs com veemência a um retorno, ainda que parcial, do Led Zeppelin, como Plant. Seria o coroamento de sua carreira, hoje em banho-maria.

John Paul Jones é um dos músicos mais versáteis que o rock produziu. Seu senso estético apurado foi crucial para dar certo verniz ao Led a ponto de isso ficar muito claro na comparação com a concorrência. 

Se a guitarra de Page era a linha de frente e a voz de Plant era a “cara” daquele rock pesado, o baixo, os teclados e os arranjos elaborados de Jonesy eram o toque de classe e de extrema qualidade que o som bruto e primal necessita para ampliar o público.

Como disse certa vez o amigo Pete Townshend, guitarrista do Who, era impossível algo ficar ruim quando John Paul Jones colocava as mãos. Talvez essa seja a melhor definição sobre o ex-baixista do Led Zeppelin.