Melhores do ano de 2025 – Nacional -parte 2

Não há motivo para pânico: mesmo com IA, mesmo com as práticas espoliatórias das plataformas de streaming, mesmo com o mainstream tomado pelo dinheiro do agronegócio, ainda existe muita música muito boa sendo feita pelo Brasil afora e o ano de 2025 é prova de que este rio continua caudaloso e vivo.

Enquanto estávamos distraídos discutindo Velvet Sundown ou alguma outra farsa criada por inteligência artificial, gente de carne e osso estava criando música, gravando, fazendo shows. Aproveito, então para citar – não literalmente – uma frase postada por William Magalhães, da Banda Black Rio: IA não sobe no palco para se apresentar, nem cria cena.

Isso posto, seguem alguns destaques de trabalhos nacionais lançados em 2025 – sempre haverá ausências e lacunas, pois uma lista é uma lista é uma lista.

“Coisas Naturais” – Marina Sena (Sony)

Depois de um promissor álbum de lançamento, a cantora e compositora mineira perdeu um pouco o rumo e o foco – em um tempo em que a presença em redes sociais borra o que é artista e o que é celebridade (ou subcelebridade), ela ficou neste espaço duvidoso – se falava cada vez mais sobre quem ela namorava, ou terminava de namorar, sobre detalhes anatômicos de seus ficantes e pouco sobre sua música. Some-se a isso uma apresentação temerária em homenagem à Gal Costa, em que ela sofreu com o “carrinho da torcida”, muita gente achou que Marina se tornaria um talento desperdiçado.

Mas em “Coisas Naturais”, ela retomou sua carreira artística, deixando o mundo das celebridades de lado. Ela se juntou aos produtores Janluska e Gabriel Duarte e nos oferece um trabalho coeso, transitando pelo pop, rock psicodélico e ecos da MPB.

Só espero que a presença de seu namorado no Big Brother não traga novamente Marina para o mundo das subcelebridades.

“Sem Diversão Para Mim” – Maré Tardia (Deck)

Os capixabas do Maré Tardia trazem em “Sem Diversão Para Mim” aquilo que os Los Hermanos poderiam ter sido mas não foram: uma banda de hardcore veloz, honesta e furiosa. À receita “um-dois-três-quatro e pé embaixo”, eles adicionam pitadas de surf music, shoegaze e pós-punk (sim, tem coisa de Television ali, mas também tem coisa de Johnny Ramone).

Produzido por Alexandre Capilé (Sugarcane), os garotos de Vila Velha provam que o hardcore nacional ainda tem muito o que mostrar.

“Emicida Racional VL2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores” – Emicida (Cecrofia)

2025 foi um ano turbulento na vida de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida. Logo em janeiro, o rumoroso fim da parceira com seu irmão Fióti, que tocava o Laboratório Fantasma – que geria os negócios da dupla, que iam além da música – games e moda também faziam parte do portfólio do grupo.

A treta, que foi parar na justiça, também envolveu a matriarca dos Oliveira, dona Jacira, que tomou partido de Fióti. A disputa acabou se encerrando de maneira amigável entre as partes mas, a partir de então, Emicida passou a ser o responsável pela gestão de sua carreira. Em julho, um outro baque – Dona Jacira acaba morrendo.

É a partir destas ausências, do suporte gerencial do irmão e do suporte emocional de sua mãe, é que devemos tentar ler “Emicida Racional VL2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores”. Sem o aparato promocional que sustentou “Amar3lo”, de 2019, o rapper faz uma dolorosa viagem sentimental ao próprio passado ao mesmo tempo que estabelece diálogo com “Cores & Valores”, último álbum dos Racionais MC’s.

Com participações de Amaro Freitas, Rashid e Projota, Emicida trata de questões como memória e o papel dos pretos na história do Brasil contemporâneo.

“Bem-vindos de Volta” – Mahmundi (UnitedMasters)

Muitas vezes, para se avançar, é preciso voltar às origens. E foi o que Mahmundi fez em “Bem-vindos de Volta”. Aqui, encontramos o synth-pop vibrante de seus trabalhos iniciais, mas sem nenhum apelo nostálgico. Assinando a produção juntamente com Pedro Lucas e Adieu, ela adiciona camadas de trip hop, mpb e rock às suas composições.

“Bem-vindos de Volta” também marca um outro passo importante em sua carreira: depois de anos contratada pela Universal Music, Mahmundi volta à cena independente e, mais importante, dona de sua obra.

“Handycam” – Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro (Risco)

O título, roubado do pensamento glauberiano – uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, indica que os rumos que guiam este álbum, que reúne Sophia Chablau (Sophia Chablau & Uma Enorme Perda de Tempo) e Felipe Vaqueiro (Tangolo Mangos). Aqui se vai desde aspectos íntimos, como namoro até o massacre sofrido pelos Palestinos, passando pelo cinema brasileiro e o incêndio ocorrido em uma das unidades da Cinemateca Brasileira, em 2021.

Em um segundo ano em que o cinema brasileiro tem captado as atenções de muita gente mundo afora (e no próprio Brasil) é impossível não cantarolar: “E o cinema brasileiro é foda pra caralho/E eu estou fodendo o cinema brasilero/E o cinema brasileiro é lindo/E eu quero ser lindo como o cinema brasileiro” (“Cinema Brasileiro“)

vidamorteconteúdo – Molho Negro (Deck)

O quinto álbum da banda paraense Molho Negro aborda um assunto contemporâneo: a vida intermediada por telas, redes sociais, likes e engajamento. Em uma sociedade em que a produção de conteúdo é incessante e monetizável, o seu excesso transforma este mesmo conteúdo em commodity de baixo valor.

O que vale mais a pena? Correr atrás do trend ou fazer música? Bom, Molho Negro parece ter algumas boas respostas.

big buraco – Jadsa (Risco)

Se em seu álbum de estreia (“Olho de Vidro”), a baiana Jadsa apresentou sua proximidade com a vanguarda paulistana (pergunta crítica: mais de quarenta anos depois, ainda cabe o termo “vanguarda”?), em seu segundo lançamento, ela mergulha no hip-hop, nova MPB e outros timbres, em um resultado solar, que lembra as praias da Bahia, tardes na piscina e uma sensação de otimismo irredutível.

Noise Meditations – Bike (Bike Records)

Um dos principais nomes da onda neopsicodélica brasileira, a Bike, formada em São José dos Campos (SP), tem trilhado um caminho em que busca se diferenciar de outros congêneres e estabelecer sua singularidade. Se em “Arte Bruta” (2023), havia um flerte com a psicodelia nordestina dos anos 1970, em “Noise Meditations”, a inspiração está no krautrock alemão.

Empurrados pela bateria precisa de Daniel Fumega, a Bike adiciona ruídos e drones que formam o colchão sonoro de “Noise Meditations”. Os principais destaques do álbum são as faixas “Sucuri” e “Neu!A”.

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