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 Marcelo Moreira



A pandemia de covid-19 será um divisor de águas para toda a humanidade, que certamente jamais esquecerá 2020, um ano terrível em todos os sentidos.

Para quem trabalha com entretenimento, artes e cultura, o ano tem de ser esquecido, por um lado, já que paralisou todo o setor no mundo, e tem de ser analisado para que haja aprendizado e, de certa forma, como um recomeço.

É desta forma que muitos artistas encararam os meses de isolamento social e sem trabalho: recomeço e busca de novas de ideias, para não dizer renascimento e começar tudo o zero. Foi assim para as bandas paulistas Silver Mammoth, Warshipper e HellgardeN.

“Western Mirror” foi lançado antes da pandemia, mas foi aropleado por ela, como todos nós. O melhor álbum da longa carreira do Silver Mammoth foi prejudicado em sua divulgação, mas, por outro lado, ganha novo fôlego em nova etapa.

Aquele ar de stoner metal e som pesado tradicional permanece, só que com mais energia e uma produção que ressalta os timbres de guitarra, ainda que haja certa desigualdade em algumas músicas.

A banda foi corajosa ao deixar a produção na mão dos integrantes Marcelo Izzo (vocais) e Renato Haboryni (guitarra). Há uma certa sujeira bem-vinda, deixando as músicas mais orgânicas e com cara de “ao vivo” no estúdio.

Como é uma banda para ouvir (e ver) ao vivo, a opção foi acertada, assim como a decisão de fazer um álbum cheio em vez de um EP. As nove canções autorais reforçam a credibilidade do Silver Mammoth como um nome fortíssimo da cena atual.

Os destaques do CD são justamente as duas que abrem o trabalho. “For Whom the Bells Cry”, é reclaro, remete ao Metallica por causa do título da canção, mas ganha corpo e se sustenta em riffs pesados e solos bem construídos de guitarra.

“Like Blind Man” é outra canção forte, com refrão grudento e boas sacadas nos arranjos, assim como a faixa título, que mostra competência na composição e linhas melódicas interessantes.

Com um álbum tão bom na mão, a banda não precisava das versões de clássicos para preencher o tempo. Gastou munição para um eventual EP em tempos complicados como o que vivemos.

“Sympton of Universe”, do Black Sabbath, ficou muito colada na versão original e deixou um pouco a desejar em relação ao impacto e peso, mas isso foi amplamente corrigido em White Line Fever”, do Motorhead, uma versão com densidade e peso, e na interpretação malandra e com muito groove de “Jailbreak”, do AC/DC.

“Barren…”, do Warshipper, é candidato a um dos melhores discos do ano. Arriscando bastante ao fazer metal extremo com amplas e generosas doses de música progressiva e conceitual, acertou bastante principalmente ao privilegiar linhas melódicas intrincadas e arranjos bem bacanas.

Em temos conceituais, vai na linha do Sepultura dos últimos anos, em que a busca por novas ideias e novas sonoridades assumem um protagonismo poucas vezes visto.

“Respect!”, canção engajada e violenta, conta com a participação fundamental de Fernanda Lira (Crypta, ex-Nervosa) nos vocais e aparentemente dá o tom do que podemos esperar. É um dueto forte e intenso com Renan Roveran, deixando claras as intenções do Warshipper.

A música compõe a trinca devastador de abertura com “Barren Black” e “Axiom”. As guitarras são um show à parte, principalmente na segunda, onde ora duelam, ora fazem dueto de instrumentos gêmeos ao melhor estilo Judas Priest, mas com velocidade dobrada e um peso extraordinário.

“Anagrams of Sorrow” bem que poderia se tornar um exemplo de metal moderno bem feito, com muitas variações e arranjos interessantes para uma quase balada, lembrando as melhores passagens de Pantera, Trivium e Avenged Sevenfold. 

“Compulsive Trip” inclui influências de rock pesado mais clássico, mas old school, o que torna tudo mais interessante, pois uma das guitarras mantém um peso contagiante, enquanto os amantes do rock progressivo podem se esbaldar em “Knowing Just as I (Detachment)”, que certamente tem tudo para se tornar um hino do metal nacional.

O grupo HellgardeN optou por outro caminho e também conseguiu bons resultados. Misturando groove metal com pitadas de nu metal, une o melhor dos dois mundos sempre deixando bem evidente que a principal influência são Lamb of God e Pantera no álbum “Making Noise, Living Fast”.

Originalidade não é a principal característica. Entretanto, a produção e o som moderno e intenso impressionam. É tudo tão bem feito e encaixado que custamos a acreditar que as músicas dessa banda de Botucatu (SP) possam ser executadas ao vivo.

A produção foi de Lisciel Franco, nome bastante conhecido no rock pesado nacional, que contou com a colaboração de Roberto Carvalho (engenharia de gravação) e a masterização pelo americano Alan Douches (Motörhead, Sepultura e etc).  

Curto, o primeiro álbum da banda dá o recado em uma sequência de tirar o fôlego. “Spit on Hipocrisy” é rápida e pesada, enquanto que “Evolution or Destruction” abusa das paradas e das firulas instrumentais – e ficou bem interessante.
 Já “Brainwash” e a faixa-título mostram coesão e linhas melódicas mais complexas enquanto as guitarras martelam o cérebro, algo que podemos observar também em “Possessed By Noise”.
Com o Capadocia, banda paulista, em estado de hibernação, cabe a o HellgardeN fazer concorrência no segmento à banda mineira Drowned, que tem um trabalho elogiável com o metal extremo e o groove metal.