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 Marcelo Moreira

Como seria se você encontrasse aquele cara que estraçalhou na guitarra no palco, ou a TV, na padaria do bairro? Aconteceu várias vezes om muita gente aqui no Brasil, nos anos 80, e nenhum encontro seria tão descontraído como aquele em que estivesse envolvido um certo cabeludo da banda A Chave do Sol.

Seria altamente improvável encontrar no balcão da padaria alguém como Robertinho de Recife, ou Luiz Carlini (Tutti Frutti). Talvez,na Pompéia, em São Paulo, déssemos sorte de cruzar na rua com os irm~çaos Celso e Oswaldo Vecchine. Na padaria? Com certeza seria Rubens Gioia.

Um dos ases do instrumento do rock nacional, Rubão passou pel’A Chave e também pela Patrulha do Espaço, fora uma série incontável de colaborações com o mundo roqueiro brasileiro. Habilidoso e talentoso, gentil e humilde, preferia a música aos holofotes, o que lhe granjeou a admiração de muita, mas muita gente dentro do rock.

Muita gente amaldiçoou a covid-19, mas desta vez ela não foi a culpada. Rubão morreu aos 57 anos depois de uma internação d mais de dois meses em razão de problemas sérios no intestino. Passou por cirurgias, e foi após uma delas que não resistiu a uma série de complicações. 

Rubão, que tinha programa de rádio na MKK, web rádio, fez tantos amigos que foram incontáveis as homenagens que recebeu nas redes sociais. A mais tocante foi publicada no Facebook pelo guitarrista Felipe Machado, do Viper, que também é jornalista:

Rubens Gioia (FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK)

Quando você tem 13 anos, os ídolos não são pessoas: são deuses.

Não é uma questão de idade, nem de nacionalidade. Está mais para uma identificação inexplicável, algo que a gente sente por algumas pessoas e, por outras, não. É uma questão que ultrapassa a razão e que se esconde onde se escondem todas as coisas que não compreendemos. 

O guitarrista Rubens Gióia foi meu primeiro ídolo de carne e osso. Já gostava dos Beatles, do Led Zeppelin, do Kiss. Mas esses eram artistas que só existiam no encarte dos discos, na tela da TV e nos recortes de revistas e jornais. Rubens também surgiu para mim pela primeira vez na TV, mais precisamente no programa Fábrica do Som, na Cultura, um oásis televisivo apresentado pelo Tadeu Jungle. 

Quando Rubens, o baixista Tigueis e o baterista Zé Luiz apareceram no programa cantando “Luz”, alguma coisa aconteceu na minha cabeça. Eles não eram como Beatles e Led Zeppelin. Eles falavam português e estavam em um programa da TV brasileira. 

Parece pouca coisa, mas as poucas coisas têm outra dimensão quando você é adolescente. Elas passam a ser verdades absolutas, realidades incontestáveis, ainda mais para um garoto que tinha acabado de ganhar sua primeira guitarra de aniversário da mãe. 

Eu teria virado guitarrista se não tivesse visto o Rubens na TV? Provavelmente, sim. Mas certamente eu não teria me tornado quem eu me tornei. Ele tocava com os dentes. Com a guitarra nas costas. Soprava a franja com o canto da boca, e ela caí em cima dos olhos. 

Fazia solos matadores com pedal wah-wah. Tinha uma Stratocaster degradê, Sunburst, toda gasta e com adesivo de uma águia. Eu assistia aquilo em 1984 e pensava: “como é possível ter alguém assim no Brasil?”.

Eu e meu irmão, que escreveu um texto lindo sobre ele no site Wikimetal, gravamos o programa no VHS e assistíamos aquilo dezenas de vezes. Não é modo de dizer: era play, rewind, play, rewind, play. Um dia, passeando pela Woodstock, no centro de São Paulo, alguém me entregou um folheto: “Show da Chave do Sol no Lira Paulistana”. É isso! 

Comprei o compacto deles na Baratos Afins. Tinha a minha música favorita, “Luz”, no lado A; no lado B, a instrumental “18 Horas”. A capa era horrível, mas não importava. Ouvi tanto que quase furou. Pedi a meu pai e ele nos levou, eu e o Nando, ao show. 

Eu já tinha visto um show do Peter Frampton uns anos antes, mas aquilo era diferente. No ginásio do Corinthians eu era apenas um dos dez mil fãs anônimos cantando “Breaking All the Rules”. No Lira, eu estava ali pertinho do Rubens, dava para ver a mão dele tocando, a palheta subindo e descendo pelas cordas, para lá e para cá, como um Hendrix paulistano, um cara grande demais para aquele palco tão pequeno. 

E ali eu vi também que ele era de carne e osso, ele suava, o cabelo que ele soprava com o canto da boca caía no rosto de forma errada, às vezes. Ele não era um deus, era apenas um cara legal. Isso foi uma espécie de epifania: eu também sou um cara, eu posso ser assim. Se eu me esforçar muito, me dedicar mais, eu posso um dia tentar tocar como ele. No ano seguinte, o VIPER faria o seu primeiro show, no mesmo palco, o Lira Paulistana. 

Bem mais tarde eu virei amigo do Rubens. “Amigo” é uma palavra estranha nesse caso, porque no fundo, eu sempre o via como ídolo. Por mais que eu dissesse isso a ele, Rubens nunca imaginaria como foi importante para mim. 

Fiquei amigo da Rosana, sua irmã. Nunca conheci o filho, Rubinho, hoje com 21 anos. Espero conhecê-lo para dizer como o pai dele foi um cara foda. Conheci a mãe e o pai do Rubens, o deputado Gióia Jr. Pessoas maravilhosas, todos eles. Mas o Rubens, ah, porra, ele era o “Rubens da Chave”… 

Em 2017 eu o convidei para participar do VIPER Day, um evento que a gente faz todo ano no dia 8 de abril. Tive o prazer de tocar “Luz” e “Um Minuto Além”, duas músicas que estão entre minhas favoritas até hoje. Foi um orgulho, finalmente, dividir o palco com Rubens.

Hoje à tarde meu irmão me mandou uma mensagem: “Felipe, parece que o Rubens Gioia morreu”. Fiquei sem ar, me deu um frio na espinha. Mandei mensagem para a Rosana, ela confirmou. Rubens tinha 57 anos e teve um problema após uma cirurgia, já estava há dois meses no hospital. 

Nessas horas eu nem consegui ouvir os detalhes, ficou tudo nublado. Veio na memória a Fábrica do Som, o show do Lira Paulistana, o Viper Day. Tudo isso vai continuar comigo, claro. Mas é triste imaginar que não poderemos mais dividir o palco, nem poderei dizer pessoalmente ao Rubens, mais uma vez, como foi importante ter tido um ídolo como ele.