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 Marcelo Moreira

Os anos 80 pós-ditadura militar foram um período de redenção, onde a sensação de liberdade transpirava a cada gesto e acada minuto. Parecia que as pessoas tinham urgência em recuperar muita coisa que supostamente tinha sido perdida ou deixada de ser aproveitada.

O boom do rock nacional coincidiu também com uma febre de bandas covers, aquelas que fazem versões de clássicos do rock, em São Paulo e no Rio de Janeiro. 

Foram milhares delas que surgiram ou se agigantaram, tornando-se totalmente profissionais e abrindo um mercado importante para músicos, tanto que esse tipo de banda perdura até hoje.

Bons tempos em que o Rock Memory ostentava o título de melhor banda de bares de São Paulo, repassando todo o repertório clássico dos anos 60 e 70. E o que dizer do Beatles For Ever, que fazia seu show de quase duas horas com trocas de figurinos de todas as fases da banda inglesa?

A profissionalização desse tipo de banda, que faz sucesso em bares, casamentos e festas de formatura, criou toda uma infraestrutura que permitiu o surgimento de um segmento de negócios que faturou muito durante muito tempo e que a crise de 2016 vinha lentamente corroendo pelas beiradas, atpe que a pandemia de covid-19 devastasse tudo.

Uma das vítimas recentes, embora apenas parcialmente, foi a Zoombeatles, banda tributo que já foi reconhecida como uma das melhores das Américas e do mundo no que se refere a tocar Beatles.

Em comunicado nas redes sociais, um dos fundadores relembrou a trajetória de 22 anos do grupo paulistano, da profissionalização e das boas fases em que a banda era cultuada, com seguidores que adoravam se reunir no Café Piu Piu, no Bexiga, centro de São Paulo, para saborear “as duas bandas preferidas”.

O texto informa que a banda já pensava bastante a respeito do futuro, mas que a pandemia acabou por determinar novas medidas e antecipar o melancólico final de suas atividades.

Assim como diversos bares e casas de shows, bandas estão sucumbindo ao período de paralisação por conta da covid-19. Sem shows e sem alternativas para gerar renda, quase ninguém consegue resistir, por mais profissional que seja a estrutura.

A banda Zoombeatles não é apenas mais uma vítima do desamparo que atinge o setor de entretenimento e artes. E a face mais perversa de um modelo político-administrativo que demoniza tais setores e que menospreza a vida e a devastação do vírus.

O mundo do entretenimento tem de lamentar a pandemia, mas precisa cobrar a conta do governo federal negacionista e genocida que empurra a população para o abismo e para o desamparo total. 

Sabemos como o dinheiro emergencial da Lei Aldir Blanc está sendo represado e não está chegando às mãos de que deveria – e esse é apenas um aspecto de como funciona a administração fascista e corrupta que assola este país infeliz.

Só nos resta agradecer ao grupo Zoombeatles pelos momentos maravilhosos e importantes que proporcionou a muita gente ao longo de mais de duas décadas.