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 Marcelo Moreira

O fogo destrói, elimina e extingue, mas também proporciona um renascimento das cinzas, permitindo que o novo nasça e que haja regeneração.

Dogma ou mantra, a ideia acima era preconizada por muitos músicos de metal extremo da Escandinávia, 30 anos atrás, para justificar crimes de vandalismo, depredação e até assassinato. 

Era o surgimento do chamado Inner Circle, grupo de fanáticos amantes de black metal que tinham ideias tortas a respeito da história, da política e da sociedade, culminando com o incêndio criminoso de igrejas cristãs noa Noruega, uma mistura ingênua e enviesada de satanismo e paganismo.

Pelo menos dez igrejas e capelas cristãs foram queimadas naquele período como “protesto” pela influência cristã na cultura nórdica, com muitos integrantes do Inner Circle presos e condenados a muitos anos de prisão. 

Muitas das igrejas eram patrimônio da humanidade, construídas com diversos tipos de madeira e que tinham quase mil anos de existência.

Mais do que patrimônio histórico, eram a própria história, destruídas pela estupidez adolescente e burra de um bando de adolescentes ignorantes.

Esse “terror metaleiro”, digamos assim, me veio à cabeça com as notícias estranhas a respeito do incêndio criminoso de duas igrejas bem antigas em Santiago, capital do Chile, na última semana.

Os crimes aconteceram às vésperas de um plebiscito que vai decidir se o país quer ou não uma nova Constituição, ao mesmo tempo que será um teste político para o governo do conservador presidente Sebastián Piñera, que enfrenta protestos populares desde o ano passado.

As origens dos incêndios criminosos ainda são controversas. A imprensa chilena menciona extremistas de esquerda que teriam atacado símbolos do conservadorismo chileno – como em toda a América, a igreja católica teve papel crucial e nada bonito na colonização, na imposição de valores e na destruição de culturas nativas.

Mais do que isso, as duas igrejas destruídas seriam as preferidas do aparato de repressão do governo desde os tempos do ditador Augusto Pinochet, que era general. Eram nelas que altas autoridades e policiais mais temidos faziam suas orações e seus serviços religiosos. Por isso se tornaram alvo de ataques.

Capa do álbum ‘Aske’, da banda Burzum, da Noruega, retratando uma suposta igreja católica queimada no interior do país. A banda foi uma das mais importantes do começo do black metal escandinavo, no início dos anos 90 

Uma parte da imprensa chilena especula que os incêndios seriam obra de membros do aparato de repressão ou da extrema-direita, interessados em criar factoides e acuar falsamente a esquerda pelos supostos atentados.

Muita gente inteligente, à esquerda, está equivocadamente relativizando os crimes, como se fosse aceitável a prática de atentados contra monumentos dependendo do simbolismo que lhes é atribuído.

É um pensamento perigoso, que abre precedentes para que, por exemplo, sejam justificados atos de vandalismo ou destruição contra o estádio Nacional, de Santiago, templo do futebol e onde o Brasil sagrou-se bicampeão mundial de futebol, em 1962.

O estádio foi usado, em 1973, como prisão de oposicionistas e local de tortura quando da deposição do presidente Salvador Allende, democraticamente eleito anos antes.

Monumento esportivo importante das Américas, o estádio não pode ser culpado por ter sido utilizado de maneira vil por militares vagabundos e criminosos. 

Seria diferente se estivéssemos falando de instalações criadas e construídas especificamente para fins criminosos de prisão ilegal, tortura e assassinato de quaisquer tipos. 

Assim como as igrejas norueguesas, a depredação em Santiago perde o sentido como protesto e manifestação justamente por carecer de conteúdo para justificar os ato. É como queimar um bar qualquer apenas e tão somente por ser frequentado por policiais ou por torcedores de um time adversário.

Esse tipo de cancelamento pela destruição pura e simples, na suposição de ter sido apropriado por grupos ou por, arbitrariamente, ter se tornado um símbolo, involuntariamente, de qualquer coisa, abre precedentes preocupantes e perigosos de incentivo à violência e à intolerância, exatamente como aconteceu na Noruega 30 anos atrás, quando metaleiros imbecis mancharam a imagem do rock para sempre.

Não se trata de um debate simples e de respostas fáceis, mas certamente a intolerância triunfa em ambientes onde se perde a noção de quem é o verdadeiro inimigo e quais devem ser os verdadeiros alvos.

Tudo isso vale também para os lamentáveis e gravíssimos casos de intolerância religiosa contra adeptos de cultos africanos no Brasil, algo que vem sendo estimulado e protagonizado por seres inomináveis ligados ao que de pior existe entre as seitas evangélicas, com o incentivo velado do governo de inspiração fascista encastelado em Brasília.

A intolerância roqueira de 30 anos atrás, infelizmente, não serviu para muita coisa diante de nova onda de ódio político e social. E dentro desse arcabouço cabem as igrejas incendiadas, os ataques à religiões afro-brasileiras e o fundamentalismo islâmico que desrespeita leis e princípios básicos, como ocorreu recentemente na França.

O assassinato de um professor de ensino médio por um lixo humano que se intitulava um radical islâmico em Paris só reforça a ideia de que a intolerância está virando uma poderosa arma política neste século XXI.

O caso é tão grave que novamente fez ressurgir questionamentos a respeito do estado laico e, pior ainda, sobre os supostos “exageros” da sociedade secular – até que ponto Estado e sociedade devem aprofundar a separação entre política e religião? Será a defesa radical do laicismo na França não é responsável pela radicalização de certas parcelas da população, fomentando o ódio?

Essa discussão absurda e despropositada tem como pano de fundo uma situação mais complicada e mais importante, que é a liberdade de expressão, de opinião e de imprensa. Pilar indissociável da vida civilizada, tem sido constantemente vilipendiada e atacada no mundo todo, até mesmo nos Estados Unidos, a pátria do liberalismo

Destruir patrimônio histórico e depredar direitos e liberdades civis raramente resultam em resultados diferentes da radicalização política, aumento da violência e da intolerância – justamente  objetivo dos extremistas, de todos os lados. 

Se a questão que importa é a de identificar e atacar os “símbolos” do fascismo, da intolerância e do radicalismo, então que tenhamos a sabedoria de fazer a identificação correta e usar as armas necessárias para sua neutralização e extinção. O inimigo é insidioso e sabe aproveitar a mentira e as fake news muito melhor do que nós.