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Marcelo Moreira
“Fazia tempo que a música não falava tão alto. Fiquei com vergonha de não ter prestado tanto a a atenção nas canções como deveria. Se eu soubesse que o isolamento social era tão bom, teria feito antes.”
Carolina é uma moça trabalha demais e adora ver o seu esforço recompensado. Está trabalhando em casa, em um bairro de classe média da zona oeste de São Paulo, e está sofrendo com a pandemia, como todos nós. Mas agradece demais o tempo em que está enclausurada: redescobriu o poder da música.
Aos poucos estamos redescobrindo certos prazeres que a vida moderna e superconectada nos roubou. Que tal recuperar aquele CD que tantas vezes você ouviu e tantas vezes reavivou excelentes memórias?
Que tal reler aquele clássico ou o mais novo romance de um escritor em ascensão? Ou quem sabe redescobrir o prazer e a necessidade de ler um bom jornal?
A Carolina, que mora com uma amiga que não teve o prazer de fazer o “home office”, redescobriu tudo isso e muito mais. “Que saudade de uma banca de jornal. Que bom que a da esquina da minha casa ainda está lá. Que bom que é andar pelo quarteirão e redescobrir as pequenas coisas”, diz a moça, que é analista de pesquisas de mercado.
Muita gente anda agradecendo a pandemia pela possibilidade de redescobrir pequenas coisas. Ouvir música e saborear o que está ouvindo é uma delas – seja no CD, no LP ou no streaming. 
Tem gente saudando a pandemia porque esta proporcionou a oportunidade de ouvir podcasts e descobrir sons novos, artistas novos, vidas novas. Quando isso seria possível trabalhando nove horas por dia fora e encarando de uma a duas horas no transporte pra casa ou para o trabalho?

A parada forçada, queiramos ou não, reforçou muitos de nossos laços com o passado, e isso é extremamente positivo. Ouvir aquele álbum ao vivo maravilhoso do Humble Pie, aquela obra prima de Miles Davis ou John Coltrane ou redescobrir como Jair Rodrigues e Elis Regina cantavam muito…
Redescobrir esse mundo perdido dos CDs e dos LPs é uma porta para o passado, mas também uma ponte para o futuro. E esse futuro chega rápido: dados de 2016 da Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes) mostram que o crescimento do streaming no Brasil foi de 52,4%; em 2018, encostou nos 60%.   
Talvez seja incompreensível dizer que são mídias complementares quando as pessoas torcem o nariz ao escutar as palavras “CDs” ou “DVDs” ou “LPs”. 
O fato é que, ainda hoje, a maioria dos ouvintes que ouvem e curtem artistas mais antigos tomaram conhecimento do que escutam por meio de produtos físicos de armazenamento de música. E redescobrir essa música é prazeroso porque valoriza a cultura. É cultura em estado puro.
Novos hábitos, novos valores

Ok, partindo do princípio de que o valor agregado da música como produto despencou, como medimos o quanto o artista de hoje se beneficiar dessa redescoberta?

Ora, o simples “despertar” para a música em 2020, em qualquer formato, já é um grande fato a ser comemorado. AS pessoas passaram, em geral, a prestar mais a atenção nas canções em temos de confinamento. A música está mais presente em caa atualmente, e isso é um fato.
Para o artista, então, o streaming é a maneira quase única na qual o artista tem de divulgar seu trabalho sem que esse produto, especificamente, gere algum rendimento. 
É inegável que a música perdeu valor agregado e sentimental. As pessoas, como um todo, acham que a música ficou gratuita, ou seja, ficou descartável e muito acessível. 
E é claro que isso impacta o comportamento do consumidor: obriga o músico a trabalhar mais em shows, ao vivo ou em lives; desvaloriza o processo de composição; desestimula o compositor a compor, já que sabe que sua música valerá muito pouco; transforma os antigos CDs em meros cartões de visitas para promover o próprio trabalho. 
Como alternativa de trabalho remunerado, ser músico hoje representa uma situação muito adversa, que o obriga a abrir mão do valor agregado do produto de sua produção intelectual em prol de um eventual possibilidade de divulgação virtual. 
É um novo mundo, uma nova forma de trabalho, mas não necessariamente boa, ao menos neste momento. Os artistas que conseguiram se habituar a esse novo mundo adquiriram uma bagagem interessante e que pode apontar caminhos novos, ainda que perigosos. 
Os artistas da década que começa em 2020 vão ter de inovar cada vez mais para conseguir destaque. A qualidade do trabalho precisará cada vez mais competir com as formas mais criativas para divulgar a música, o que embute a perda de importância do trabalho artístico em si, infelizmente. É um novo mundo, e os desafios são cada vez maiores a partir de já.

Novos formatos, velhos discursos

Como era esperado, as lives sofreram um esgotamento natural por conta da saturação do modelo. Serviram em um primeiro momento para manter, de certa forma, a atividade artística, mas elas tinham limitações óbvias, como a interatividade restrita. 

Os patrocínios de grandes empresas não passaram de meros artifícios de marketing, já que são poucos os artistas que ainda mantêm algum tipo de relacionamento comercial nestes moldes, notadamente do meio sertanejo e alguns grandes nomes da MPB e do axé. É uma alternativa limitada, que não resistiu ao prolongamento da pandemia. 
O formato live era novidade no começo., Depois que banalizou, começou a sofrer concorrência com os demais formatos de entretenimento de reclusão, como a programação da TV aberta, ofertas diversa da TV por assinatura e as promoções de empresas tipo Netflix e Globoplay. 
Como o formato live é restrito e oferece opções limitadas, a saturação do modelo era esperada. A partir de agora, ou as lives oferecem algo mais do que “apresentações despojadas”, ou perderão relevância.

No primeiro semestre de 2020, as vendas de LPs ultrapassaram as de CDs, algo que não acontecia nos Estados Unidos desde 1986, constatou a norte-americana RIAA (Recording Industry Association). O que esperar deste mercado na atualidade, me perguntou outro dia uma amiga.

Por mais que registremos uma alta no interesse e nas vendas de LPs e, um pouco, nos CDs, é remota a a possibilidade de um “boom” dessas mídias, em especial o vinil. O valor alto de mercado destes produtos limita esse mercado.
O LP versão século XXI é um produto muito caro na comparação com outras modalidades, embora não seja um nicho a ser desprezado. Em um momento onde a esmagadora maioria do público se recusa a pagar por cultura e por informação jornalística de qualidade, as vendas de LPs equivalem às de livros de arte, aqueles em formatos maiores e com fotos deslumbrantes, para públicos específicos e altamente segmentados. 
Em termos globais, as vendas em LPs adquiriram uma certa relevância, mas ainda não no Brasil, onde os aparelhos de reprodução para o formato têm preços proibitivos. 
Por enquanto, no Brasil, o vinil é excentricidade, com um público fiel, mas ainda pequeno, que não justifica uma produção direcionada, ao contrário do que vemos na Inglaterra, no Japão e nos Estados Unidos, ainda que existam indicativos que apontem um crescimento no interesse do formato.

 
O valor da música

Na realidade, o ideal hoje é falar em vários mercados e em várias forma de consumo de música. Hoje, em vários modelos, trabalha-se com a ideia de música como conceito, e não como produto. O que isso significa? 

Que a maneira de consumir música é mais orgânica e menos linear, e não comporta mais a ideia de armazenar o produto para acessá-lo, o que diminui o vínculo afetivo com a própria música. 
Como conceito, ou ideia, a música assume um formato diferente, e assume um lugar diferente na vida das pessoas. é o extremo do que a música eletrônica representou nos anos 1980 e 1990 para a juventude da época nas chamadas danceterias. 
As pessoas dançavam cinco horas seguidas e não se preocupavam em saber quem estava tocando o cantando. Era uma época em, que uma parte da arte se apresentava de forma reducionista e minimalista, o mais próximo que a arte chegou de um conceito “socialista” em que o resultado era muito mais importante do que a autoria. 
Era uma espécie de “música para as massas”, em que a indústria abastecia o mercado de sons e a sociedade absorvia como um todo, sem que a “propriedade” importasse, ou a “posse” do direito autoral.
Tudo isso era uma contradição, já que as gravadoras e o próprio mercado lucravam muito, em detrimento do próprio artista, que virou anônimo nesse mundo eletrônico – depois os DJs mais proeminentes trataram de subverter esse modelo. 
O mercado nacional se adapta com extrema facilidade, até por necessidade, mas continua valendo a máxima de que a indústria e o sistema prevalece, enquanto artista fica nas ilusão de que está no comando. 
No caso do rock, há vida inteligente e que consegue navegar bem no mundo independente, com bandas autossuficientes como Autoramas, Boogarins, The Baggios, O Terno e Pitty.

Tudo isso faz parte de uma redescoberta prazerosa de ouvir música com novos ouvidos, seja qual for o gênero. As coisas mudaram demais e ainda vão mudar drasticamente, mas voltar a ter tempo para prestar atenção à música, como um dia já fizemos, é algo impagável e traz certa paz de espírito.
É extremamente desrespeitoso falar em aspectos positivos da pandemia ou das mudanças forçadas de 2020. Vamos apenas aceitar que tivemos de mudar ou de nos adaptar às mudanças, sendo que redescobrir o prazer de ouvir música como antes é um de seus efeitos colaterais. 
Enquanto olhava para o sol se pondo, agora há pouco, estava ouvindo um CD de Junior Wells e Buddy Guy, enquanto procurava um LP dos Black Crowes e engatilhava o último trabalho de Nuno Mindelis, “Angola Blues”, no celular. 
Mais tempo para ouvir? Não sei, mas ficou um pouco simples – e necessário – ouvir música em tempos de confinamento.