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 Axe of God* e Marcelo Moreira

O relato que fiz há algum tempo a respeito do “cancelamento” de artistas negros no rock por uma gama de fãs brasileiros e até estrangeiros chamou a atenção para vários casos corriqueiros que ainda ocorrem.

O texto repercutiu, e um dos leitores, que é negro e um dos comandantes deste Combate Rock temporariamente hospedado no Superball Express, nos alertou a respeito de Derrick Green, o vocalista do Sepultura.

Mauricio Gaia jogou luz sobre uma lamentável omissão de minha parte ao “vomitar” minha indignação com uma série de “cases” que insistem em tentar mostrar que o rock não é um ambiente agregador para artistas negros.

Se, de forma surpreendente, o Body Count, banda de metal liderada pelo ator e rapper Ice-T, tem grande aceitação entre o público branco no Brasil e nos Estados Unidos – graças, em grande parte, ao endosso de grandes nomes do rock pesado que adoram banda de músicos negros -, Green ainda continua penando em alguns ambientes para mostrar o seu valor.

Integrante oficial do Sepultura há 22 anos, Derrick Green, ex-cantor underground nos Estados Unidos e ex-segurança de casas noturnas, enfrentou esperadas resistências por substituir o que era considerado o líder da banda brasileira, o vocalista e guitarrista Max Cavalera. Sofreu o mesmo tipo de rejeição que Blaze Bayley teve no Iron Maiden e Tim “Ripper” Owens no Judas Priest.

As críticas sempre foram diretas – cantava mal, não tinha postura de palco, a voz era muito diferente e inadequada, não morava no Brasil, nunca aprendeu o português direito, torce para o Palmeiras porque puxava o saco do amigo Iggor Cavalera, ex-baterista da banda…

No fim do rosário, vinha, de forma velada, a restrição de ser negro cantando heavy metal, um feudo considerado branco até a medula até na Europa.

Saem os descendentes de italianos Cavalera, brancos e quatrocentões paulistanos (apesar de os irmãos terem nascido em Belo Horizonte, em Minas Gerais) e entra um “gigante de ébano” de dois metros de altura que “mais grita do que canta”, que não toca instrumentos e que (supostamente) não compõe.

Felizmente, fui poupado diretamente dos comentários racistas explícitos a respeito da chegada de Derrick ao Sepultura. Tentei puxar pela memória, mas lembro apenas de amigos comentarem, horrorizados, que escutaram e leram declarações de “amigos” criticando a escolha de um “negro” para ser a voz da maior banda brasileira.

“De quem banda nojenta de rap resgataram esse cara?”, me disse nesta semana um bom amigo, que ouviu isso daquele que o ensinou tudo sobre rock, o seu mentor, um dos irmãos mais velhos.

Derrick Green (extrema esquerda) com o Sepultura (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Nos grupos que frequento nas redes sociais tentei vasculhar alguma referência racista a Derrice k Green, mas não encontrei. Já houve tempo suficiente para uma acomodação e o público nacional já se acostumou com o “negrão” deu nova vida ao Sepultura.

Mas foi só perguntar a alguns amigos mais velhos e conhecedores da banda para que histórias de racismo contra o cantor do Sepultura ressurgissem.

Dou o devido desconto por conta do tempo e de eventuais falhas de memória, mas dos seis caras com quem falei nestes dias, todos se lembram de ter lido ou presenciado, ao menos uma vez, referências racistas a Derrick Green nos primeiros anos de sua trajetória no Sepultura.

Muitas vezes, os comentários eram feitos em tom de indignação mesmo sem que os autores tivessem ouvido o cara cantar. Ser negro incomodava, e as referências estéticas risíveis – “não combina com a banda, negro não tem nada a ver com heavy metal”, ouviram esses amigos nos primórdios da internet e nos primeiros shows com a nova formação.

O vocalista do Sepultura é um cara muito inteligente, gentil e boa gente. Tem uma casca duríssima por ter sofrido na pele o racismo nojento norte-americano e ter um jogo de cintura admirável por suportar o conservadorismo e os preconceitos inerentes a um gênero musical que se fossilizou com o tempo. E sabia exatamente o que iria encontrar quando aceitou cantar mo Sepultura.

 Não deve ter sido agradável ter que lidar com um racismo originado de um ressentimento esdrúxulo de fãs inconformados, mas sua firmeza de caráter e sua resistência foram recompensadas pelos 22 anos de carreira ao lado dos brasileiros.

Curiosamente, abordando um outro espectro do rock nacional, nunca ouvi nada racista contra Clemente Nascimento, dos Inocentes e da Plebe Rude.

Nome fundamental do punk brasileiro, até onde ouvi e sei, sempre foi respeitadíssimo no rock, apesar de sua origem punk e na periferia, ambientes onde onde os negros roqueiros circulavam sem grandes problemas e podiam desfrutar, de certa forma, de uma maior fraternidade e solidariedade.

* Axe of God é um pseudônimo esdrúxulo escolhido pelo executivo de uma empresa de tecnologia da informação que trabalha em São Paulo. Pediu para não ser identificado por temer represálias nos grupos físicos de que participa e também nas redes sociais. Apesar de repudiar o que lê e o tipo de conversa que rola nestes ambientes, pretende continuar participando até para que possa estudar o comportamento dessa gente e constatar, de forma triste e abjeta, como o rock no Brasil está se tornando cada vez mais preconceituoso, cheio de ódio e racista. De forma relutante, concordou em dar esse depoimento ao Combate Rock/Superball Express por considerar importante explicitar os rumos que nossos ambientes estão tomando.