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 Marcelo Moreira



O King Crimson decidiu desde o começo que faria música para a cabeça, e não para os pés. O trio Emerson, Lake & Palmer tinha um pensamento parecido, só que mais ousado e exuberante: queria que sua música fosse esplendorosa, apreciada e admirada como se fosse um concerto de verdade; uma música que fosse absorvida em sua totalidade e degustada em toda as suas possibilidades.

E então veio a maluquice: se o King Crimson eram experimental ao misturar jazz à música de Bartok, John Cage e Koelreutter, o trio iria além: transporia para o palco do rock, mas cheio de teclados e sintetizadores, uma peça erudita difícil. A escolhida foi “Pìctures at an Exhibition”, do russo Modest Mussorgsky, nome gigante do século XIX.

Jovens, ousados e arrogantes, Keith Emerson (teclados, 1944-2016), Greg Lake (baixo, guitarra acústica e vocais,1947-2016) e Carl Palmer (bateria) queriam ir além: o segundo disco de sua iniciante carreira seria gravado ao vivo, em Newcastle, com material inédito. 

Uma banda de rock sem guitarra e gravando uma peça erudita, e ainda ao vivo? Sem ter nenhum sucesso nas paradas e sem lançar prévia do material? Para a gravadora, seria um fracasso na certa.

“Pictures at an Exhibition” foi lançado em 1971 e até hoje impressiona pela exuberância e pela perfeita execução. Vendeu pouco, como se esperava, mas mostrou que era possível aliar a pegada de rock com a excelência de uma peça erudita de cunho esplendoroso, como a de Mussorgsky.

O trio enveredaria novamente pela seara erudita, mas o segundo álbum foi o toque definitivo de que o clássico poderia atrair um público roqueiro um pouco mais sofisticado, exigente e disposto a experimentar coisas novas.

Os detratores e críticos odiaram. Abordaram desde a suposta pouca bagagem musicam para executar uma peça difícil, ressaltando o suposto pouco estofo cultural para tanto dos três músicos, até particularidades técnicas quase impossíveis de serem detectadas. As letras de Lake para a adaptação foram destroçadas.

O trio em 1971: da esq. para a dir., Keith Emerson, Greg Lake e Carl Palmer (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Arrogância, presunção, pedantismo… O disco tem tudo isso e mais uma segurança musical impressionante para jovens instrumentistas de pouco mais de 20 anos de idade – Palmer tinha 21.

A execução soberba dos teclados de Emerson faz com que a reverência ao que estava sendo tocado desse o tom do evento. Como se estivessem em uma catedral, transformaram um show de rock em uma concerto grandioso, com uma celebração ecumênica de grandes proporções. A Prefeitura de Newcastle virou o Vaticano, com a grandeza de som obtida e captada de forma magistral.

“Pictures at an Exhibition” é uma peça única, linear e orgânica. Foi absorvida de forma excepcional pelo trio, que soube interpretá-la de maneira correta, serena e em todos os seus detalhes. Mesmo as criticadas letras de Greg Lake casaram bem com a dramaticidade que a música do compositor russo exigia.

Infelizmente, foi praticamente a primeira incursão roqueira de monta no universo da música erudita e a melhor iniciativa do gênero. Nenhuma outra banda ou artista conseguiu sucesso, seja na execução, seja no mercado, como o Emerson, Lake & Palmer. Rick Wakeman, em sua carreira solo, bem que tentou, mas a sua erudição nunca superou a suia veia pop.

“Pictures at an Exhibition” é uma obra que precisa ser apreciada como se fosse uma missa ou um réquiem, com toda a pompa e cerimônia. É um dos marcos da história do rock.