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 Marcelo Moreira



Uma data que não existiu, a não ser nas reminiscências de saudosistas nas redes sociais. Um feriado morto, com restrição mais do que necessária nas atividades econômicas por causa da pandemia e sem atrações culturais.

Não era esse o 25 de janeiro que São Paulo merecia, uma data sempre festiva e que comemoraria os 467 anos da megalópole, mas o vírus não deixou. 

A única trilha sonora foi a da choradeira de empresários do ramo de gastronomia, irresponsáveis ao extremo ao protestar contra as medidas restritivas em um momento gravíssimo de subida de todos os índices sanitários – mais mortes, mais infecções, menos leitos de hospitais… 

Enquanto os mercadores da morte pensam apenas nos próprios bolsos – e estão saindo no lucro, pois o governador irresponsável de São Paulo tinha de ter decretado o lockdown dos mais duros -, ficamos na saudade dos shows gratuitos na rua em datas como essa.

Em breve a pandemia completará um ano no Brasil. De forma muito tímida, mas muito irresponsável, alguns shows estão voltando, para horror dos cientistas e médicos infectologistas.

Não são poucos os artistas que reclamam cada vez mais alto da “falta de trabalho”, opor mais que reconheçam que a pandemia está piorando de novo. No entanto, de forma contraditória, pedem flexibilização para que possam trabalhar – e ajudar na disseminação da doença.

As bravatas e lixos vomitados por gente como Eric Clapton, que não se diz negacionista, mas é um crítico estúpido das medidas de restrição e de isolamento social, estão reverberando em várias partes do mundo e aqui no Brasil começam a crescer os ataques às regras de combate à covid-19.

Sim, a pandemia vai fornecer munição aos fascistas que dizem que o mundo não precisa de arte e de música neste momento. E não precisa mesmo quando mil brasileiros morrem por dia sem que o nefasto governo bolsonada mova algo para debelar a crise sanitária.

Shows? Cinema, Teatro? Boteco? Isso tudo fica para depois, ainda que a crise econômica causada pelo vírus devaste o setor gastronômico. Infelizmente não há o que fazer quanto a essa tragédia natural, a não ser fazer fila no Palácio do Planalto para pedir ajuda emergencial que não saiu para a imensa maioria dos artistas e trabalhadores do setor. Faça arminha agora com as mãos e vote de novo em crápulas como nefasto presidente.

É claro que sempre precisaremos de cultura e de música, mas não agora, e nem sabemos quando. Mas não será tão cedo, e que assim seja, se for necessário para controlar a doença e diminuir as mortes. Será um preço alto a pagar, mas terá de ser pago.

A São Paulo silenciosa e melancólica é a amostra do que teremos ainda de suportar. Resignação é necessária para que encaremos a luta de frente e de forma resoluta. 

A música voltará em todo o seu esplendor, e que o setor cultural e de entretenimento seja a locomotiva que vai puxar a economia mundial de volta para os trilhos, como preveem alguns economistas mais ousados.

O silêncio deste 25 de janeiro incomodou demais m 2021, assim como o carnaval interrompido e abolido para que tenhamos forças e muita lucidez para comemorar muitos outros carnavais e saborear muitos e muitos shows de rock nacional e estrangeiros. Mas quando?

Isso é o que menos importa. Os números obscenos de mortes diárias por covid-19 explicitam que vivemos uma das tragédias mais devastadoras da humanidade. São quase 220 mil mortos no Brasil. Só isso já justifica que abandonemos qualquer sonho de shows e espetáculos presenciais no médio prazo.

O silêncio paulistano nos lembra que as prioridades são outras. É um silêncio eloquente, ensurdecedor, que machuca, mas que nos ensina e nos aponta o caminho.