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Imagem: Mariano Sayno-Getty Images

Era um dia gelado, mais um naquele inverno tenso e nublado. Mais uma vez, como em vários domingos como aquele e em outros do ano anterior, a comunidade iria se reunir e fazer uma passeata pacífica em prol da paz e do entendimento entre os diferentes. 

Era para ser um domingo qualquer, mas a policia irlandesa e o exército britânico não queriam que fosse um domingo como tantos outros.
Foi no dia 30 de janeiro de 1972 que a Irlanda do Norte presenciou o seu domingo sangrento que tanto inspirou músicos e artistas pelo mundo todo. 

A passeata pacífica na cidade de Derry (também conhecida como Londonderry), na fronteira entre Irlanda do Norte e República da Irlanda, com a participação de várias crianças), terminou com  massacre de 13 manifestantes desarmados no local (um outro morreu mais tarde) e 14 feridos, enquanto que nenhum “agende de segurança” ficou ferido.

O assassinato das 12 pessoas ensejou farsas asquerosas da polícia norte-irlandesa e do exército inglês, que mencionam um “tiroteio” com “supostos” terroristas do IRA (sigla inglesa para Exército Republicano Irlandês) infiltrados querendo tumultuar. 

Na época, o exército britânico alegou que os paraquedistas responderam aos tiros dos “terroristas” do IRA (Exército Republicano Irlandês).

Apesar de todos os depoimentos que contradiziam esta versão, apenas em 2010 foi reconhecida oficialmente a inocência das vítimas: algumas foram baleadas nas costas ou quando estavam deitadas no chão, quando acenavam com um lenço branco.

Nunca houve terroristas infiltrados nem manifestantes armados. O massacre foi mais um recado para a população católica do Ulster (os seis condados que formam a Irlanda do Norte, integrante do Reino Unido e majoritariamente protestante) de que nenhuma “manifestação de sublevação, protesto ou subversão seria tolerada”.

Para quem acha que arte não deve se misturar com política, então os irlandeses do U2 merecem ser repreendidos por causa do hino “Sunday Bloody Sunday”, do disco “War”, de 1983, que narra os fatos ocorridos em 30 de janeiro de 1972.

Os 50 anos do massacre são ensurdecedores até hoje para as autoridades britânicas, que mantêm um silêncio criminoso sobre os fatos até hoje não esclarecidos. Ninguém foi punido severamente. 

Não foi o pior entrevero da chamada crise irlandesa do final do século XX. Outros confrontos deixaram mais mortos, assim como vários atentados cometidos pelo IRA e pelos unionistas (grupos terroristas protestantes que lutavam contra o IRA). 

No entanto, a forma bárbara e criminosa como os inocentes pacíficos foram assassinados transformou o Domingo Sangrento no símbolo da luta contra a brutal dominação inglesa sobre o norte da ilha vizinha. Ajudou a pulverizar a imagem internacional dos ocupantes e a desmascarar qualquer tentativa de criminalizar os católicos da Irlanda do Norte. De quebra, de uma hora para outra “legitimou” guerra de guerrilha e terror empreendida pelo IRA.

Um acordo de paz e desarmamento das milícias só ocorreu em 1998 e desde então a tensão diminuiu, especialmente com oficialização de um parlamento norte-irlandês, com certa autonomia, com  representação de políticos católicos.

“Domingo Sangrento” (“Bloody Sunday”), de 2002, é o melhor filme sobre o assunto já feito. É uma espécie de documentário ficcional dirigido pelo ótimo Paul Greengrass e reproduz com exatidão os assassinatos ocorridos em Derry.

Barril de pólvora

A Irlanda nunca conseguiu se livrar de uma ligação umbilical com as vizinhas Inglaterra e País de Gales. Desde a Alta Idade Média a proximidade ensejou comércio intenso, fluxos migratórios constantes e muitas guerras de dominação e conquista.

Entretanto, as relações conflituosas se acentuaram por volta século VIII por conta de dois fatores: a expansão da religião católica e o domínio dos dinamarqueses na costa leste da ilha irlandesa. 

Os britânicos galeses e ingleses sempre consideraram que os irlandeses foram complacentes demais com os invasores escandinavos, que atacavam a Inglaterra o tempo todo. Já o catolicismo era visto como uma “ideologia” autoritária e estranha pela parcela da população inglesa de origem saxã.

Depois do domínio normando da Inglaterra, a partir de 1066, a nobreza inglesa fez diversas investidas para “colonizar” Gales e a Irlanda. Somente no século XIII o maior poderio militar dobrou a população irlandesa, inaugurando uma dominação de 700 anos. A colonização foi brutal, a ponto de apenas 730 famílias inglesas e escocesas serem proprietárias de toda a ilha irlandesa. 

O domínio foi brutal, e foram vários os episódios de emigração em massa de irlandeses, principalmente para os Estados Unidos e Austrália. A maior leva de emigrantes deixou a ilha entre 1849 e 1860, naquela que ficou conhecida como a Segunda Grande Fome. 

Estima-se que pelo menos metade da população( algo entre 3 milhões e 4 milhões de pessoas) migrou par os Estados Unidos e também para a França. Alguns historiadores relatam que a miséria da época causou a morte de quase 1 milhão de pessoas.

Quando o século XX chegou, a população irlandesa católica começou a questionar o domínio inglês e a exigir mais autonomia. Vários partidos políticos ilegais surgiram nas duas maiores cidades, Dublin e Belfast, e a repressão aso católicos separatistas começou em 1910.

Em plena I Guerra Mundial, na Páscoa de 1916, um embrião do IRA aproveitou o conflito mundial para iniciar uma revolta que pretendia a expulsão dos ingleses. O fracasso do levante rendeu milhares de prisões, mas finalmente chamou a atenção do mundo e da população irlandesa a respeito da brutalidade da ocupação.

Guerra civil

Terrorismo e rebeliões estouraram por todo o país nos três anos seguintes até que a guerra civil se alastrou em 1919. Os seis condados do norte, majoritariamente protestantes e partidários da Grã-Bretanha, sempre se alinharam contra os católicos, estabelecendo uma divisão inconciliável desde então.

Sob a liderança de Eamonn de Valera e Michael Collins, que representavam o IRA e outras facções, os irlandeses forçaram a Inglaterra a negociar, principalmente depois que carros de combate invadiram Croke Stadium, em Dublin, e dispararam contra os torcedores desarmados e indefesos em 1921 (era uma partida de futebol gaélico, uma variante do rúgbi).

Nas negociações de 1921-1922, os ingleses aceitaram conceder uma autonomia ampla que poderia evoluir para a independência total ao longo dos anos.

A proposta, defendida por Collins, foi rechaçada pelo IRA e por Valera, abrindo um racha entre os rebeldes. O grupo de Collins venceu a votação no Parlamento Irlandês por 64 votos a 57. Valera não aceitou o resultado e rompeu com os partidários do acordo. 

Houve nova guerra civil, agora entre irlandeses, que resultou no assassinato de Michael Collins ainda em 1922 – ele tinha sido eleito presidente da Junta Provisória Governamental, que estava atuado d forma autoritária por conta da guerra civil.

Ironicamente, a morte de Collins acelerou tudo e uniu o país, e os ingleses praticamente tiveram de engolir a independência quase imediata. No entanto, fizeram uma exigência: os seis condados do Ulster permaneceriam parte do Reino Unido, ao lado de Inglaterra, Gales e Escócia, passando a se chamar Irlanda do Norte, de população protestante em sua maioria e fanática pela monarquia. O sul se tornaria republicano (embora com um acerto diferente e estranho com a Grã-Bretanha) e majoritariamente católico. Quase que imediatamente, tropas inglesas ocuparam o Ulster.

Estrategicamente, os irlandeses aceitaram provisoriamente o arranjo e Valera se tornou presidente da Irlanda, e depois primeiro-ministro algumas vezes. Também aceitaram fazer parte da Comunidade Britânica de Nações e ter o rei/rainha do Reino Unido como chefe de Estado (algo meramente simbólico, da mesma forma como ocorria no Canadá, Austrália e Nova Zelândia, por exemplo).

Esse arranjo foi desfeito em 1949, quando a Irlanda saiu da Comunidade Britânica de Nações, aboliu a determinação de que o rei da Inglaterra era o chefe de Estado e implantou formalmente a república. 

Paz, nova guerra e terrorismo

Foram 20 anos de relativa paz até que o IRA ressuscitasse como movimento armado e partido político (ligado no passado, ao Sinn Fein, partido republicado). A partir de 1969, a violência sectária na Irlanda do Norte foi acentuando, com o IRA perpetrando ataques contra alvos protestantes e, principalmente, defendendo a minoria católica por lá.

Esta minoria, que costumava ser maioria em todo o território irlandês, passou a encarar o catolicismo como símbolo de resistência contra a agressão britânica e como elemento comum para a reunificação da Irlanda.

Os 20 anos seguintes foram os mais violentos do conflito. Os irlandeses não mais se contentavam com a sua própria pátria. Queriam a reunificação das Irlandas – os mais radicais pregavam a expulsão de toda a população de origem inglesa e escocesa do Ulster. Foi dentro desse contexto que ocorreu o Domingo Sangrento, em Derry.

Para vingar os mortos, o IRA desencadeou uma série de atentados pelo mundo contra alvos ingleses – especialmente pubs em Londres e Birmingham, as maiores cidades inglesas. Quase mataram a primeira-ministra Margaret Thatcher na cidade de Brighton, em 1985.

Após os acordos de paz de 1998 e 2005, o IRA depôs as armas e aceitou participar da vida política da Irlanda do Norte dentro das regras democráticas inglesas e renunciando, por hora, à ideia de que reunificar as duas Irlandas.