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Marcelo Moreira


Não é hora de voltar aos shows e à “vida normal”, mas a situação é desesperadora. Sabíamos disso desde o começo do isolamento social, lá em março, mas uma pesquisa constatou, com números, o tamanho da devastação que a covid-19 causou na área artística, cultura, de entretenimento e gastronomia, mas sobretudo entre quem vivia de música.
Nada menos do que 86% dos profissionais da música tiveram perdas durante pandemia, sendo que 30% perderam todos os rendimentos. Se lembrarmos que o auxílio emergencial do governo federal para a área cultural, a chamada Lei Aldir Blanc, ainda não saiu, temos então uma situação catastrófica.
A pesquisa foi realizada pela UBC (União Brasileira de Compositores) e pela faculdade ESPM, de São Paulo. Com o nome de “Pesquisa Músicos e Pandemia”, consultou 883 músicos, compositores, intérpretes, produtores e outros profissionais da música que responderam ao questionário e representam, com margem de erro de cinco pontos percentuais. Mesmo com a crise violenta, 83% não pretendem abandonar a carreira.
O perfil desses profissionais é majoritariamente de homens (85%), de 31 a 50 anos (52%) e com ensino médio (29%) ou superior (28%). 
Instrumentistas, cantores e compositores são os profissionais mais comuns da cadeia produtiva, e a faixa de renda mínima que eles disseram necessitar para se manter varia, sobretudo, entre R﹩ 2 mil (24%) e R﹩ 3 mil (20%). 
Entre todos, 56% trabalham unicamente com a música, preocupantes 30% disseram ter perdido toda a sua renda durante a pandemia, e 56% disseram não ter qualquer renda (ou só 10%) oriunda de apresentações ao vivo durante a pandemia.

As carreiras mais prejudicadas pela pandemia foram as de instrumentistas (49%), intérpretes (49%) e compositores (35%), seguidas por produtores fonográficos (25%) e, em menor medida, arranjadores, professores de música, empresários, empregados de editoras e selos e roadies.

Sobre a faixa de renda mínima para sobreviver, as pessoas que responderam à pesquisa disseram, majoritariamente, que precisam de entre R﹩ 2 mil (24%) e R﹩ 3 mil (20%) mensais.

Outros pontos interessantes:

• 56% trabalham unicamente com a música;
• preocupantes 30% disseram ter perdido toda a sua renda durante a pandemia;
• 56% disseram não ter qualquer renda (ou só 10% da renda) oriunda de apresentações ao vivo desde que a pandemia começou.
Um dado esperançoso: entre os que disseram que diversificarão suas áreas de atuação sem deixar a música (53%) e os que a manterão como sua única fonte de renda (30%), a esmagadora e resiliente maioria de 83% garantiu que seguirá na área. Mas 15% pretendem diminuir a atuação na música e abraçar outras áreas paralelamente.

“Isso casa com os 33% que já tinham outra atividade fora da música antes da pandemia. As pessoas que se enveredam por essa difícil escolha da música como profissão têm, sobretudo, um grande amor pela arte. Enfrentam as dificuldades, não conseguem se manter totalmente com ela, mas não desistem”, analisa Giovani Marangoni, coordenador da pesquisa.

Para ele, os resultados permitem constatar uma vinculação muito grande dos artistas da música com os shows. “Como essa atividade foi a primeira a parar e está sendo a última a voltar durante a pandemia, o impacto financeiro sobre o setor é muito grande. Outra coisa que percebemos é que muitos passaram a fazer lives, acreditando que ganharão dinheiro com isso.”

É o caso das vaquinhas virtuais e a outros canais de contribuição direta do público ligados às transmissões. “Cerca de 26% disseram que artistas de média ou grande popularidade poderão ganhar dinheiro com as lives. Os grandes a gente entende, por conta das suas estruturas. Mas 14% incluíram também os pequenos entre os potenciais beneficiados. Há um encaminhamento acontecendo, que permite a artistas não vinculados a grandes selos terem suas produções inseridas no mundo digital, também nas grandes lojas. Os músicos de pequeno porte também podem estar lá. É o princípio de uma abertura, ainda não uma democracia, mas já um início de entrada”, afirma o pesquisador.

Diretor-executivo da UBC, Marcelo Castello Branco também destacou o componente educativo e informativo do trabalho. “Os efeitos devastadores da pandemia fizeram muitas vítimas na cadeia produtiva da música. A pesquisa retrata isso e suas perspectivas futuras. Temos que seguir olhando para a frente, construindo soluções coletivas e solidárias. São estes a prioridade e o olhar da UBC.”

Para o pesquisador Giovani Marangoni, os resultados permitem constatar uma vinculação muito grande dos artistas da música aos shows. 

“Como essa atividade foi a primeira a parar e está sendo a última a voltar durante a pandemia, o impacto financeiro sobre o setor é muito grande. Outra coisa que percebemos é que muitos passaram a fazer lives, acreditando que ganharão dinheiro com isso. Mas uma boa parte crê que quem mais lucrará serão os grandes nomes do mainstream”, explica.

Essa pesquisa é importante porque ajuda a entender como os músicos enfrentaram a pandemia e as imensas dificuldades, mas infelizmente não ajuda na busca de soluções. 

Tudo o que se fez até agora é paliativo e mostra que a categoria é extremamente vulnerável, especialmente às portas de uma segunda onda da doença, que já afeta a Europa. Lives ajudam, mas pouco acrescentam.