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 Marcelo Moreira 

Reprodução da capa da edição brasileira do livro “Liberdade de Expressão: Dez Princípios para Um Mundo Interligado”, de Timothy Garton Ash

O filme “Whiplash”, pelo qual o ator J. K. Simmons ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante, é bem didático a respeito do mundo insano da música de alta performance e, inversamente, o pouco público que acorre aos eventos de jazz, notadamente gente mais velha, supostamente intelectualizada, mas conservadora até a medula.

O maestro e professor perverso e sádico da escola superior de jazz, o papel de Simmons, parece saído diretamente de um livro do historiador marxista Eric Hobsbawn (1917-2012), que escreveu o magnífico “A História Social do Jazz”.

Em “Tempos Fraturados”, uma de suas últimas obras, Hobsbawn faz uma série de análises sobre a cultura no século XX, debruçando-se mais sobre arquitetura, cinema e literatura, mas faz cáusticas observações sobre a situação do jazz e da música erudita: manifestações empacadas no passado, com público pequeno e diminuindo a cada ano e celebrando dia após dia a obra de gente em sua maioria morta ou aposentada, sem sopro de inovação e criatividade.

O maestro de “Whiplash”, levando a sua orquestra jovem novaiorquina com mão de ferro, tira o sangue, literalmente, de seus alunos-músicos com a busca da perfeição em peças como “Caravan”, composta por Duke Ellington, Juan Tizol e Irving Mills.

Com o desaparecimento do rock das listas atuais de “maiores sucesso”, dominadas por rap e rhythm and blues moderno nos Estados Unidos e pelo sertanejo no Brasil, muita gente associou esse “futuro para o gênero ao discutir a data, 13 de julho, o Dia Internacional do Rock, só comemorado aqui no Brasil.

Pois bem, o futuro chegou e o rock se tornou um gênero musical de nicho no Brasil, assim como o blues e o próprio jazz.

Com a perda de  e o avanço da idade de parcela expressiva de seu público, o classic rock ganhou uma relevância que nunca teve, especialmente no Brasil. Logo será uma música apreciada por gente mais velha que prefere ouvir obras de gente morta há muito, muito tempo…

Com a falta de renovação de seu público, que sumiu, fica a pergunta: será que essa é a razão pelo avanço do conservadorismo político e nos costumes entre os apreciadores que ainda insistem em ouvir rock, mesmo entre o mais novos?

É uma tese instigante, embora não haja uma pesquisa séria e abrangente sobre o assunto. O número alto de bandas que surgem desde sempre, em um movimento inversamente proporcional ao surgimento de um público novo e mais jovem, escancara a contradição, em nossas terras, da falta de apelo do gênero musical atualmente.

Em algum lugar do passado

No pop rock, as referências continuam sendo artistas que estão beirando os 40 anos de carreira, como Ira!, Paralamas do Sucesso, Titãs e os finados Legião Urbana e Cazuza, entre outros.

A última banda do gênero que fez sucesso estrondoso foi Los Hermanos, e isso ocorreu há mais de 20 anos. O rock nacional até consegue revelar alguns nomes novos, mas sobrevivem um pouco mais aqueles que buscam uma sonoridade um pouco mais próxima da época de ouro, os anos 80. Quem tenta fazer algo diferente, mais indie, enfrenta a indiferença e desprezo.

O Terno, Autoramas, Boogarins, The Baggios, Far From Alaska e mais algumas outraam ss fazem algo mais avançado e diferente, tentam furar a bolha, inclusive a ideológica, mas sofrem resistências e encontram algum mercado receptivo no exterior.

No rock mais pesado, as dificuldades são ainda maiores, e isso levando-se em conta que os artistas tentam se distanciar ao máximo das querelas ideológicas. Também, aqui, o número de novos artistas é inversamente proporcional à quantidade de público, cada vez menor e menos propensa a valorizar o novo e o audacioso.

Em tempos de pandemia, o que percebemos é que fica escancarada a opção pelo clássico e pelo passado. Em época de recolhimento forçado para a maioria, foi a hora de desempoeirar o vinil de Jimi Hendrix ou aquele velho álbum de Neil Young ou de Raul Seixas. Banda nova? Nem vou acionar o meu Spotify ou Deezer. Live nas redes sociais? Dez minutinhos bastam…

E então vemos as manifestações de conservadorismo político-comportamental avançando em um meio que progressivamente perde a conexão com a parcela mais vanguardista.

Se a pandemia evidenciou a incompetência deliberada e criminosa do governo Jair Bolsonaro, por outro lado exacerba o mau humor mal direcionado de uma parcela que ainda parece disposta a tolerar as barbaridades. Mais ainda, se recusa a enxergar as mazelas que nos afligem hoje.

Alvo errado

A pandemia acirra conflitos e raiva contra o chefe, contra o fiscal que apenas faz o seu trabalho, contra o motorista de ônibus que dirige mais devagar (e com segurança), contra o caixa do banco ou do supermercado, contra a enfermeira exausta que não consegue vaga no posto de saúde ou no hospital público…

É o avanço da mediocrização dentro do rock, que começa a perceber, em seu mundinho cada vez mais estreito, o avanço de gente burra e desinformada que acha que artista, em geral, é tudo maconheiro e comunista (apesar de bradar que adora Led Zeppelin e Iron Maiden…).

Pior do que o avanço desse “terraplanismo” dentro do rock é o silêncio incômodo e asqueroso da maioria. Esta até percebe as barbaridades que são cometidas e as bobagens que são vomitadas, mas a preguiça e o desânimo drenam a energia necessária para combater a mediocridade.

Diante disso, o espírito conservador de classe média burguesa preguiçosa ressurge, com a clássica falta de vontade para o novo e o diferente e a esperada má vontade para qualquer tipo de progressismo, que escorre perigosamente para a deformação de caráter quando afeta as pautas de defesa dos direitos humanos, da democracia e das liberdades civis e de expressão.

É desalentador dizer isso, mas parte expressiva do roqueiro classe média desalentado é o cara que viu muitos de seus sonhos em outras áreas desabarem ou não se concretizarem, aqueles que se sentiram lesados e enganados – mas pelos motivos errados – com uma série de governos que prometeram muita coisa, mas que ficaram pelo caminho.

Essa gente classe média preguiçosa e fossilizada só pensa em si, por isso vota paroquialmente, no vizinho ou no parente do amigo, seja qual for o partido. É aquela gente que não se lembra em quem votou para deputado ou vereador e que se contenta, atualmente, em eleger idiotas que prometem matar bandidos aos montes e de prender indiscriminadamente corruptos – desde que sejam de outros governos…

É lamentável que roqueiros, mesmo que de classe média pouco afeitos à leitura e aos estudos e que tendam a votar em gente que ideologicamente vai se voltar contra ele próprio, ignorem os avanços sociais e econômicos que começaram lá no governo Fernando Henrique Cardoso.

Durante 16 anos,  entre 1994 e 2010 – nos governos FHC e Luiz Inácio Lula da Silva -, a democracia não só foi preservada como reforçada, com crescimento econômico consistente e crescente, ainda que com crises e solavancos no período.

A pobreza diminuiu, o mercado consumidor cresceu e a geração de empregos teve saldos positivos – a taxa de desemprego baixou para inacreditáveis 4,8% por volta de 2005 e 2006.

Bastaram a desaceleração ocorrida a partir de 2012 e desarranjos políticos a partir de 2014 para que parte dos eleitores se desencantassem, dentro de sua visão estreita, vil e individualista que caracteriza o brasileiro, para jogasse todos os avanços civilizatórios no lixo e apoiasse um golpe institucional vergonhoso contra a presidente Dilma Rousseff e sonhasse com uma estabilização diante do lamentável governo de Michel Temetr. A parcela cada vez maior der conservadores no rock apoiou esse mergulho no abismo. O resultado é o flerte com o fascismo bolsonarista.

Nicho conservador

Ao contrário do que ocorreu nos Estados e em parte da Europa, o rock demorou a penetrar na nossa sociedade, sendo visto como um estrangeirismo passageiro em um país com forte identidade cultural e manifestações próprias.

Como o jazz puro e o blues, foi abraçado por uma elite intelectual-cultural, que teve sucesso, em parte,  em estabelecer o rock como um gênero plural, diversificado, expansionista e internacionalista, ainda que fosse impossível negar um caráter anárquico, rebelde e até violento, em certos casos.

Só que, essencialmente, era um gênero de classe média. Quando a juventude brasileira aproveitou o ocaso da ditadura militar, nos anos 80, para se manifestar, a rebeldia tinha nome e cara e som: o rock inofensivo da molecada da zona sul ensolarada carioca e da vida cara e boêmia dos Jardins e Pinheiros, em São Paulo. A rebeldia só ia até a página 10, com a revolução ficando confinada aos punks das zonas norte e sul de São Paulo.

O rock encontrou campo fértil na juventude desacostumada com a liberdade da democracia e em estudantes que precisam de veículos para dar vazão aos pensamentos progressistas represados, como justiça social, redução da pobreza e da desigualdade econômica, universalização da saúde e da educação e expansão vigorosa das artes e da cultura livres de censura. O rock veio a calhar.

Trinta anos depois, esse mesmo rock deixou de dialogar com os jovens, principalmente os da periferia pobre das grandes cidades. O rap e o funk agradeceram e tomaram conta, com linguagem, sons e culturas próprias, sem regras e preconceitos. E o rock continuou confinado à classe média, que cada vez mais o abandonava, caindo de cabeça no deplorável sertanejo e suas variantes, uma pior do que outra.

iEssa mesma classe média, cansada da volatilidade econômica, com picos de euforia e muitos de depressão, decidiu procurar culpados em todas as direções, errando todos os alvos. Um destes foi a democracia, que começou a ser relativizada à medida que as coisas desandaram.

Quem diria? Parte expressiva dos roqueiros aderiu a esse pensamento raso e superficial e acreditou que um golpe parlamentar espúrio resolveria todos os problemas e transportaria imediatamente o país para o olimpo do dinheiro farto e fácil. Todos os problemas acabariam.

Na verdade, só aumentaram e pioraram, desembocando na eleição de um político amador com tendências autoritárias, que estabeleceu um governo miliciano onde faltam competência e sobram desprezo à democracia e destruição de valores civilizados.

Os roqueiros conservadores não conseguem explicar o porquê de sentirem ludibriados durante os anos de redemocratização e reconsolidação da democracia, uma época em que havia esperança de que um país um pouco melhor e mais justo pudesse ser construído.

Em tempos bolsonaros e de pandemia, não dá mais para disfarçar que o roqueiro classe média conservador é egoísta, individualista, moralista, preconceituoso, com tendências autoritárias e que menospreza a liberdade de expressão – a mesma que permite que ele brade contra quem quiser e que possa ouvir o tipo de som que quiser, mesmo que seja de artistas racistas e que esbarram no fascismo, como Pantera e Ted Nugent.

No fundo, todo o ambiente esfuziante e progressista da música brasileira depois de 1985 incomodava esse apreciador de música anódina e incolor, que adorava letrinhas falando de praia e abominava a crítica contundente de Cazuza em “Brasil” e “Ideologia”.

Era o/a fã que se satisfazia com as piadas sem graça dos Mamonas Assassinas e com as expressões chulas e politicamente incorretas (até certo ponto) dos Raimundos – mas torcia o nariz para “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso, o “Até quando Esperar”, da Plebe Rude, isso quando conseguia ter cérebro para entender a letra.

Para essa gente, rock era somente rock, não tinha que falar de política. Tinha de se manter inofensivo o tempo todo. Tinha de ter parado, esteticamente, lá nos anos 70, de preferência sem muito barulho – no máximo, um Led Zeppelin. Para que tanta potência no heavy metal? Para que tanta nojeira e rebeldia no punk?

Intolerância e preguiça

Os mais apressados vão dizer que o ambiente roqueiro atual é apenas um reflexo da decadência do gênero, em particular, e do que ocorre no resto da sociedade.

Esse pensamento é simplista demais e reducionista demais. Ignora questões bem complicadas, como a própria condição de conservador em um gênero musical libertário, avesso a regras, rebelde e quase sempre associado a movimentos revolucionários.

Especificamente no atual momento da política brasileira, essa contradição é fatal, já que o roqueiro conservador, de cunho evangélico e autoritário, louva um mito que tem, no seu “plano” de governo, medidas que atingem diretamente a vida cotidiana de quem aprecia rock.

É um presidente em guerra permanente contra a cultura, o conhecimento, as artes e a educação. Que despreza os artistas (“são todos comunistas”) e que constantemente atenta contra a liberdade de expressão e de comportamento. Isso quer dizer que, no limite, é um governo que pode vir a ser autoritário e proibir músicas e shows de muitas bandas de rock, por exemplo.

É muita pretensão querer determinar que conservadores não podem gostar ou curtir rock. Coisas incompatíveis? Nem tanto. Não são excludentes.

No entanto, muita gente capaz e com coisas importantes a dizer consideram que o tipo de ultraconservadorismo que empesteia nossas vidas nestes tempos insanos e perigosos faz mal para a democracia e para a civilização – e muito mal para o ambiente do rock.

O ultraconservadorismo preconizado por parte relevante de nossa sociedade e encampado por apoiadores da excrescência que está encastelada na presidência, é intolerante por definição, sendo incompatível com a vida inteligente, com a democracia e com o nosso tempo. É incompatível com o rock.

Esse debate foi enriquecido nesta semana por um texto interessante publicado pelo portal UOL, antiga casa do Combate RockClique aqui e leia mais sobre como o conservadorismo avançou no mundo do rock.