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 Marcelo Moreira



Os Rolling Stones estão iniciando uma segunda onda de abertura de baús com raridades e shows emblemáticos de uma carreira de 58 anos. A boa da vez é “Steel Wheels Live”, uma caixa com três CDs que celebra a famosa volta da banda em 1989, com um show inesquecível em Atlantic City, nos Estados unidos, com convidados especiais.

A banda aproveita para comemorar os 30 anos daquela turnê que praticamente revitalizou os Stones e que os colocou em consonância com os novos tempos e os prepararam para uma década nova de desafios, na qual eles foram bem.

A turnê de 1989-1990 foi dividida em duas partes, uma americana (“Steel Wheels Tour”) e a europeia (“Urban Jungle Tour”), que deram suporte ao álbum “Steel Wheels”, lançado em 1989 com bastante estardalhaço.

Tinha de ter sido daquela forma, pois os Rolling Stones subiriam ao palco juntos pela primeira vez em sete anos, algo que nunca tinha acontecido. 

A realização daquela turnê tinha sido o resultado de pelo menos dois anos de negociações entre Mick Jagger e Keith Richards, os donos do negócio e então ex-amigos em litígio pelo espólio do grupo.

Muitos deram por encerrada a carreira o quinteto nos anos 80 por conta de novas modas musicais e pelos problemas administrativos que jogaram em lados opostos os líderes.

Os problemas começaram com a assinatura de um novo contrato milionário com a Virgin Records para uma sequência de álbuns. O que ninguém ficou sabendo, de início, era que Mick Jagger tinha feito um contrato paralelo, meio secreto, para começar a sua carreira solo.

Quando os companheiros descobriram a manobra, a banda quase acabou durante as gravações de “Undercover”, o álbum que seria lançado ao final de 1983 e o primeiro do novo contrato.

Considerando-se traído, o guitarrista Keith Richards ameaçou sair da banda e exigiu o rompimento do contrato. Jagger pagou pra ver e coube aos empresários e ao amigo de todos, o gerente de turnês e pianista Ian Stewart, tentar a muito custo resolver a questão.

Richards foi acalmado, mas não de todo, e o resultado pôde ser visto nas músicas daquele álbum de 1983: pouco inspiradas, repetitivas e enfadonhas. O resultado desagradou a todos e acabou por abortar a eventual turnê de promoção do disco.

Fortalecido, Jagger para vários estúdios e locações, inclusive no Brasil, para gravar seu primeiro álbum solo e seus videoclipes. “She’s the Boss” foi lançado em 1985 e obteve algum sucesso com a balada “Hard Woman” e a energética “Just Another Night”.

Ainda contrariado, Richards foi convencido a gravar novo disco dos Rolling Stones ao final daquele ano de 1985, mas teve de esperar a boa vontade de Jagger, ainda em divulgação do disco solo, com direito a alguns poucos shows.

O cantor atrasou os trabalhos da banda e as gravações de “Dirty Work” ainda ocorreram sob clima pesado e de disputa dentro da banda. Jagger estava pouco interessado e Richards lutava para manter as coisas unidas, mas explodiu de raiva quando o vocalista anunciou que não tinha planos de sair em turnê para divulgar o disco.

No livro “Vida”, sua autobiografia, Richards afirma que a banda praticamente tinha acabado ali. Jagger estava mais interessado em gravar seu segundo álbum solo, “Primitive Cool”, de 1987, e Richards finalmente se rendeu ao óbvio e gravou o seu, “Talk Is Cheap”, em 1988. Ian Stewart, a cola que mantinha as arestas aparadas, não existia mais, pois tinha morrido no final de 1985, vítima de um ataque cardíaco, aos 47 anos.

Ninguém sabe ao certo como Jagger e Richards foram parar no mesmo ambiente em Londres em janeiro de 1989. Cada um conta uma versão diferente, mas o fato é que havia problemas financeiros que envolviam a banda e que ameaçava a carreira de todos. 

O fato é que se entenderam e toparam em colaborar juntos de novo para que a máquina continuasse a andar. A velha amizade estava destruída, mas sobrou algum respeito profissional em prol de um bem maior. 

Varreram as divergências para baixo do tapete e assumiram que viraram apenas “sócios” de uma empresa, sem nenhum vínculo maior. Tanto que Richards disse em uma entrevista que não frequenta o camarim de Jagger, e vice-versa, antes dos shows, há 30 anos – exatamente o período desde o lançamento de “Steel Wheels”.

Com todo mundo do entorno dos Stones aliviado, a turnê “Steel Wheels” foi saudada como uma verdadeira volta da banda, após sete amos afastada dos palcos e com um álbum melhor do que os anteriores para suportar o giro pela América e pela Europa.

Seja como for, os quase 100 shows se tornaram, até então, a maior turnê musical de todos os tempos, a mais rentável, a que vendeu mais ingressos e a que sanou qualquer problema financeiro que houvesse. 

Um evento tão grandioso mereceria algumas atrações a mais, para que a volta fosse comemorada em grande estilo. E a cidade de Atlantic City, a cidade do jogo na Costa Leste, foi a escolhida pra receber o principal show da turnê.

Transmitido para o mundo inteiro, com uma estimativa de 1 bilhão de pessoas tenham acompanhado pelo menos alguma parte do show, os Rolling Stones subiram ao palco em dezembro para um espetáculo memorável.

Imaginava-se que haveria uma penca de convidados, mas foram poucos e seletivos. Axl Rose e o guitarrista Izzy Stradlin, ambos dos Guns N’Roses, radiantes e felizes, foram bem na raríssima “Salt of the Earth”. Eric Clapton tocou com os velhos amigos em “Little Red Rooster”, clássico do blues norte-americano, em em “Boogie Chillen”, ao lado de outra lenda, o bluesman John Lee Hooker.

Tudo muito profissional e preciso, por mais que tudo estivesse muito diferente. Havia muita gente no palco. Sete anos antes, os Stones precisavam apenas de um pianista de apoio, geralmente Ian Stewart ou Ian McLagan (ex-Small Faces e Faces), e um saxofonista para tocar em duas músicas (Bobby Keys ou Ernie Watts). Agora havia dois tecladistas, três vocalistas de apoio e um naipe de metais com cinco músicos. O show tinha de continuar, e da melhor forma possível

Transmitido praticamente ao vivo para o Brasil pela TV Bandeirantes, foi um dos acontecimentos do ano e mostrou os músicos, à beira dos 50 anos de idade (Bill Wyman, o baixista, já tinha 53), em grande forma física e musical, executando clássicos de forma magistral e brindando o público com algumas raridades até então, como “Paint It Black”, “Gimme Shelter” e “2000 Lights Years From Home”, além da citada “Salt of the Earth”.

O pacote recém-lançado vem com três CDs e um livreto contando os bastidores da turnê e contextualizando como aquela turnê foi importantes para a continuidade da banda pelos próximos 30 anos – e contando.

O sucesso foi estrondoso e a arredação de dinheiro, espantosa. Foi a turnê mais rentável de todos os tempos até então. Mas nem tudo foram flores. Bill Wyman surpreendeu a todos ao “pedir demissão” nos camarins ao final do último show na “Urban Jungle Tour”. Aos 53 anos, estava farto daquela vida – claro, com milhões de dólares na conta, ficava mais fácil de aposentar.

Ele tinha avisado, antes mesmo da reconciliação entre Jagger e Richards, que qualquer turnê que houvesse no futuro seria a sua última. Ninguém deu bola. Cansado da estrada e desgastado pelo fracasso de um casamento com uma jovem 30 anos mais nova, queria sossego.

O anúncio da saída não foi levado a sério na hora. Depois, foi abafado por todos, mas Wyman, sete anos mais velho do que a maioria dos companheiros, não mais compareceu a nenhuma reunião ou ensaio, forçando a sua aposentadoria. 

Na divulgação de “Flashpoint”, de 1991, o álbum ao vivo originado das duas turnês, sua foto não está no material de divulgação. As duas canções inéditas lançadas no CD, “Sex Drive” e “Highwire”, tiveram clipes sem a presença dele. Oficialmente, o anúncio da saída de Bill Wyman ocorreu somente em 1992. 

Seu substituto, Darryl Jones, com um currículo robusto – tocou com Michael Jackson -, se tornou um músico contratado pra as turnês e, eventualmente, para discos de estúdio. Não poderia ser uma escolha melhor.

Disc 1: Atlantic City 1989, CD 1

Intro
Start Me Up
Bitch
Sad Sad Sad
Undercover of the Night
Harlem Shuffle
Tumbling Dice
Miss You
Terrifying
Ruby Tuesday
Salt of the Earth (featuring Axl Rose and Izzy Stradlin of Guns N’ Roses)
Rock and a Hard Place
Mixed Emotions
Honky Tonk Women
Midnight Rambler

Disc 1, track 4 previously released on Flashpoint, Rolling Stones Records/CBS CD CK 47456, 1991.
Disc 1, track 5 previously released Ruby Tuesday Rolling Stones Records ‎CD single 656892 2, 1991.

Disc 2: Atlantic City 1989, CD 2


You Can’t Always Get What You Want
Little Red Rooster (featuring Eric Clapton)
Boogie Chillen (featuring Eric Clapton and John Lee Hooker)
Can’t Be Seen
Happy
Paint It Black
2,000 Light Years From Home
Sympathy for the Devil
Gimme Shelter
It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)
Brown Sugar
(I Can’t Get No) Satisfaction
Jumpin’ Jack Flash

Disc 2, track 2 previously released on Flashpoint, Rolling Stones Records/CBS CD CK 47456, 1991.

Disc 3: Steel Wheels Rare Wheels CD


Play With Fire (CNE Stadium, Toronto, September 3, 1989)
Dead Flowers (CNE Stadium, Toronto, September 3, 1989)
Almost Hear You Sigh (Wembley Stadium, London, July 6, 1990)
I Just Want To Make Love To You (Wembley Stadium, London, July 6, 1990)
Street Fighting Man (Wembley Stadium, London, July 6, 1990)

Disc 3, tracks 1 and 4 previously released on Highwire single, Rolling Stones Records ‎- COL 656756 9, 1991.