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 Marcelo Moreira

O milionário australiano David Lowy, que toca guitarra, não pensou duas vezes em chamar um veterano para substituir John Corabi, ex-Motley Crue, em sua banda de hard rock: o novo vocalista e baixista dos Dead Daisies agora é Glenn Hughes, monstro do mundo musical com passagens por Deep Purple, Black Sabbath e Black country Communion.

Hughes é um sobrevivente e fará 70 anos de idade em agosto. Está em plena forma e, em termos comerciais, nunca esteve tão bem e tão requisitado, como podemos ver a repercussão do novo álbuns dos Daisies, “Holy Ground”, recém-lançado.

O que pouca gente lembra é que o cantor e baixista foi dado como praticamente “morto” há 35 anos, quando participou de uma das páginas mais tristes do Black Sabbath, as gravações e lançamento do álbum “Seventh Star”.

Apesar dos méritos artísticos, o álbum, que chegou às lojas no começo de 1986, é mais lembrado como a obra que quase sepultou o Black Sabbath e as carreiras do guitarrista Tony Iommi e de Hughes.

Diante de tal fiasco, é mesmo de se surpreender a maneira como os dois músicos superaram o fiasco e se recuperaram plenamente., a ponto de de voltarem a trabalhar juntos em duas oportunidades anos depois.

“Seventh Star” é, provavelmente, um dos arrependimentos de Iommi, embora ele não diga isso com todas as letras nem mesmo em sua autobiografia. Mas ele reconhece que era o disco que não precisava ter sido feito.

Esse fiasco é reflexo direto do desastre que representou a saída de Ronnie James Dio do Black Sabbath em 1982, após muitas brigas. Foram apenas dois LPs de estúdio e um ao vivo, trajetória interrompida precocemente por conta de egos inflados e falta de confiança a respeito do potencial imenso daquela formação.

Desnorteados, e com problemas pessoais, Iommi e o baixista Geezer Butler não sabiam para onde correr e o que fazer. Só isso explica que, depois de uma horas bebendo em um pub, Iommi anunciasse o amigo Ian Gillan, então ex-Deep Purple, como novo cantor da banda – fato ue surpreendeu até mesmo o empresário do cantor.

Poderia ter dado certo se todos estivessem comprometidos em fazer a coisa dar certo, mas ficou claro desde o começo que Gillan era um corpo estranho cantando as músicas antigas da banda e mesmo as novas, do disco “Born Again”, que foi mal gravado e mal mixado – talvez por isso seja tão cult atualmente.

Gillan e Black Sabbath ficaram juntos por um ano, entre 1983 e 1984, mas era uma união com data de validade, até porque já se especulava a volta da formação clássica do Deep Purple desde o final de 1982.

Consumado o retorno do Purple, Iommi já esperava que o amigo debandasse, o que ocorreu de forma amigável e resignada. O que ele não contava era com as saídas de Butler e Bev Bevan, o baterista, que não viam mais futuro no Black Sabbath – e não estavam errados.

Sem banda e só com um nome que remetia a um dinossauro decadente, Iommi partiu novamente para reconstruir sua carreira do zero. Testou vocalistas e baixistas para um eventual projeto solo. 

Pensou em algo ambicioso, um disco com vários vocalistas, cada um cantando uma canção. Já tinha engatilhada as participações de Robert Plant e Glenn Hughes, antigos colegas da sua região de Birmingham, e imaginava contar também com a ajuda de Rob Halford, do Judas Priest, outro conterrâneo.

Com a demora em viabilizar as canções e as participações especiais, abandonou o projeto e decidiu que faria um álbum solo, quase contratou um cantor desconhecido chamado Jeff Fenholt, que depois virou pastor evangélico. Também quase fechou com Dave Donato e com um iniciante chamado Ron Keel, mas sempre algo emperrava.

Meio que por exclusão, chegou a Glenn Hughes, então vindo de uma colaboração cheia de brigas com o guitarrista irlandês Gary Moore no álbum “Run for Cover”, de 1985.

Black Sabbath em 1986, antes da turnê pelos Estados Unidos: da esq. ara a dir., Dave Spitz, Glenn Hughes, Tony Iommi, Eric Singer e Geoff Nicholls (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Hughes estava meio no desvio, procurando o que fazer depois de apenas um álbum com o guitarrista Pat Thrall, de 1982, mas o vício em drogas pesadas o fazia ser carta fora do baralho no mercado. Aos 35 anos, era considerado um músico acabado e ultrapassado.

Amigo de longa data de Iommi, Hughes se ofereceu e o guitarrista assumiu o risco, embora quase tudo tenha ido por terra com a demora do ex-Black Sabbath de formar uma banda.

Com prazos estourando, e ainda sem um nome no projeto (Tony Iommi Band?), Iommi milagrosamente reuniu um time de primeira: além de Hughes nos vocais, vieram Eric Singer (bateria, que depois tocaria no Kiss), o baixista Dave Spitz (irmão de Dan Spitz, do Anthrax) e o velho companheiro dos anos 70, o guitarrista/baixista/tecladista Geoff Nicholls.

Correndo contra o tempo, “Seventh Star” foi gravado meio às pressas, e a produção demonstra isso, mas os prazos foram cumpridos e o disco saiu bem em cima da hora de começar a longa turnê norte-americana. Por exigência do guitarrista, o trabalho foi creditado a “Black Sabbath feat. Tony Iommi”.

Só que aí veio a bomba: o disco só seria lançado pela gravadora se fosse um trabalho do Black Sabbath, e não de Iommi solo. Emparedado e sem alternativas, o guitarrista aceitou a imposição, o que desagradou a todos os outros músicos, exceto Nicholls.

E infelizmente Hughes se tornou o grande problema na turnê, com sua instabilidade por conta do vício pesado em drogas e em álcool. Nos ensaios a performance já se mostrava claudicante – a voz ainda era maravilhosa, mas o fôlego já era…

Na sua autobiografia, Iommi fala da dor no coração quando teve de tomar a decisão de demitir Hughes após o quarto show da turnê e substituí-lo pelo americano desconhecido, mas extraordinário cantor, Ray Gillen, que cantaria depois na banda Badlands, de Jake E. Lee (ex-Ozzy Osbourne).

Já em seu próprio livro, sem ressentimento, Hughes admite que estava imprestável e que a substituição seria quase inevitável. Mas reclama de dois fatos: a convocação de Gillen enquanto ele ainda era o vocalista (o substituto já estaria ensaiando secretamente antes de a turnê começar) e a briga feia com o empresário do Black Sabbath, quando o cantor tomou um murro no nariz e ficou impossibilitado de cantar por alguns tempo, já depois foi constatada uma fratura em seu rosto.

A turnê seguiu até o fim aos trancos e barrancos, mas a banda estava em frangalhos devido ao péssimo gerenciamento da banda. Gillen foi convencido a ficar, gravou o álbum seguinte, “Eternal Idol”, mas debandou assim que gravou a última nota, irritado com a intermitência no pagamento e com muita decisões de Iommi. Foi substituído pelo inglês Tony Martin, enquanto músicos de estúdio ajudaram Iommi a concluir o disco, já que o resto da galera também não quis ficar.

Quando ao disco “Seventh Star”, é pouco lembrado como obra da banda. Só os mais fanáticos ousam fazer comentários sobre ele e é quase nota de rodapé nos livros e artigos sobre a banda. É quase unânime nas listas como o pior disco da banda, rivalizando com “Forbidden”, de 1995.

Se alguém ouvisse às cegas todos os temas, reconheceria aqui e ali a guitarra de Iommi, mas jamais imaginaria que seria um disco do Sabbath. Em nada lembrava a banda clássica, seja pela sonoridade, seja pelos temas abordados.

Música de amor? Sim, tem isso, a melosa e brega “No Stranger to Love”, que é amada no Brasil – é uma boa canção, mas é brega. Outra que envereda pelo mesmo caminho é o bluesaço “Heart Like a Wheel”, que esbarra no tema amor, mas de forma áspera e contundente. 

“In For the Kill” tenta seguir na linha hard AOR que dominava as paradas e que contaminou até a banda Heart, com o hit “If Look Could Kill” e seus excessos e excesso e produção.

A faixa-título também é pouco inspirada, já que tenta captar um peso climático muito em voga nas bandas de heavy metal da época, mas sopa como uma cópia data e sem muita inspiração.

“Turn the Stone” e “Danger Zone” descambam escancaradamente para o hard rock, eliminando todo e qualquer vestígio do peso das guitarras tétricas de Iommi, embora não sejam más canções. A questão é que jamais poderiam ser gravadas sob o nome Black Sabbath. 

Não que a banda não tivesse abordado o tema com Ozzy Osbourne nos vocais, mas isso era feito de outra forma, mais pesada e mais bruta, e com muito sarcasmo nas letras de Geezer Butler.

Em “Seventh Star”, não funcionou. Seria um bom disco de hard rock de inspiração norte-americana, com seus excessos de produção, mas não combinou com a marca Black Sabbath.

Muito por conta disso, o disco não decolou e conta com certa rejeição dos fãs, quando não o mero desprezo. Entretanto, teve potencial para quase demolir as carreiras de dois nomes fortes do rock pesado e de encerrar a trajetória de uma banda fundamental.

Persistentes, todos seguiram em frente, aos trancos e barrancos, e conseguiram se reerguer. Iommi e o Sabbath prosseguiram com Tony Martin e uma rápida volta de Ronnie James Dio em 1992, para enfim engatar uma volta defnitiva da banda com Ozzy Osbourne até o fim programado, em 4 de fevereiro de 2017.

Glenn Hughes padeceu no inferno das drogas por mais alguns anos até finalmente acetar a reabilitação e voltar com tudo em 1992 com o ótimo disco “Blues”. A carreira solo decolou e participou de inúmeros projetos, incluindo uma parceia com Tony Iommi nos anos 2000, um disco chamado “Fused”.

Entre seus projetos mais interessantes estão as bandas Black country Communion, por enquanto em hibernação, e Dead Daisies, na qual está emoenhado neste momento.