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Marcelo Moreira

Jimi Hendrix (FOTO: DIVULGAÇÃO)


Os roqueiros ingleses veneravam Jimi Hendrix. Amavam-no e o consideravam um dos seus. A devoção a ele beirava o medo. Pete Townshend, guitarrista do Who, adorava o concorrente, mas tinha medo daquele gigante gentil de ébano, de fala mansa e com uma autoconfiança extrema. “A gente nunca sabia o que ele aprontaria em seguida.”

Ele sabia o que falava. No Festival de Monterey, em 1967, Townshend decidiu desafiar o amigo e concorrente e encheu tanto o saco que conseguiu fazer com que a organização colocasse o Who pra trocar antes do Jimi Hendrix Experience. Era uma disputa para ver quem faria o show mais impactante.

O Who terminou a sua apresentação com a costumeira quebra de instrumentos e caos total, algo inusitado par as plateias norte-americanas. Irritado e desafiado, Hendrix entrou no palco, tocou muito alto e muto pesado e colocou fogo em sua guitarra em um “ritual”, ganhando todas as manchetes. Townshend sabia o que era provocar o sossegado gigante negro.

O melhor de todos os guitarristas era um extraterrestre entre os músicos. Muita gente acha que ele não era humano. Tão à frente de seu temo e tão inventivo, não era de se surpreender ao saber que ele próprio se achava fora de lugar neste mundo, como revelou várias vezes a amigos e em suas letras.

Sua guitarra falava por ele, na maioria das vezes, como quando executou o hino nacional americano em Woodsock, em 1969. Mas também era eloquente em canções como “Fire”, “Wind Cries Mary”, “If Six Was 9” e na visceral versão de “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan.

Mas por que ele foi o melhor de todos? “Ele entendia melhor do que qualquer um o que significava a guitarra. Tirava sons que eram impossíveis. Falava com o instrumento de uma forma que ninguém mais conseguia”, afirmou certa vez Eric Clapton.

“Ele não criava apenas música. Criava sons, arrancava-os não se sabe de onde. Inovava e transformava sua guitarra em outra coisa”, disse Pete Townshend em uma entrevista para a revista Rolling Stone.

Inadequado e desajustado neste momento, partiu em setembro de 1970 para dominar outros mundos e abençoar outras dimensões. 

A referência de Hendrix no rock é tão forte, mesmo 50 anos depois de sua morte, que não é raro historiadores da arte estabelecerem que existia um tipo de música antes de seu desaparecimento e que surgiu outra, depois.

“Sua percepção de vida e a sensibilidade para a música eram coisas inexplicáveis e chocantes. Impactou todos os que o viram, e isso ocorreu na primeira vez para quase todas as pessoas. Ninguém ficava indiferente em seus shows. Nem mesmo os Beatles causaram coisa semelhante”, atesta Eric Burdon, ex-Animals, um de seus amigos mais chegados e a segunda pessoa a ver o corpo de Hendrix após a morte – a primeira foi a namorada, a modelo alemã Monica Danemann.

Guitarrista que diz que não é discípulo do mestre guitarra está mentindo, mesmo não tenha consciência disso. De contemporâneos como Jeff Beck e Jimmy Page a veneradores como Yngwie Malmsteen e Stevie Ray Vaughan, todo mundo absorveu algum de seus ensinamentos e suas “verdades”.

O que estaria fazendo hoje se estivesse vivo? “Provavelmente trocando figurinhas com outros gênios. Teria tocado com Miles Davis, teria mergulhado no jazz e estaria inovando no hip hop, no blues ou mesmo criado um novo gênero musical”, crava Mauricio Gaia, músico e integrante da equipe do Combate Rock.

Nenhuma homenagem e nenhuma palavra é suficiente para descrever a importância de Hendrix em nossas vidas. Certamente o rock seria muito diferente e menor se ele não tivesse existido. Mais do que qualquer outro rival, ele é sinônimo de rock e de guitarra. Hendrix é parte indissociável de nossas vidas.