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Perturbador. Foi a palavra suficiente para que a chegada do filme “The Wall” ao Brasil causasse ansiedade, muita expectativa e filas imensas nas então poucas salas que se dispuseram a exibir a fita em São Paulo e em algumas outras cidades do Brasil.

A ditadura militar nojenta que sangrava o Brasil estava esfarelando e em seus momentos finais naquele ano de 1982, o que explica a aparente nenhuma atenção da censura ao filme de Alan Parker. 

Em meio a uma certa efervescência cultural que ocorria com o nascente pop rock festivo daquela década no Rio de Janeiro, a Blitz exaltava as carioquices ensolaradas dos jovens de Ipanema -, o ambiente soturno, sombrio e pesado da então obra máxima do Pink Floyd atraía corações e mentes de forma surpreendente.

A mistura de animação com o clima dark, de traumas psicológicos cm drama político, tudo isso com o fascismo pairando sobre as nossas cabeças – a mente doentia de Roger Waters, o baixista e vocalista, estava a mil por hora – era o contraponto ideal para aquele clima festivo que, para muitos, parecia for de propósito.

E então lá fomos todos nós, garotos no meio da adolescência, passar horas no cinema, em seguidas sessões, tentando entender aquele volume fantástico de informações embalado por música tensa, densa e incômoda. 

Era uma quebra imensa de paradigmas, com mensagens políticas contundentes e um mergulho profundo nas neuroses e nos traumas de uma sociedade em alta velocidade que triturava o ser humano com base em um capitalismo predatório. 

Era muito pesado para garotos e garotas de 13, 14 anos – a censura que limitava a idade permitida não era um problema -, mas o fascínio que Pink Floyd e seu filme exerciam e exerceram tornava a ida ao cinema obrigatória.

Há 40 anos, a exibição de “The Wall” era um ato libertário. Foi libertador e teve impacto fulminante n cenário do entretenimento em que o mundo era perigoso, sob  ameaça de devastação nuclear, mas extremamente simples em termos ideológicos. 

Cena do filme ‘The Wall’ (FOTO: REPRODUÇÃO)

Já era uma época tecnológica, com os primeiros computadores pessoais, mas o volume de informações que processávamos era, de certa forma, controlado, o que nos permitia absorver a carga cultural e emocional cm mais qualidade.

“The Wall” foi a alegria de professores de história, geografia e OSPB (Organização Social e Política Brasileira), que perderam todos os pudores na abordagem de assuntos espinhosos que a ditadura tentava controlar nas salas de aula de escolas privadas e públicas.

E então tínhamos a chance de ver o mundo com outros olhos, outras cores para que percebêssemos o mundo doente e complexo que se desenhava naquela década de descobertas e de notícias infinitamente ruins.

O filme de Alan Parker fez parte da formação intelectual de toda uma geração que via a ressaca do “flower power”, do cinismo ressentido de uma geração que seria ter fracassado e que decidia abraçar o sistema, virando em parte os chamados “yuppies” nos Estados Unidos.

Nos 40 anos de celebração do lançamento do filme, pode-se dizer que muitas distopias ficaram para trás e que outras nos espreitam, mas que foi fundamental que um álbum duplo de rock progressivo e um filme extraordinário baseado no LP jogasse luz nas trevas da incerteza em uma era de vale-tudo em todos os sentidos.

As seguidas sessões de cinema nas tardes frias de 1982 foram libertadoras, com o arrombamento de portões da percepção. “The Wall” certamente mudou vidas e é impossível que alguém tenha ficado impassível ou não tenha sofrido algum tipo de influência. É, de certa forma, uma das obras-primas do nosso tempo.

O fim de muitas ilusões
Há alguns anos, um site inglês de cultura fez uma enquete querendo saber dos leitores qual era a distopia preferida da maioria. Venceu “The Wall”, do Pink Floyd, que naquele ano comemorava os 30 anos de seu lançamento. Em segundo lugar, apareceu “1984”, de George Orwell, seguindo por “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. 

Sinal de que a obra musical, e que virou filme, continua cheia de significados às vésperas da terceira década do século XXI.

Uma concepção de Roger Waters, o baixista e vocalista irado e politizado, “The Wall” teve pouca colaboração dos companheiros, especialmente do guitarrista David Gilmour. Era o auge das brigas internas, e a desintegração do grupo começava a ali, com a demissão do tecladista Roick Wright durante as gravações. Também não ajudou o fato de que o produtor Bob Ezrin estava afundado nas drogas.

Ainda assim, o disco é um dos pontos altos do rock, com seu preciso apontamento das dificuldades de comunicação que atingem o ser humano na modernidade, na educação amarrada e encaixotada com conceitos arcaicos (no caso, a inglesa) e radicalização política cada vez maior na sociedade, sempre tendendo para o autoritarismo. 

Durante a conversa que manteve cm Caetano Veloso recentemente, quando veio tocar no Brasil, Roger Waters lamentou que o tema de “The Wall” fosse tão atual e que refletisse muitas das coisas que ele refutou e combateu durante toda a vida.

“The Wall” ainda é uma obra fascinante porque remete a todos os nossos medos diante da evolução política e do pensamento político após a Segunda Guerra Mundial. 

O fim da Guerra Fria e a implosão do mundo comunista apontavam para uma era em que a economia daria as cartas, mas politicamente entraríamos me uma época mais serena, onde a democracia seria a vanguarda, ainda que focos autoritários e pensamentos mais conservadores perdurassem em vastas regiões do planeta.

O disco do Pink Floyd não ia contra essa tendência, até porque surgiu em 1979, mas era um doloroso lembrete de que, se havia otimismo com a derrocada de várias ditaturas totalitárias e com o aparente desgaste da Guerra Fria, por outro lado sempre havia o risco do retorno ao nacionalismo e a possível ascensão do fundamentalismo religioso/ideológico. Afinal, não era essa uma das mensagens de “The Wall”?.

Mais de 40 anos depois, o disco do Pink Floyd ainda nos coloca esses desafios – conter a onda totalitária que parte do mundo parece semear, revitalizar os valores democráticos e confinar o ódio político/religioso/cultural aos porões mais profundos. 

Roger Waters, em seu ativismo corajoso, mas às vezes voluntarioso demais, às vezes posa na bola, como no caso da Venezuela. Ele se equivoca quando faz uma defesa apaixonada e inconsequente de uma Venezuela destruída por um regime autoritário/personalista de inspiração esquerdista.

Erra também ao insistir em um boicote internacional contra Israel quando é justamente o isolamento uma das características mais perversas para quem vive de cultura. 

No entanto, sua luta contra o pensamento fascista e contra qualquer tipo de autoritarismo é um farol que orienta os debates contra as forças obscurantistas – estas, quase sempre, conservadoras.

Estes lapsos e omissões não suficientes, no entanto, para que deixemos de reconhecer que Waters é uma das vozes mais importantes da cultura ocidental em prol da liberdade de expressão, da paz e contra o fascismo. E “The Wall” talvez seja o seu maior legado diante de uma era convulsionada por ódio, com muita gente ansiosa por erguer uma série de muros. 

Se “The Wall” representa, de forma contundente, como uma obra musical pop tem força para se tornar universal e imortal, é também um exemplo gigantesco de como se manter atual mesmo depois de 40 anos de seu lançamento, por meio do olhar perspicaz e certeiro de seu autor.