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 Marcelo Moreira



Não dava para imaginar que o espelho de Jair Bolsonaro roeria a corda de tal forma que causasse ojeriza até mesmo em aliados e que insuflasse uma malta de vagabundos a invadir o Congresso – exatamente como muitos vagabundos pedem e sonham no no Brasil.

Donald Trump, mais ex-presidente do que nunca, reduziu a democracia americana e a política partidária naquele país a uma mera briga de gangues extremistas sem legitimidade e sem qualquer credibilidade.

Aplaudidos pelos imbecis extremistas em todo o mundo, os invasores do Congresso norte-americano passaram um recado bem claro: não conseguirão vencer, mas vão incomodar bastante até colocar em dúvida o próprio sistema e a própria democracia. Quer coisa mais fascista do que isso?

Difícil não pensar que a nojeira ocorrida em Washington é um ensaio do que pode ocorrer em 2022 no Brasil, com a diferença de que aqui o gado é muito mais numeroso – embora eu duvide que tenha alguma coragem para tentar algo parecido.

Por enquanto, é isso o que parece: uma briga de gangues de gente desclassificada que não aceita a derrota fragorosa e acha que pode virar a mesa. 

As gangues correspondentes neste país infeliz e em naufrágio estão ouriçadas. Seus próceres vomitam o tempo todo que Trump é um líder ue defende a democracia e a liberdade, ainda que com métodos fascistas e autoritários. 

Como defensor da liberdade, o presidente derrotado deve ser tratado como um santo guerreiro que lidera a “civilização” contra a “horda de hunos comunistas” que quer destruir os valores norte-americanos.

E cada vez mais músicos e fãs de rock que se dizem conservadores, mas na verdade não passam de gente burra, embarca neste trem desgovernado para justificar um apoio ao governo nefasto do incompetente e  Jair Bolsonaro. 

Não são poucos os idiotas que emporcalham o rock com seus vômito que preconizam “seguir o exemplo americano e invadir ainda hoje o Congresso brasileiro”. Para isso, espalham excrementos pelas redes sociais retomando o pensamento criminoso de que “bastam um cabo e um soldado pera fechar o STF e o Congresso).

Se por um lado as gangues trumpistas escancaram que estão dispostas a solapar os valores democráticos e bagunçar a democracia, por outro foi ótimo isso ocorrer justamente agora e nos Estados Unidos. O mundo inteiro ligou a luz de alerta para o que vem por aí nos próximos anos, em que a barbárie parece ser o instrumento político do extremismo de direita.

Jair Bolsonaro é tão tosco e ignorante quanto Trump e não pensa duas vezes em incitar suas matilhas de lobos e cães hidrófobos contra a imprensa e adversários, exatamente como fez Trump nesta quarta-feira, quando publicou um vídeo reafirmando que não aceita a derrota e que vai resistir, ao mesmo tempo em que incitava correligionários a impedir “o roubo da democracia” no Congresso.

Há tempos estamos falando, neste Combate Rock, que a resistência será necessária e dura para livrar este país da ignorância, do fascismo e da truculência estimulada por Bolsonaro. Assim como nos Estados Unidos, no Brasil há muita gente disposta a esticar a corda e flertar com o abismo. A massa de manobra se orgulha da própria ignorância.

E é triste testemunhar o silêncio e o acovardamento de parte expressiva da classe artística diante do avanço da barbárie. Não basta apenas os Detonautas Rock Clube trucidarem Bolsonaro, seu clã e o extremismo. É pouco. Estão isolados. É preciso engrossar esse caldo, seja com mais músicas detonadoras, seja com manifestações populares gigantes.

A ironia, o sarcasmo e a sátira de Tico Santa Cruz e sua turma não serão suficientes para mobilizar a sociedade contra a barbárie da era bolsonada. é preciso mais, é preciso coragem e mais volume para neutralizar ou mesmo destruir o bolsonarismo.

As gangues de Washington deram o recado e indicam que a radicalização, mais do que desespero, se tornou uma opção para erodir a democracia. 

Se nos Estados Unidos, a pátria de democracia, as coisas estão saindo do controle, imagine na frágil sociedade brasileira sempre às voltas com ameaças autoritárias e flertes com golpes militares e delírios fascistas?