Nova edição de ‘Café Bleu’ ressalta como Style Council mudou a carreira de Paul Weller

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A coragem para mudar é uma das características mais elogiadas no mundo profissional, mas em certas ocasiões a toada de decisão assusta e surpreende pela proporção que assume. Poucos tiveram a coragem de mudar no mundo pop como o inglês Paul Weller.

O guitarrista e vocalista é reconhecido como um dos maiores compositores do rock com sólida careira de 51 anos. Fundador do trio The Jam, um corpo estranho dentro do movimento punk, ganhou prestígio ao fazer rock com pitadas de blues, soul e jazz, mas não foi o suficiente. The Jam acabou em 1982 e, no ano seguinte, formou The Style Council com o tecladista Mick Talbot.

“Café Bleu”, a estria da banda, é uma das obras-primas do pop rock dos anos80. Esse disco fantástico está sendo reeditado agora em versão estendida com seis CDs. O material extra apresenta versões o vivo, ensaios, versões diferentes das músicas originais e até algum material inédito.

Ainda hoje é uma delícia escutar qualquer versão de coisas admiráveis como “Headstart for Hapiness”, “My Ever Changing Mood” e “You’re the Best Thing”. São gemas pop encharcadas de melodias cativantes e arranjos de extremo bom gosto.

A grande versão  de “Café Bleu” apresenta, como material inédito, demos antigas, takes alternativos e canções nunca lançadas. Há uma gravação ao vivo neste box que parece personificar perfeitamente os desafios enfrentados por Paul Weller após o fim do The Jam. Ele e sua nova banda, The Style Council, estão tocando no Goldiggers em Chippenham, Wiltshire, em março de 1984, apresentando faixas do então futuro álbum para uma plateia cada vez mais inquieta.

O público começa a assobiar de forma barulhenta quando Dee C Lee entra para cantar “Paris Match” e, enquanto a banda executa canções acústicas mais contidas — inspiradas, em diferentes momentos, por Antonio Carlos Jobim, Michel Legrand e Erik Satie —, é possível ouvir partes da plateia gritando com entusiasmo um verso do filme “Quadrophenia” (baseado em álbum de The Whoi): “Nós somos os Mods, nós somos os Mods / Nós somos, nós somos, nós somos os Mods!”

No início dos anos 80, Weller era tão grande quanto qualquer estrela pop britânica desde os Beatles. O The Jam estreava regularmente no topo das paradas de singles e álbuns.

Lojas de discos abriam à meia-noite para vender seus álbuns. Um milhão de pessoas tentaram comprar ingressos para a turnê de despedida da banda. Muito antes de o circuito de grandes arenas se consolidar, os promotores de turnês precisavam adaptar provisoriamente ginásios esportivos e piscinas para receber os shows do The Jam.

Mas Weller havia claramente superado as limitações de um trio de rock. Os fãs de pop britânico estavam acostumados a ver lendas do punk e do pós-punk criando novos projetos — PiL, Fun Boy Three, Big Audio Dynamite, General Public, Fine Young Cannibals, That Petrol Emotion, The Creatures, entre outros —, mas poucos tinham uma proposta tão contracorrente quanto a do The Style Council.

Weller queria buscar um “modernismo” autêntico que fosse desafiadoramente avesso aos dogmas do rock.

Ao unir-se ao pianista Mick Talbot — um mod com afinidades musicais semelhantes, vindo do subúrbio do sul de Londres —, ele desejava explorar R&B, funk, jazz, new pop, sonoridades exóticas de influência europeia e as novas vertentes de música eletrônica que surgiam na cena de clubes de Londres.

The Style Council seria um coletivo flexível e modular, com uma formação variável de músicos convidados (nos cerca de sete anos de atividade da banda, passaram por ela mais de 100 “Conselheiros Honorários” — quase o dobro do número de integrantes que passaram pela banda de Mark E. Smith ao longo de 42 anos).

Uma versão expandida de “Introducing…”, contendo 16 faixas, é o primeiro dos seis discos deste impressionante caixa.

O álbum traz a enxurrada de singles iniciais: a alegre e tipicamente mod* “Speak Like A Child”; a faixa com sonoridade inspirada na Motown “A Solid Bond In Your Heart”; a balada eletrônica ensolarada “Long Hot Summer”; a faixa funk “Money Go Round”; e a vibrante “My Ever Changing Moods” (o maior sucesso de Weller nos EUA).

Ainda parece surpreendente que algumas das outras faixas daquela época — como a balada de estilo folk “Spring Summer Autumn” e a canção com influência gospel “It Just Came To Pieces In My Hands” — tenham sido relegadas a meros lados B. Artistas de menor expressão poderiam ter construído carreiras inteiras com músicas tão boas assim.

Em março de 1984, o The Style Council já tinha material suficiente para um álbum duplo vasto e de temas variados — Weller idealizara quatro lados distintos —, mas a gravadora Polydor insistiu em um LP simples.

É por isso que “Cafe Bleu” soa como um álbum de recortes de ideias díspares; uma refeição composta apenas por aperitivos.

Weller é um líder relutante: das sete faixas do primeiro lado, ele canta apenas duas, em meio a uma peça de piano gospel, um instrumental de R&B ao estilo de Booker T, um pastiche de Art Blakey, uma balada romântica e melancólica em compasso 6/8 cantada por Tracey Thorn e outro instrumental no qual Weller executa um solo de guitarra sobre uma base de cordas ao estilo de Mantovani. Mérito dos fãs fiéis da época do The Jam que embarcaram nessa proposta.

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