O blues modernoe eficiente de Joanna Connor e Joanne Shaw Taylor

Joanne Shaw Taylor (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Duas pupilas do guitarrista americano Jo Bonamassa, o maior nome do blues da atualidade, reaparecem no mercado em uma série de trabalhos que consolidam o ótimo momento em que vivem. São elas as guitarristas Joanna Connor e Joanne Shaw Taylor, as duas com álbuns produzidas por Bonamassa recentemente.

A americana Joanna Connor, veterana da cen de blues de seu país, ganhou novo impulso na carreira quando o conterrâneo assumiu a produção de seu álbum de estúdio “4801 South Indiana Avenue”.

Com um blues mais voltado para o boogie, a instrumentista alcançou ótimos resultados nas paradas entre 2021 e 2022. “Best of Me”, de 2023, teve a curadoria e produção de outro mestre americano da guitarra blues, Mike Zito.

“Live on 11/11” foi gravado em um único show realizado na data que dá título ao álbum, em 2025, no The Fallout Shelter, em Norwood, Massachusetts. Connor compôs muitas músicas excepcionais ao longo de sua discografia — que conta com cerca de doze álbuns —, mas, nestas 10 faixas, ela opta por versões de outras músicas. Ainda assim, seus arranjos são tão únicos e distintos dos originais que até mesmo veteranos do blues serão surpreendidos.

Ela abre “Shake Your Moneymaker”, de Elmore James, com uma sequência de frases psicodélicas ao estilo de Hendrix, antes de lançar seu *slide* em um ataque frenético que eleva o boogie original de James a um patamar estratosférico.

Sua guitarra grita e geme enquanto o trio de acompanhamento mantém a base firme. De repente, por volta da metade da faixa — que dura quase oito minutos —, o andamento cai para um sussurro e Connor desliza para uma levada com influência de jazz.

O tecladista Dan Souvigny dedilha notas em seu órgão, aumentando gradualmente a energia até que ele e Connor passam a repetir um *riff* em tempo dobrado. Ao final, a música transformou-se em algo muito diferente de como começou.

Outra composição de James, “The Sky is Crying”, também é reinventada. A abordagem é mais voltada para o jazz do que para o blues, mas soa totalmente autêntica.

Os vocais robustos e cheios de alma de Connor conduzem a música para uma sonoridade R&B, com uma interpretação relaxada e carregada de emoção, lembrando o estilo de Bonnie Raitt.

Sua execução traz notas que se curvam em um legato suave e sinuoso, flutuando e deslizando em vez de atacar com aspereza, até culminar em uma torrente de energia explosiva. A versão não se parece com outros covers da canção icônica; ela a recria com imaginação e criatividade.

O mesmo vale para “Further on Up the Road”, cuja conexão com o sucesso de Bobby “Blue” Bland é quase impossível de identificar. Connor apresenta uma melodia mais contida — menos *blues*, mais animada e leve.

Se a letra não fosse tão conhecida, a música seria irreconhecível nesta roupagem. Ainda assim, ela brilha, lançando-se em um solo vibrante que, com a ajuda de Souvigny, transporta a faixa para a sonoridade de Derek and the Dominos.

Há outra conexão com Eric Clapton em uma bela interpretação de “Can’t Find My Way Home”, do Blind Faith. A música tem marcado presença constante em seu repertório ao longo dos anos; nela, a artista mais uma vez brinca com a dinâmica, alternando entre momentos suaves e intensos, antes de retornar a um desfecho delicado. É uma releitura interessante e respeitosa do clássico de Steve Winwood.

Migrando para o território de “La Grange”, do ZZ Top, Connor ataca “Magic Sam Boogie” com toda a garra e o entusiasmo que aquele ritmo boogie pulsante e característico merece. É uma faixa que certamente agrada ao público, com ela e a banda avançando por seis minutos que podem fazer você querer resgatar sua coleção do Canned Heat.

Turbilhão de criatividade

A inglesa Joanne Shaw Taylor é uma usina de criatividade em expansão. São dois álbuns e cinco EPs lançados desde 2024, m uma torrente de criatividade que ganhou impulso depois que se associou ao guitarrista Joe Bonamassa. Tornaram-se grandes amigos e o americano é presença constante nos shows de Joanne, assim como nos álbuns.

“Havy Soul” e “vlack & Gold”, os álbuns, foram indicados a vários prêmios de melhores lançamentos de 2024 e 205 e revelam uma instrumentista competente boa compositora, transitando entre o blues e a soul music, com um acento mais pop no segundo álbum.

Essa tendência se acentua em “Bad Boy”, o EP deste ano que chamou mais atenção. Se a faixa-título é um rockão vigoroso e acelerado, as demais canções apostam em temas mais reflexivos e melancólicos, embora os solos sejam excelentes.

Os oureis EPs são “look What I’veBecome”,. Do ano passado, “Tired of Being Right”, “ThisIs Who I Am” e The Girl That Loved Before”, todos deste ano. “Tired of Being Right” é o melhor, mais encorpado e com uma pegada mais blues rock, principalmente em sua faixa-título. As canções são mais pesadas e com riffs mais bem construídos, por mais que o viés pop esteja sendotrilhado.

Joanne Shaw Taylor é uma rara artista de blues que concilia bem as influências americana e inglesa, percorrendo o caminho bem-sucedido de outro guitarrista inglês, Danny Bryant, incorporando influências também do venerável instrumentista americano Walter Trout.

A parceria com Bonamassa modernizou o seu som e acrescentou mais arranjos com timbres diferentes, modificando o aspecto “vintage”. Os solos, antes econômicos, estão mais expansivos e criativos, como é possível observar o lançamento mais recente, “The Girl That Loved Before”.

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