Rádios piratas, instituições vitais para o rock britânico dos anos 60

Imagem: divulgação/reprodução

A tempestade quase afundara, de novo, a pequena embarcação motrizada que deixava todas as noites a costa da Inglaterra em direção a um navio fundeado em águas internacionais no Mar do Norte.

Ensopado, o “executivo” de termo e gravata, pálido e assustado,  foi inquirido por um jovem que demonstrava ávida admiração: “Como você consegue fazer isso, encarar essa, todas as noites?” A resposta foi imediata: Paixão. Paixão pela liberdade.”

A cena está em “Piratas do rock” (“The Boat That Rocket”, dirigido por Richard Curtis, de 1009), uma deliciosa comédia dramática sobre o mundo das emissoras de rádio ilegais/piratas no reino Unido nos anos 60. Ainda hoje existe uma dificuldade em dimensionar a importância que as “emissoras alternativas britânicas tiveram na difusão e expansão do rock  música pop nos anos 60.

As rádios piratas eram tão odiadas pelo sistema” que se transformou em caso de polícia, gerando uma guerra de narrativas e muitas perseguições que culminaram com o fim da “ilegalidade em ‘966, com encerramento de todas elas que operavam em navios no Mar do Norte e no Canal da Mancha (que separa Inglaterra e França).

O rock explodiu com força no Reino Unido em 1963 com a beatlemania e rapidamente tomou conta da Europa. Eram os jovens finalmente tendo uma música para chamar de sua a partir do blues e do rock and roll americano.

A indústria fonográfica e o sistema imutável” de castas inglês perceberam o que estava vindo e simularam um apoio à nova cultura jovem”, na tentativa cooptar e controlar o contexto. O rock era tolerado, mas desde que devidamente monitorado.

Esse monitoramento era realizado pela rede pública de emissoras de rádio e TV BBC, na maioria das vezes, e por outras pequenas empresas de cunho conservador.

A BBC praticamente monopolizava a transmissões de rock e privilegiava os Beatles, então em sua fase inicial e quase inofensiva, e outras bandas que não representavam riscos.

O que ninguém imaginava era que o circuito underground e rock e blues de Londres estava cada vez mais forte em 1964, mas era solenemente ignorado em 1964 pelas “emissoras oficiais”, ainda que o público fosse muito grande e com tendência de crescimento. Então surgem visionários malucos que a ideia de criar rádios alternativas e ilegais para divulgar novo artistas e uma arte moderna contestadora.

A solução foi alugar velhos navios caindo aos pedaços e posicioná-los em águas internacionais para fugir da perseguição da marinha inglesa e das polícias metropolitanas. Havia patrocinadores, mas também mecenas que ajudavam a bancar o sonho.

Muitos futuros astros da música passaram noites acordados para escutar duas vezes or semana apresentadores de programas que viraram lendas e abriram as portas de um novo mundo e lançaram uma enxurrada de novos artistas.

A mais famosa de toas as rádios foi a Luxembourg, que ficou tão importante que os próprios Beatles e Rolling Stones forneciam material raro e não autorizado para cultivar a aura de “rebeldes e alternativos”.

Havia de tudo: trechos d ensaios, fitas demo, trechos de shows e até músicas inéditas, muita delas executadas meses antes de seu lançamento, contando com a boa vontade dos próprios artistas.

As rádios piratas não representavam risco comercial para a indústria e para as gravadoras. A questão era ideológica deter o poder e o monopólio de ditar as tendências e de “fazer o próximo hit.

A classe política e os industriais não suportavam a ideia de não ter o controle e o filme os Piratas do rock deixaa isso bem explícito.

Diante desse quadro, as autoridades decidiram tratar a questão como de segurança nacional e travar uma guerra contra contra os “rebeldes”, considerados por muitos como “terrorits e subversivos”.

A perseguição aos DJs e técnicos era implacável e tornava as viagens de barco aos navios ancorados em alto mar um desafio e muito difíceis.

Eles encaravam longas jornadas ao vivo e gravações de programas para duas semanas, e quase sempre não havia comida suficiente. Só que a paixão e a liberdade e eram atrativos imensos para encarar com alegria aaquela situação.

O preço, no entanto, foi alto e a mão pesada arbitrária do Estado acabou dando resultando a longo prazo. A torneira financeira foi lentamente fechada, com os patrocinadores, sob pressão, sumindo aos poucos.

Com certa competência, a Marinha identificou as principais embarcações e, com base em novas leis aprovadas pelo Parlamento, atuou freneticamente na apreensão e desligamento de equipamentos. Ao final de 1966,

praticamente não existia mais emissoras piratas no Reino Unido.

As rádios piratas inglesas representaram o verdadeiro espírito contestador rebelde do rock ao criar alternativas para divulgar e celebrar artistas recusados pelo sistema, Representou um ecossistema rico e farto de qualidade, uma verdadeira exaltação à cultura e à liberdade cultual de pensamento e comportamento.
É claro que despertaria a ira do mundo conservador de viés autoritário e fascista – o mesmo que perseguiria e levaria à prisão dois dos Rolling Stones no ano seguinte.

No Brasil, o panorama não foi muito diferente a parti dos anos 70, só que com muito menos intensidade. Havia o espírito transgressor, ms sua difusão e alcance foram infinitamente menores.

Com status de emissoras comunitária em favelas e comunidades, tinham e ainda têm um caráter muito mais social e de serviços do que cultural e entretenimento. Ainda assim, foram muito perseguidas pela ditadura militar e mesmo elos governos José Sarney (1985-1990)   e Fernando Collor (1990-1992).

Compartilhe...