A força criativa e a tenacidade de Eloy Fritsch valorizam a música instrumental no Brasil

Eloy Fritsch (FOTO: DIVULGAÇÃO)


Houve um tempo em que a banda gaúcha Apocalypse se tornou sinônimo de rock progressivo no Brasil, um gênero que nunca foi bem compreendido por aqui, ao menos no que se refere a artistas nacionais do gênero.

O coração do Apocalypse, há algum tempo em mais um hiato, é o tecladista e fundador Eloy Fritsch, compositor extraordinário e prolífico, com uma carreira solo tão importante quanto a da banda – não bastasse tudo isso, é professor universitário e um dos pesquisadores mais importantes das áreas correlatas entre música e tecnologia da informação.

Sse novo álbum, intitulado “Epic Synthesizer Music Vol. 2”, é uma coletânea com novas versões para composições do músico. Frequentemente confundidas com temas de um subgênero chamado ne age, sus músicas são gemas do rock progressivo que ostentam riqueza de detalhes e arranjos minuciosos.

“Ainda que seja um subgênero que é bastante específico, com um público não muito extenso, é gratificante ver o resultado e a boa receptividade”, disse o músico em entrevista ao Combate Rock;

Mais conhecido fora do Brasil, o gaúcho Fritsch é um exemplo de talento artístico extraordinário que ainda precisa ser descoberto mesmo com mais de quatro décadas de atuação, e não somente na área do rock. Seu trabalho instrumental vai muito além desse gênero musical. “É importante ter o reconhecimento internacional e saber que meu trabalho é requisitado no exterior. Esse caráter universal do meu trabalho compensa qualquer dissabor eventual que ocorra por aqui”, celebra Fritsch.

As canções que compõem o álbum novo são melódicas, majestosas e épicas, formadas por texturas eletrônicas criadas através de sintetizadores e sequenciadores.


Painel variado

O álbum pode ser definido como um dos mais importantes de sua carreira, Começa com uma nova versão para a composição eletrônica “Spacetime” do álbum “Cosmic Light” (2021), lançado apenas na Holanda pela gravadora Groove Unlimited e que também foi selecionada para a coletânea alemã “Schwingungen Radio auf CD – Edition Nr.308” (2021).

A segunda faixa é uma versão reduzida de “Mayan Temple” mas que mantém o espírito virtuosístico do rock progressivo.

Na sequência, a música “Eternal” é um hino com o acompanhamento sinfônico em que a melodia é realizada pelo sintetizador e depois pela voz soprano. Esta música foi feita em homenagem ao compositor grego Vangelis, uma das principais influências musicais para Fritsch.

A quarta música escolhida para esta coletânea é “Spacelab”, do álbum “Journey to the Future” (2019), uma música cósmica e com lindas melodias, enquanto a música “Warp Drive” é um instrumental com solos virtuosos de minimoog (uma espécie de teclado) acompanhados por baixo e bateria. “Artificial Inteligence” é na linha da música eletrônica com vocais realizados por vocoder.

A sétima faixa se chama “Aurora Borealis” e apresenta uma bela melodia com textura sinfônica ao som de vozes femininas acompanhadas por sintetizadores.

A faixa épica “Atlantis” também apresenta temas cativantes com percussão e alternância entre sons sintetizados e de instrumentos étnicos.

Duas músicas do álbum “Exogenesis” são apresentadas aqui em novas versões. A primeira delas é a “Exogenesis Part I”, música eletrônica extraída da suíte de quatro movimentos de mesmo nome e a segunda “Neutron Star”.

Para encerrar a coletânea, Eloy Fritch apresenta a nova versão para a música “Beyond the Mountain” em que enfatiza as partes corais acompanhadas por sintetizadores.

Carreira longa

O tecladista já lançou 16 álbuns autorais lançados por gravadoras internacionais tocando teclado eletrônico e foi indicado quatro vezes ao Prêmio Açorianos de Música de Porto Alegre na categoria melhor compositor.

Em 2021 recebeu o troféu açorianos de melhor instrumentista pelo álbum “Moment in Paradise” (2020). Somando o Apocalypse e as gravações do projeto solo são mais de 30 álbuns lançados e várias participações em coletâneas.

Com a pandemia as apresentações artísticas pararam e Fritsch se dedicou a gravar o álbum “Moment in Paradise”, seu penúltimo registro de inéditas, utilizando diversos teclados incluindo os clássicos analógicos como o minimoog e os modernos como o Kronos, System-8, FA08 e Jupiter-80.

O último lançamento do tecladista é o álbum “Epic Synthesizer Music Vol. 1”, lançado em abril deste ano, trazendo dez composições inéditas.

Ouça a música “Moment in Paradise” no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=CeqLe8Ri-_M; Ouça o álbum “Moment in Paradise” no Spotify: https://open.spotify.com/album/12n6RN1JhVTyBcGaRpgCQq; Confira “Epic Synthesizer Music Vol. 1” no Bandcamp: https://eloyfritsch.bandcamp.com/album/epic-synthesizer-music-vol-1



Novas experiências

Incansável e workaholic, Fritsch também divulga o álbum “Dragons and Wizards”, lançado oficialmente em 26 de julho. Com sete faixas inéditas, o trabalho mergulha em universos de fantasia repletos de dragões e magos, mas carrega também as marcas da realidade enfrentada por seu criador: dois anos de perdas e reconstruções no Rio Grande do Sul, após os eventos climáticos extremos que devastaram a região.

Concebido como um álbum conceitual, “Dragons and Wizards” convida o ouvinte a adentrar um mundo de batalhas místicas, inspirado em franquias como “O Senhor dos Anéis”, “Como Treinar seu Dragão” e “Game of Thrones”. “Sempre fui fascinado por esse mundo incrível de dragões e feiticeiros.

Por isso, decidi criar um álbum conceitual onde a inspiração que tenho por esse lugar imaginário se transforma em música”, explica Fritsch. A proposta fantástica é apenas a superfície de um trabalho cuidadosamente elaborado e profundamente pessoal.

Musicalmente, o álbum ratifica a importância e a identidade de Fritsch como um dos principais nomes do rock progressivo instrumental no Brasil.

“Dragons and Wizards” é uma ode à tradição do prog setentista, mas com um toque contemporâneo: mescla estruturas complexas, mudanças rítmicas e harmonias modernas a uma ampla paleta de timbres, extraída de sintetizadores analógicos, órgão Hammond, piano elétrico e clavinete.

A base instrumental, formada por teclados, baixo e bateria, confere às faixas uma textura cinematográfica que alterna intensidade épica e introspecção.

Influências como Keith Emerson (ELP), Rick Wakeman (Yes), Tony Banks (Genesis), Jürgen Fritz (Triumvirat) e Chick Corea (Return to Forever) ecoam ao longo da obra, não como meras referências, mas como pontos de partida para uma linguagem própria, que Fritsch tem lapidado ao longo de décadas, tanto em sua carreira solo quanto à frente da banda Apocalypse;.

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