Para quem acha que arte não se mistura com política, é bom dar uma rápida escutada em alguns dos mais importantes artistas da Irlanda, notadamente os músicos. The Chieftaism The Dubliners e Clannad são só os mais conhecidos por resgatar a tradicional música folk gaélica de protesto compostas e executadas ao longo de centenas de anos.
A Irlanda é uma pequena ilha a sudoeste d Grã-Bretanha que teve breves momentos de independência ao longo de 2 mil anos. Foi ocupada por romanos no começo da Alta Idade Média e, em seguida á desocupação destes, sofreu com invasões nórdicas praticadas por vikins – com breve ocupação da costa leste por dinamarqueses.
Quando o domínio dos normandos se consolidou na Inglaterra, a partir de 1066, a Irlanda foi progressivamente ocupada e retalhada por nobres britânicos por mais de 900 anos, até que a guerra civil eclodisse no começo do século XX. A autonomia progressiva começou a partir de 1922.
O problema é que a Irlanda do Norte, habitada majoritariamente por britânicos protestantes e seus descendentes, ficou unida à Grã-Bretanha, para ódio dos políticos da República da Irlanda. A luta pela reunificação ficou mais feroz a partir dos anos 60, com os atentados terroristas do IRA (Exército Republicano Irlandês, em português).
A violência política e a brutal repressão britânica moldaram gerações de irlandeses, como os integrantes de bandas como Thin Lizzy, Taste, Boomtoen Rats, U2 e The Pogues, entre outros. Phil Lynott (1949-1986), baixista e vocalista do Lizzy, é considerado um herói nacional e virou estátua em Dublin. “Eu sou a personificação da resistência política, costuma dizer, referindo-se ao fato de que era músico, negro, irlandês e católico, tudo o que os britânicos odiavam na época.
Entretanto, foi o guitarrista Rory Gallagher quem mais se arriscou e enfrentou a violência dos dois lados nos anos 70. “Subir ao palco é um ato político; cantar é um ato político. Cantar sempre foi um ato de resistência por séculos na Irlanda”, disse certa vez durante uma apresentação na sua cidade natal, Cork, no interior da Irlanda.
Entre 1973 e 1975, era uma unanimidade: era detestado por britânicos e por terroristas do IRA, já que protestava contra atentados terroristas e denunciava os crimes brutais dos britânicos contra a população católica da Irlanda do Norte.
Por várias vezes desafiou ordens para não se apresentar em determinados locais da Irlanda, da Irlanda do Norte e da Inglaterra, mesmo sob ameaças explícitas de morte
Assim como Pelé, o rei do futebol, parou uma guerra no Congo, nos anos 60, para se exibir com o Santos, Gllagher interrompeu brevemente o ciclo de violência na Irlanda do Norte. Durante a sua turnê longa pelo país em 1974, desafiou a determinação do governo inglês para não tocar na Irlanda do Norte.
Fez questão de desobedecer a ordem e anunciou publicamente queria tocar em três teatros de Belfast e Derry, na Irlanda do Norte. Lotou todas as dez noites e foi aclamado como herói nacional dos dois lados da fronteira.
Tanto o IRA como as cinco milícias protestantes armadas decretaram uma trégua de um mês enquanto a série de shows ocorria nas duas cidades.
Morto em 1995 devido a complicações em um transplante de fígado, Rory Gallagher também ganhou uma estátua, só que em Cork, onde nasceu, e também ganhou statu de herói nacional, como Phil Lynott.