A “redescoberta” da banda irlandesa punk The Pogues contou uma edição caprichada do álbum “Rum Sodomy and the Lsh”, uma versão especial elos 40 anos de sua edição original. Criadores do chamado celtic punk, com a adição de elementos da música folclórica irlandesa, The Pogus é até hoje uma da mais originais atrações roqueira a surgir na Europa desde sempre.
Liderada pelo carismático, mas insano, vocalista Shane MacGown, The Pogues chegou a rivalizar com o U2 nos anos 80 pelo legado deixado por bandas como Thin Lizzy e Boomtown Rats, até então maiores nomes do rock irlandês – isso se consideramos Rory Gallagher como um artista de blues.
Curiosamente, com o movimento punk em agonia, o rock se abriu na década de 1980 para as tradições folclóricas e o lirismo fantástico, enquanto o punk abriu a música tradicional para o deleite do canto arrastado e abrasões impensáveis.
O álbum de estreia dos Pogues, “Red Roses for Me”, anárquico e com produção mais crua, antecipava o clima de decadência que sempre acompanhou a banda e mostrava como era possível unir força do punk com a resistência e a resiliência tradicionais da cultura irlandesa.
Uma aósta certeira para produção do segundo isco, “Rum Sodomy & the Lash”, foi o guitarrista e cantor britânico Elvos Costello, então um artista em alta naqueles efervescentes nos 80. Ele sabia que havia sido escolhido para lidar com uma situação instável: “Vi que minha tarefa era capturá-los em sua glória decadente antes que algum produtor mais profissional os estragasse”, disse à época em entrevista àrevista inglesa Classic Rock Magazine.
Entre algumas faixas tradicionais, os dois melhores títulos de Roses eram verdadeiros banhos de sangue escritos pelo próprio MacGowan, que tinha o charme de vender a ideia de “me empreste dez libras e eu pago uma bebida”: “Boys From the County Hell” (“nós o pegamos pelos fundos e quebramos seus testículos”) e “Down in the Ground Where the Dead Men Go” (“quatro milhões de pessoas morreram de fome / Podíamos sentir a maldição em seu último suspiro”).
Outros bons momentos são “Bottle of Smoke” e a vela canção natalina “Fairytale of New York”. “Rum Sodomy & the Lash” é simplesmente um dos álbuns mais redondos e sem reparos do rock, uma mistura de energia, maravilha e prosa mordaz com poucos iguais literários até hoje, além do próprio Dylan quando foi lançado há 40 anos.
A edição de 2025 tem as gravações originais 5a remasterizadas com faixas bônus, que inclui o enérgico EP “Poguetry in Motion” e a música mais pop que eles já fizeram, “London Girl” “Dirty Old Town”, de Ewan McColl, e especialmente a majestosa faixa de encerramento de oito minutos de Eric Bogle, “And the Band Played Waltzing Matilda”, são tão clássicas quanto qualquer outra coisa que os Pogues já fizeram.
E os dois vocais não pertencentes a MacGowan, de O’Riordan em “I’m a Man You Don’t Meet Every Day” e de Spider Stacy em “Jesse James”, ambos arranjados a partir de canções tradicionais, adicionam uma cor crucial e uma rotação de conjunto, tal como aqueles outros visionários do punk-fusion ligados ao Whiskey a Go Go, os Mekons, em 1985.
Misturados com a interpretação peculiar do gênio residente para “Navigator”, de Phil Gaston, e sua própria versão de “The Gentleman Soldier”, eles potencializam ainda mais sua capacidade como intérpretes, uma virtude do rock’n’roll sempre subestimada, embora os Beatles e os Rolling Stones tenham dependido dela em vários discos. É um álbum essencial para compreender o movimento punk e as peculiaridades culturais da Irlanda.